Odiar, verbo intransitivo?

Resultado de imagem para balaclava desenho

        CONTRA aquilo que diz a gramática, o escritor Mário de Andrade, numa de suas obras mais famosa, tentou provar (e até certo ponto deve tê-lo conseguido!) que “amar” é um verbo autossuficiente, não necessita de complemento – nem objeto direto, nem pronome nem preposição. Ama-se e pronto!, não importa quem, nem o quê.

        O verbo amar, dizia o grande autor de Macunaíma e Pauliceia desvairada – um dos pioneiros do português moderno (ou da “língua brasileira”) -, é verbo intransitivo; dispensa complementos verbais. Não é preciso dizer a quem, nem o quê se ama. Ama-se, simplesmente; ou seja: somos capazes de amor e pronto.

          É como o verbo “nascer”. Intransitivo. Dizemos assim: “Meu filho nasceu” – e não é preciso dizer mais nada. A frase – sem artigo, pronome ou preposição -, por si só, já diz tudo; está plena de sentido.

       Lendo meio por cima as terríveis notícias sobre o massacre de Suzano; como quem quer e não quer ler – não sou capaz de descer a detalhes nem ver as imagens -, ocorreu-me que o verbo “odiar” também pode ser intransitivo – não requer complemento e, pelo visto, também não exige nenhum motivo – odeia-se por odiar, e pronto!

         É o que se vê nos porões escuros da chamada “dark web”, ou “internet sombria”. Onde se formam grupos e fóruns para cultivar a violência e o ódio gratuitos. Nesse reino de Tânatos, a deusa é a morte. Nos subterrâneos dos “chans” (fóruns de discussão), a violência, o ódio, a pedofilia e o racismo navegam na escuridão profunda dos oceanos digitais e vêm dar à praia analógica dos inocentes.

      Os matadores de Suzano fecundavam seu ódio exatamente aí – nas sombras da dark web. Os haters e trolls, nem as sombras procuram – destilam seu ódio abertamente, à luz do dia, envenenando a “clear web” . Simplesmente assustador.

         São monstros?, talvez. São doentes?, quem sabe. Ou seriam apenas um subproduto da internet? Seja o que for, é preciso lembrar sempre aquela famosa frase de Públio Terêncio Afro, dita há mais de dois mil anos: “Homo sum: nihil humani a me alienum puto”. Ou seja: “Sou homem: nada do que é humano me é estranho”.

       Não nos esqueçamos que a internet tem apenas 30 anos; já a violência e o ódio são bíblicos – não nasceram ontem. Quando muito, a rede ajuda a propagar, e pode até fomentar, ampliar, mas o ódio não está nem nos elétrons nem na granulidade dos pixels – está no homem; em nós.

        Isso que é assustador. Somos capazes de ódio – uns mais, outros menos. É um perigo universal. Ninguém está a salvo, imune. E pode ser ainda que odiar seja um verbo intransitivo. Autossuficiente. Desses que não necessitam nem complemento nem causa – só vítimas.

       É preciso combater e controlar o ódio na internet? É. Devemos coibir a cultura da violência na rede e fora dela. Sim. Precisamos punir os odiadores que cometem crimes brutais. Claro. Mas qual é o antídoto para o ódio? A Antítese eu sei: é o amor, a compaixão. Mas e o antídoto?

         De tudo quanto tenho visto, duas coisas são sempre lembradas: para fazer oposição ao ódio só mesmo a razão e a tolerância. A razão é o que permite nos colocarmos no lugar do outro, imaginar a sua dor e evitar agredi-lo; a tolerância pode (e deve) ser exercitada, mas creio que seja um dom. Sinceramente, não vejo muita saída além daí; além dessas duas coisas que respondem pela nossa especificidade humana.

          Notemos,  ademais, que não foi outro o conselho do grande Voltaire: Luz e tolerância – para enfrentar o ódio, o preconceito e a violência. No seu famoso Tratado, escrito justamente a propósito de um crime em que esses sentimentos atávicos afloraram com a fúria cega da ignorância e da intransigência (caso Jean Calas), apregoava o filósofo iluminista: “Instruí-vos e tolerai-vos”.

         A questão é complexa, reconheço. A internet necessita de algum cuidado e alguma regulação especial, não há dúvida; até seus criadores sabem disso. O problema é que ninguém sabe o que fazer – nem os gênios que desenvolveram essa maravilha fin du siècle sabem. Todavia, parece que um bom ponto de partida é entender que o ódio pode disseminar-se pela web, mas não chegou com ela.

__________

http://www.outrasprosas.wordpress.com

Anúncios
Publicado em Crônicas | Marcado com , , , , | Deixe um comentário

Premonição

  Resultado de imagem para matilha desenho

      O VETERINÁRIO, debruçado sobre a mesa de metal inox, onde estava estendido o cachorro, introduzia uma injeção de antibiótico no cateter colocado na pata dianteira. Enquanto isso, respondia mecanicamente às perguntas do garoto sardento, proprietário do animal.

      O garoto – na verdade um adolescente com cara de nerd -, fazia algumas perguntas inusuais. Quis saber se o veterinário fazia eutanásia em sua clínica. O veterinário disse que sim. O rapaz indagou em seguida com que frequência, qual era a média de sacrifícios realizados por mês ou por ano na clínica.

       Pego de surpresa, o veterinário já teve que pensar um pouco. Não soube dizer o número exato, mas disse que eram casos esporádicos – nem meia dúzia de casos por ano, se tanto. O adolescente quis saber então como era o procedimento e como é que ele, veterinário, se sentia toda vez que tinha de sacrificar um animal; pôr fim a uma vida.

    O veterinário, já estranhando a última pergunta, disse que, uma vez constatada a absoluta necessidade do sacrifício, e apenas para acabar com o sofrimento do animal, o procedimento era até simples: aplicava-se um relaxante muscular, introduzia-se um cateter numa das patas, dava um sedativo, e, por fim, um pentobarbital, que paralisava as atividades vitais sem dor, sem sofrimento, sem estresse.

       O adolescente insistiu: “Mas você faz isso tranquilamente, sem nenhum desconforto?”, “É natural pra você?”, insistia. O veterinário cofiou a barba meio ruiva e disse que não, não era uma coisa natural – é sempre muito triste ter que tirar a vida de um animalzinho, por mais que ele esteja sofrendo. Fez questão de ressaltar que só fazia isso em último caso.

        Ao que o garoto completou: “Então aplicar aquela injeção de pentobarbital não é como aplicar essa de antibiótico para diarreia, que você está aplicando agora no meu cachorro, certo?”.

       O outro concordou imediatamente: “Claro, são situações muito diferentes; no caso do seu cachorro eu sinto que a injeção de antibiótico está salvando uma vida, me sinto bem por isso. No caso do pentobarbital é uma vida que vai embora – a diferença é grande”. Respondeu na esperança de que a conversa parasse por ali.

       O garoto retornou: “Deve ser difícil, porque quando se põe fim a uma vida está-se pondo fim a um ser único, que nunca mais se repetirá”. Esclareceu que já tinha visto um filósofo dizer exatamente isso – uma vida é um universo único; quando ela se extingue, é todo um universo irrepetível que se vai embora.

    Reparando melhor no jeito meio intelectualizado do adolescente, o veterinário confessou que nunca tinha pensado nisso; nunca havia encarado o problema por esse ângulo, digamos, mais filosófico. Partes daquele diálogo vinham-lhe à cabeça inesperadamente. Ora: “…universo irrepetível…”, inquietou-se.

       Não deram quinze dias desde essa conversa com o intelectual sardento, tocou o telefone da clínica. Era um senhor perguntando se ali faziam eutanásia. Seu cachorro estava com câncer. A secretária disse que sim, faziam eutanásia, mas era preciso avaliar clinicamente o animal e fazer alguns exames laboratoriais.

       O homem apareceu no dia seguinte trazendo seu pet. Era um labrador de treze para quatorze. Dócil e brincalhão como são os labradores. Teve o câncer diagnosticado há mais ou menos um ano e precisava tomar muitos remédios, diariamente, além de acompanhamento médico-veterinário bem de perto – as dores já haviam começado e a evolução, imprevisível.

        O homem era um japonês nissei ou sansei. Havia arranjado trabalho no Japão e precisava viajar no mês seguinte. Não tinha com quem deixar o cão. Sua mãe estava muito velha, mal conseguia dar comida ao animal. Já, os irmãos moravam longe, não ligavam para o cachorro e certamente o deixariam morrer à míngua, sem tratamento – a solução era mesmo a eutanásia.

      Feitos os exames, constatou-se que realmente o câncer estava já avançado. E avançando. Mas as dores ainda eram controláveis. O veterinário argumentou dizendo que, embora o cachorro estivesse na iminência de sofrer muito, e já fosse idoso, o sacrifício só seria indicado mais à frente – ainda havia um trecho de vida; não era exatamente a hora.

       O japonês insistiu.

      Disse que viajaria muito mais tranquilo sabendo que o Titã não ficaria ao deus-dará, sofrendo. Era seu único amigo. Preferia vê-lo dormindo para sempre, tranquilo – isso seria melhor para os dois. Porque além de evitar o sofrimento físico do animal, a eutanásia evitaria também a dor da separação – era uma separação para sempre; para o cachorro, seria como se ele, o dono, tivesse morrido.

        O veterinário disse que entendia a situação. Dilema. A separação, pela morte ou pela viagem, seria mesmo inevitável. De qualquer jeito, haveria sofrimento e sacrifício. Mas não podia fazer nada. A morte induzida ainda não estava indicada. Para comprová-lo, argumentou: “Enquanto seu cachorro estiver brincando, é sinal de que a vida ainda faz algum sentido; não é hora de encerrá-la”.

       Aventou então a hipótese de uma doação. Mas o japonês disse que já havia tentado de tudo, com amigos e ONGs – ninguém queria um cachorro doente, em fase terminal; todos deram desculpas plausíveis.

      O veterinário foi finalmente enfático: não faria a eutanásia. Lembrava-se daquela conversa desconfortável que teve com o adolescente: “Qualquer vida é sempre um universo irrepetível…”. Que castigo!, aquela conversa.

       Exibindo um ar contrafeito, despediu-se do japonês certo de que sua negativa fora a melhor decisão. Em horas assim, costumava consultar o pai, que era um veterinário prático, mas ele havia morrido há pouco tempo – sempre há alguma pergunta que desejaríamos fazer (ou ter feito) aos pais.

       Coincidência: dali a dois meses o veterinário estava em Cumbica, embarcando de férias para o Nordeste – era um verão abrasador. De longe, viu o japonês, que se dirigia lentamente ao portão de embarque internacional. Seu semblante era indefinível. Teve ímpetos de falar com ele, aproximou-se… Não foi reconhecido: o japonês estava distante, ausente.

__________

http://www.outrasprosas.wordpress.com

Publicado em Crônicas | Marcado com , | Deixe um comentário

“Sic”

Resultado de imagem para digitar desenho

           NOTEI que ultimamente tem aparecido muito “sic” em notícias de jornal, editoriais, artigos e quejandos. “Sic” é uma expressão latina que quer dizer “assim”, “desse modo”, ou “exatamente assim” – os latinos diziam: “Sic est”, assim é!

        Ela é uma palavra pra ser escrita, e não falada. É normalmente utilizada quando queremos transcrever algum trecho ou frase que estão grafados erradamente e desejamos manter o erro original, destacando então – com o providencial “sic” -, que ele (o erro) não é nosso, e sim do texto transcrito.

        Às vezes, numa situação dessas, usamos também o “ipsis litteris”, que quer dizer “literalmente” ou “com as próprias letras”. Com esse recurso do latim, a gente também avisa ao leitor que o erro contido no nosso texto não é nosso – é do outro; é daquele que escreveu a frase, palavra ou parágrafo que transcrevemos tal como está no original.

          Aí tem uma desculpa e uma sacanagem. Porque a gente transcreve o texto errado, põe um “sic” na frente e joga a culpa pelo erro nas costas do outro, expondo ao escárnio a pessoa que errou.

           Ultimamente, tenho visto muito “sic” nas transcrições das postagens dos Bolsonaro pelo pessoal da imprensa. Outro dia, um dos filhos do capitão foi escrever que alguma coisa havia chegado no “fundo do poço” e lascou um “fundo do posso”. Já caíram matando, dizendo que o cara é analfabeto funcional.

         Esse é o perigo das palavras ditas homófonas, que têm o mesmo som, mas grafias diferentes. Por exemplo: seção e sessão. Existem as duas palavras. Só que as grafias são bem distintas, o sentido semântico também, todavia, o som (fonética) é idêntico – só que uma coisa é uma coisa, outra coisa é outra coisa.

       O próprio “Coiso” outro dia, quando ainda estava no hospital se recuperando da cirurgia, foi escrever no Twitter que iria fazer mais uma “sessão de fisioterapia” e tascou um “seção” no lugar de “sessão”. O povo caiu matando… Imaginem um presidente da república cometer uma gafe dessas!

         Mas eu não acho muito legal ficar tripudiando em cima desse tipo de erro, não. A língua portuguesa é bela mas anda cheia de casca de banana. Estamos todos sujeitos a essas escorregadelas – não sei se alguém poderá atirar a primeira pedra!

             E tem outra, ficar pinçando erro de português no texto dos outros não é bom sinal. Pode revelar algum “preconceito linguístico”, que, como todo preconceito, só serve para estigmatizar e marginalizar pessoas, grupos e classes. Não veem o preconceito que têm com a gente, caipira aqui do interior, só porque “nóis fala nóis foi e nóis vai”?

         A internet acabou provocando isso. O povo começou a escrever mais – no Facebook, no WhatsApp, no Twitter… e os erros de grafia, de gramática, pontuação et cetera e tal, foram aparecendo. Porque falar é uma coisa, escrever é outra; na linguagem falada perdoa-se qualquer escorregadela, na escrita, a coisa pega.

          As palavras faladas vão embora com o vento – segundo os latinos, “Verba volant”. Isto é, as palavras voam… e levam com elas os pecadilhos da linguagem. Já as palavras escritas ficam; permanecem registrando e expondo o erro de quem as escreveu. Por isso, na hora de pôr no papel (ou na tela), pra não tomar um “sic” na cara é melhor tomar um certo cuidado.

           O problema é que nas redes sociais, onde o povo desandou a escrever, a linguagem é mesmo mais oralizada, mais informal, ninguém fica preocupado com português correto, com todos os esses e erres – e com razão; gramática tem hora e lugar. Ficaria muito pernóstico, e muito pedante, usar um português corretíssimo numa simples e despretensiosa mensagem de WhatsApp, por exemplo.

        Além do mais, o povo escreve correndo nas redes, sempre com pressa; ali, querem se comunicar e pronto. Uns escrevem até com o dedão – das duas mãos. (Se Deus quiser, ainda vou aprender a escrever com os polegares, e com aquela mesma rapidez que tenho visto por aí.)

       Mas enfim… Pessoalmente sou contra qualquer tipo de patrulhamento linguístico, sobretudo em relação àqueles que escrevem nas redes sociais. Inclusive os Bolsonaro. É sacanagem! Pior do que as escorregadelas gramaticais da família presidencial é o conteúdo, a mensagem que eles passam com seus textos – os maus tratos à língua é o de menos.

__________

http://www.outrasprosas.wordpress.com

Publicado em Crônicas | Marcado com , , , | Deixe um comentário

Leituras e leitores

Resultado de imagem para ler desenho

           DE ACORDO com as estatísticas, os brasileiros leem em média apenas 2,5 livros por ano – aí incluídos os livros religiosos e os didáticos; 30% nunca compraram sequer um livro na vida; dos que leram alguma coisa, 25% só o fizeram por exigência da igreja, da escola ou do trabalho.

           Lemos pouco? Claro que sim.

        Mas o que seria um bom leitor, digamos, um leitor habitual?, quantos livros essa pessoa leria por ano? E um leitor ou leitora voraz, lê quantos? Não sei se dá pra quantificar essas coisas na ponta do lápis. Mas vamos especular: um brasileiro que lê um livro por mês, lê uma dúzia por ano – muito não é; seria pouco? E dois livros por mês?

          Aí já dobra a cota, estaria de bom tamanho dois livros mensais? Pode ser, mas ainda não dá pra dizer que se trata de um leitor voraz – seria então um leitor médio? Vai saber! Imaginemos agora um livro por semana – são praticamente 50 livros por ano; creio que nesse caso a coisa muda, o caldo engrossa – não se pode dizer que se trata aí de um cérebro sem leitura.

          Pra ser considerado um leitor voraz – não sei qual a utilidade nem a necessidade de saber o que é um leitor voraz! – talvez tenhamos de dobrar a dose novamente: dois livros por semana; isso beiraria cem livros por ano. Creio que aqui já dá pra falar em “voracidade” – ou não? Ler mais do que isso, e dependendo dos livros, o cara não vai fazer outra coisa na vida!

        Enfim, não sei o que é ler muito nem o que é ler pouco, e creio que tudo isso seja bastante subjetivo. Deve-se levar em conta também a qualidade daquilo que se lê – não só a quantidade. Nós, os brasileiros, temos uma lacuna muito grande no nosso currículo escolar: o letramento; nos ensinam a escrever desde cedo, mas não nos ensinam a ler, nem o quê ler.

          Conversando outro dia com o funcionário aqui do condomínio, ele se queixou de que não lia nada. Não tinha o hábito de ler. E, segundo ele, isso era ruim. Pois sentia a necessidade da leitura; reconhecia a importância dos livros. Mas disse que não conseguia terminar um livro sequer. Até tentava, lia um pouco, mas não seguia adiante; não fora acostumado a ler – conformou-se.

        E pode ser que essa tendência de não leitura se agrave com a revolução digital. Estamos cada vez mais diante do écran (não reparem nesse galicismo, “écran” – foi só para enfeitar a conversa aqui; mas aviso que ele já está dicionarizado no Houaiss; em Portugal, só se diz écran, e não tela); enfim, a verdade é que vivemos pulando de uma tela pra outra sem sossego – do celular pro computador, do computador pro celular.

            Claro que isso vai diminuir nosso tempo pra pegarmos num livro. E lê-lo. Pode ser que a leitura então migre para o… desculpe!, écran. E pode ser ainda que ela se transforme numa “leitura em rede”, “em grupo”; ou seja, numa atividade coletiva: todo mundo lendo interconectado, em comunidade; como na “aldeia global” do filósofo e ícone pop Herbert Marshall McLuhan.

        Aliás, vejo agora no livro de Franklin Foer, O mundo que não pensa, que uma das utopias dos engenheiros do Vale do Silício em São Francisco, mestres da inteligência artificial, é justamente criar uma sociedade cooperativa, compartilhada, grupal e, segundo eles, mais solidária e menos solitária – nos termos talvez das comunidades hippies dos anos 60.

       Daí a nossa vida, e também a política, a economia, a cultura e talvez a leitura compartilhadas através da web – em grupos, em coletividades etc. Imaginem que a turminha genial lá da Califórnia diz que a leitura em livros impressos é uma prática muito isolada, fragmentada e solitária… e chega até a dizer que é antissocial.

           A grande aspiração deles é fazer com que as novas tecnologias produzam um mundo interligado – com menos solidão e mais felicidade. A leitura solitária de um livro, dizia McLuhan, teórico da “aldeia global” e um dos gurus do Vale do Silício, é isolacionista, “produz um deserto de informação confidencial”, ou seja, informação só pro leitor do livro, sem compartilhamento, com exclusão dos demais.

          E pensando bem, não tem nada mais solitário, isolado e mais íntimo do que a leitura de um livro. Na cama. No sofá. No cantinho da sala ou do escritório. McLuhan não estava errado – é o leitor consigo mesmo e seu livro e Deus; ninguém mais.

          Só que agora, com a vida permanentemente em rede, compartilhada sem descanso, adeus solidão; adeus intimidade. Talvez estejamos dizendo adeus também aos livros. Porque sem solidão – que os gênios do Sillicon Valley querem abolir em nome da felicidade geral -, não há leitores, não há leitura.

         Quer me parecer que precisamos ler um pouco mais  – e, sobretudo, pensar mais -, sobre essa empolgante revolução digital!… Esse mundo high-tech que produz maravilhas, é verdade, mas que precisa admitir que há vida inteligente fora das redes. Os livros impressos e não o écran, mesmo que um dia se tornem peças de museu, talvez ainda sejam uma evidência disso.

__________

http://www.outrasprosas.wordpress.com

Publicado em Crônicas | Marcado com , , | Deixe um comentário

Nem gramática nem matemática

Resultado de imagem para matemática desenho

           DOIS e dois “são” quatro ou “é” quatro? Pelo que diz a gramática, nesse caso temos de fazer a concordância do verbo “ser” com o numeral “quatro”. Como este último é um número plural (pois é obviamente superior a um), então devemos dizer que dois e dois “SÃO” quatro. Não tem erro!

         Sendo assim, pela lógica deveríamos dizer também que dois e dois “são” iguais a quatro”?

          Não. Aqui a coisa muda. A gente tem que dizer que dois mais dois “é” igual a quatro. Porque, segundo a gramática, quando o verbo “ser” vem seguido de quantidade (igual, menos, muito, pouco, demais, bastante, suficiente…) ele fica no singular – por exemplo: Vinte centavos “é” muito pouco para derrubar um presidente. (Me corrijam se eu estiver dizendo asneira!)

           Por aí se vê que gramática não é lógica nem matemática – é também intuição, beleza etc. Eu penei com a matemática no colégio; não conseguia entender por que é que tínhamos de saber de cor a tabuada de um a dez; ou extrair a raiz-quadrada de um número qualquer, escolhido a esmo – me parecia tudo muito abstrato, gratuito, sem quê nem por quê.

           O que é um número-primo? A única coisa que sei: é o número divisível por 1 e por si mesmo. Pra que serve? Não sei. Não conseguia me empolgar com essas coisas. Achava que era tudo coisa de doido, ou de cérebros privilegiados como cérebro de gênio – não era coisa de gente normal.

          Qual a serventia, por exemplo, de saber o valor do número Pi, simbolizado naquela famosa letrinha grega (π)? O que fazer com ele no dia a dia? Para complicar mais ainda, além do nome grego, o Pi era considerado um número irracional – o que, a bem dizer, o tornava um pouco mais simpático, mais humano.

         Se me tivessem dito que os egípcios, bem antes de existir a temível matemática, já usaram o Pi (3,14…) para construir as grandes pirâmides de Gizé, eu talvez tivesse entendido que aquelas operações todas do colégio – que nunca iria usar na vida -, não eram pura abstração arbitrária nem simples passatempo, como o jogo dos sete erros, palavra-cruzada ou o sudoku dos japoneses.

           Dizem que o Pi tem um fracionamento infinito. Essa parece ser uma certeza e uma esquisitice da matemática. Acabei, porém, de ler o clássico da antiutopia, o romance Nós, do russo Ievguêni Zamiátin, onde o matemático protagonista da história diz a certa altura: “Pelos meus cálculos, o infinito não existe”.

            Eu, que sempre andei cheio de dúvidas (e desconfianças) em relação à matemática, acabo de saber agora mais essa: o infinito não existe. Então não adianta pôr os computadores pra calcular o Pi – como andam fazendo hoje -, porque isso não levará a lugar nenhum: as frações vão até o infinito e o infinito simplesmente não existe.

           Pelos meus cálculos, sou levado a concluir que os confins do Universo, que também dizem ser infinito, é outra coisa que não existe. Como é que Deus pode ter esquecido de criar o “infinito”?

           Não é à toa que no colégio eu preferia o estudo da língua portuguesa. Mas não ia lá muito bem com a gramática, não. Era muita regra; muita classificação. Alguém saberia dizer por que motivo haveríamos de aprender o que é uma “oração complexa de transposição substantiva”? Eu ficava invocado com toda essa decoreba da nomenclatura gramatical!

      Aprendeu o que é sujeito, verbo e predicado; mais a concordância, regência e pontuação, pronto… bola pra frente… É só sair escrevendo. Treinando o letramento com leitura e escrita. Vê lá se tem alguma utilidade saber o que é uma “locução pronominal indefinida”! No fim das contas, isso se parece mais é com o Pi: irracional e infinito…

         (O nosso maior escritor, que é sem dúvida um dos maiores da “inculta e bela flor do Lácio” – imaginem!, o grande Machado de Assis -, disse certa vez, não sei se num acesso de modéstia, que não morria de amores pela gramática, nem a dominava completamente.)

          No colégio, eu gostava mesmo era das aulas de redação – que eram tão poucas!

        A gente aprendia gramática, mas não aprendia a escrever. Escrevia-se muito pouco. Ou quase nada. O conteúdo da disciplina era normativo demais. Rígido. Enfadonho. Aula de português – eu achava -, deveria ser pra ensinar a escrever o português; não pra ficar ensinando nomenclatura e regras de gramática… como se fosse matemática.

__________

http://www.outrasprosas.wordpress.com

Publicado em Crônicas | Marcado com , | Deixe um comentário

Acabe com a farra

Imagem relacionada

            NESSA altura do campeonato, se o material já está dando algum sinal de fadiga, se o deslizar do tempo já se faz sentir aqui e ali – afinal, são tantos anos de uso contínuo, e às vezes desregrado – então é melhor tomar algumas providências; visitar o médico e, sobretudo, acabar com a farra.

          Essa foi a melhor frase que ouvi nos últimos tempos: “Acabe com a farra”. E não foi médico quem a disse, não. Não foi nenhum nutricionista nem esses fanáticos por dieta. Foi um ex-gordinho de meia-idade, muito falante, que é vigia do Banco do Brasil, onde deixo os meus caraminguás.

      Estava esperando na fila e ouvi quando ele disse pro colega: – “Não precisa de nutricionista, não; se você quer emagrecer mesmo, é só perguntar para um magrinho que já foi gordinho como é que se faz”. E emendou: – “Eu já fui gordo, bem gorducho mesmo, não era obesidade mórbida, mas eu era gordo… olha aqui essa foto da carteira de motorista”.

            O outro quis saber então qual era o segredo, e o ex-gordinho foi enfático: – “É fácil, é só acabar com a farra”. “Que farra?”, perguntou o amigo. Aí, com ares de soberba, de quem ostentava o galardão de já ter derrotado um poderoso inimigo, o ex-gorducho explicou. “São três farras que matam a gente: a farra da boca, a farra da preguiça e a do sono”.

           A farra da boca, explicava ele, significa que a gente não pode exagerar com certas comidas e bebidas, principalmente doce, fritura, massa, refrigerante e álcool. Podemos comer um pedacinho de doce, ou tomar um refrigerante de vez em quando, só pra matar a “saudade”, e não a “vontade”; não deixe a vontade dominar.

         Pode comer um docinho, sim, mas não precisa comer meio quilo de tiramissu nem um pote cheio de sorvete depois da refeição; nem ficar beliscando doce e guloseimas noite e dia – explicava ele. Não é pra ficar que nem avestruz, com a cabeça enfiada na geladeira e a bunda pra cima.

         Uma cervejinha? Dá até pra tomar. E também um vinhozinho, lógico, no final de semana. O que não pode é derrubar o carregamento da Ambev. Nem beber quase todo dia só porque tá estressado. Porque quer relaxar. O álcool não relaxa porra nenhuma; o álcool derruba o peão e no outro dia o corpo dele tá pedindo mais e mais e mais… Morte lenta, velho!

           Massa – carboidrato -, pão, arroz, batata e aquela macarronada-tentação da mama ou da nona? – cuidado com isso! A gente tem de comer; faz parte. Não dá pra viver sem essas coisas. Só que não precisa lamber os beiços e comer de baciada. Isso é tudo coisa que a gente põe no cantinho do prato; e não até cair pelos cantos do prato – como disse a Ana Maria Braga.

       Com fritura é a mesma coisa: cuidado! Dá pra comer uma batatinha frita, um pastelzinho, uma coxinha. Por que não? O que não pode é comer meio quilo de batata toda vez; ficar comprando chips; devorando pastel de feira com coca-cola ou enchendo o pandu de salgadinho – como os que eles comem aqui no banco, depois do expediente, pra comemorar aniversário desse, daquele, daquele outro… é veneno!

            Outro problemão é a preguiça. Tem que mexer, velho. O corpo da gente é que nem bicicleta: se parar, cai. Você não precisa ser um atleta, nem um desses bombadinhos que andam por aí. “Veja aquele lá, ó, pra que tanto músculo?, é só pra carregar peso”. Não precisa muito: caminhar meia hora por dia, um dia sim, um dia não, já resolve: “Mas tem que ser direto – com sol, chuva, Supremo e tudo, que nem diz o Jucá”.

           O sono é outro que precisa tomar muito cuidado com ele. A gente tem que dormir um tanto certo por noite. Cada um tem seu tanto. Mas, como diz agora o Temer, “Tem que manter isso aí”, toda noite, a vida inteira. “Sono é treino!” – afirmou que leu isso em algum lugar; achava que foi um técnico de futebol quem disse.

            Não tem essa de ficar no computador até tarde da noite, nem no smartphone (que é outro computador), nem na tevê, ou lendo até de madrugada. Tem uma hora que precisa desligar tudo isso sem dó. “Pá!, desliga e pronto, vai deitar”. Relaxa. “Eu não deixo passar da meia-noite nem no final de semana: – “Antes, quando tinha as folgas, eu ficava até quase raiar o dia; só enrolando pra ir pra cama”.

         E resumiu: não tem muito segredo, não. Você pega aí qualquer médico, qualquer nutricionista, até essas dietas de internet, e pode ver que eles falam tudo a mesma coisa, é tudo igual: parar com fritura, parar com doce, massa e pinga; fazer exercício e dormir bem. A gente vira outro!

       Didático, o vigia ajeitou o quepe e encerrou sua peroração contra a turma de Pantagruel, mostrando inclusive o resultado prático: bateu orgulhosamente onde até algum tempo havia, segundo ele, uma  barriga e tanto. Falava e me olhava meio de rabo de olho, como se quisesse aumentar a plateia e puxar mais um para sua cruzada antipantagruélica.

        Não se meteu a dar aula de nutrição nem gastronomia – nada disso; tampouco receitou o que o outro deveria comer (legumes, verduras, grelhados etc.) – só o que não deveria pôr pra dentro. Não tinha preocupação com o cardápio. Sua implicância era mesmo com a tal da “farra” – aquilo que chamamos eufemisticamente, quase carinhosamente, de “excessos”.

__________

http://www.outrasprosas.wordpress.com

Publicado em Crônicas | Marcado com | Deixe um comentário

Clareza condenada

Resultado de imagem para escritor desenho

      OUTRO dia recebi pelo WhatsApp um excelente texto sobre aquele caso do comerciante Jean Calas, que, no século 18, em Toulouse na França, fora vítima de um complô judicial e condenado à pena de morte pelo assassinato do próprio filho, Marc-Antoine; descobriu-se logo depois que o réu era inocente, e que o julgamento fora uma farsa – influenciado pelo preconceito religioso.

          O texto estava muito bem escrito. Era de uma clareza, como se diz, solar. Escrito cartesianamente na ordem direta. Sem vícios de linguagem nem deslizes gramaticais – pelo menos que eu tenha percebido. Trazia a descrição impecável e objetiva dos fatos. Bem fundamentado, era uma verdadeira aula de História. Enfim, um texto que dava gosto.

           Inventei de ler – coisa que nunca faço -, os comentários de internautas logo abaixo do artigo. Eram todos elogiosos. Mas um deles, em particular, me chamou a atenção. O leitor finalizava seu comentário – aliás, bem redigido -, desta forma: “Apesar de muito explícito, o texto sobre o caso Calas é ótimo. Parabéns!”.

             O que me intrigou foi o “Apesar de muito explícito”: aquilo que eu considerava uma das virtudes do texto, na visão do internauta era um defeito. (Costumam dizer que o texto muito explícito trata o leitor como um tolo!)

           Tenho percebido, no entanto, que há algo de preconceituoso com a escrita clara, objetiva e linear – aquela sem rodeios nem eruditismo. É que o texto direto e claro sempre pode parecer simples demais, superficial, compreensível a qualquer um… Os escritos mais profundos geralmente são rebuscados; nunca se dão a entender logo de cara, na primeira leitura.

        O bom texto, com alguma qualidade literária, dizem os literatos, nunca é muito explícito, raso. Não apela para os clichês. Usa e abusa de metáforas, elipses e subentendidos, como se produzissem o tal efeito claro-escuro do Caravaggio: ou seja, projeta-se luz e sombra para desvelar e destacar as nuances, as coisas que o autor quer dizer e não diz expressamente.

          Até nem discuto isso. Quem sou eu. Clichê demais realmente incomoda, há quem diga que eles são “inimigos do bom gosto” (William Zinsser, em Como escrever bem); as metáforas ampliam os textos; as elipses provocam a imaginação do leitor; e os subentendidos são elegantes – respeitam a inteligência de quem lê.

        Nada disso, porém, me parece incompatível com a escrita clara, objetiva e simples. Simples não quer dizer simplório. Posso estar errado, mas acho que ninguém precisa brincar de esconde-esconde, nem afetar eruditismo, para ser entendido e respeitado por seus leitores.

      Eu mesmo – vou até confessar! – fujo de alguns escritores que para mim são indecifráveis. Pode parecer heresia – pode parecer não, é heresia – mas eu não leio uma Clarice Lispector, por exemplo. Nem um João Gilberto Noll. São grandes nomes da nossa literatura; mas as minhas lacunas e limitações literárias me impedem de desvendar tanto mistério.

           Perdão, mas às vezes me parece que eles praticam ocultismo. Bem entendido: não estou criticando Clarice Lispector nem João Gilberto Noll. Não tenho cabedal para isso. São autores reconhecidos, premiados, com obras adaptadas para cinema, teatro… publicadas mundo afora. Estou apenas confessando uma lamentável idiossincrasia, uma limitação pessoal.

            E de mais a mais, bem sei que a arte nem sempre é para ser inteiramente entendida, completamente captada e dominada pela razão. Suas funções não são apenas cognitivas. Ela tem propósitos estéticos, emocionais, semióticos, psicossociais, etcétera e tal. Sei disso!

         Porém, dizem que escrever é comunicar-se. E comunicar-se com clareza, creio eu, deveria ser o grande objetivo, a grande virtude daqueles que escrevem. Do contrário, pode ficar parecendo solilóquio – os que escrevem de forma cifrada, ou até criptografada, geralmente não se fazem entender, e portanto não se comunicam, ou “se comunicam” apenas consigo mesmo.

       O filósofo espanhol Ortega y Gasset dizia que a claridade – e não a linguagem hermética ou fechada -, “é a gentileza do filósofo”. Podemos parafraseá-lo e dizer também que a clareza e a objetividade devem ser a cortesia do escritor, seu “ponto de honra” – como diria o pensador hispânico.

         Nessa mesma linha vai o também filósofo Albert Camus, para quem “a escrita de maneira clara quer leitores, já a escrita obscura quer intérpretes”. Se bem que o próprio Camus, em alguns de seus trabalhos, e mesmo num de seus escritos mais importantes (O homem revoltado), nem sempre rendeu homenagens à clareza – e requeria, portanto, a interpretação de seus leitores.

         Reconheço que uma escrita clara e objetiva, com frases curtas e diretas, sempre correrá o risco das simplificações – ou até mesmo da superficialidade – mas acho preferível esse risco ao de incorrer na praga do eruditismo ou do intelectualismo estéril, que muitas vezes mais confundem que esclarecem – prefiro, como o escritor Roberto Saviano, as “palavras simples e incapazes de enganar”.

__________

http://www.outrasprosas.wordpress.com

Publicado em Crônicas | Marcado com , | Deixe um comentário

Colecionador de mortes

Resultado de imagem para cachorro desenho

          UMA década. Ontem, 9 de fevereiro, a Mel completaria, ou melhor, completou dez anos de existência: oito anos e meio na vida dela; dez anos na nossa. Quando uma parada cardíaca a levou em 27 de agosto de 2017, achamos que tudo tinha terminado. Não terminou.

          A morte sempre triunfa no final, é verdade. Mas ela só se consuma mesmo com o esquecimento definitivo; quando aqueles que ficaram já não se lembrarem nem falarem mais dos que se foram.

      Assim que diagnosticamos a miocardiopatia dilatada da Mel (uma síndrome que costuma afetar os bóxers e outros cães de porte grande), sabíamos que de uma hora para outra poderíamos perdê-la – e a perdemos de fato, numa madrugada de sábado para domingo; era lua crescente e faria então um domingo de sol.

        Diagnosticada a doença, passei a conviver “com a morte na alma”, chegava em casa esbaforido, procurando pela Mel. Comecei a ouvir e “colecionar” histórias daqueles que já haviam passado por isso, pela morte de um cachorro querido – o que ainda não era o meu caso, que até então nunca tivera um cachorro.

            Juntei muitas histórias; vou relatar aqui apenas três.

          Primeiro foi o caso do Jack, que morreu nas “garras” de uma sucuri às margens do rio Grande, numa fazenda em Paulo de Faria. O que me impressionou é que o seu dono, o Lu, um vaqueiro destemido e calejado pelas asperezas da vida, contou-me a história muito tempo depois e ainda chorou, com um meio sorriso no rosto, tentando disfarçar o choro fora de hora.

            Comecei a imaginar o que me esperava!

         A segunda história foi do pedreiro que trabalhou construindo nossa casa e passou uma semana em silêncio, andando pelos cantos, longe dos demais. Um deles me disse que era por causa da cachorra, que havia morrido atropelada. Quis saber direito a história, mas aquele homem forte, temperado também pelas rudezas da vida, não conseguiu me dizer nada; apenas encarou-me com os olhos marejados – uns olhos que diziam tudo.

        A terceira é a do meu primo-tio Neguito, que perdeu o Duque atropelado na estrada. Ele não presenciou o desastre. Procurou pelo cachorro uma semana e só ficou sabendo do ocorrido alguns dias depois, pela filha. Como é um homem experiente, sem grandes expansões emocionais – nunca o vi chorando – deve ter sofrido em silêncio.

       Passados mais de dez anos perguntei-lhe sobre o Duque e ele me contou a história, revelando uns detalhes do atropelamento e algumas qualidades e peripécias do cachorro – de quem se lembrava com óbvio entusiasmo, certamente com saudade, mas sem se queixar da sorte.

       Porém, o que me chamou a atenção foi que, no meio da conversa, sem nenhuma contração facial, sem nenhum tremor de voz que denunciasse choro, amargura ou dor, uma lágrima inesperada – uma só -, escorreu-lhe de súbito pela face e pingou na mesa; era uma lágrima seca, fora de controle, saída não sei de onde.

           De então em diante, eu já sabia o que vinha pela frente!

         Há poucos dias falei pelo telefone com uma amiga que havia acabado de perder sua cachorra para o câncer. Em desespero, perguntou-me se demorava muito a passar aquela angústia. Eu disse que sim, que demorava um pouco; mas disse também que a dor acabaria passando, e viraria uma saudade diáfana – uma saudade necessária.

          Faço esses registros como quem faz um protesto. Para dizer que a morte é poderosa mas não pode tudo. Ela não é o fim. Não consegue ultrapassar aquilo que ela mesma desencadeia; não ultrapassa nada daquilo que vem depois dela. A morte vem e vai embora deixando coisas que ficam para sempre – fazendo parte da vida.

            Ontem mesmo havia uma pequena vela acesa sobre o telhado do canil, e um vasinho com duas ixoras vermelhas acima do lugar onde a Mel dormia e dorme ainda sossegada, ao lado das cinzas do Preto, seu irmão – verdadeiros donos daquele pedaço; enquanto isso, confiantes e indiferentes a tudo, a Maia e o Paco brincavam ao redor – da morte, nem sinal; estava encarcerada, dominada aqui dentro.

           Para a Mel, 10.2.2019!

__________

http://www.outrasprosas.wordpress.com

Publicado em Crônicas | Marcado com | Deixe um comentário

Uma tarde dessas

Resultado de imagem para bicicleta desenho

           LIMBO de uma tarde quente, como outra qualquer – nada de mais. Nada que esperar dela. Nem desesperar. O calor se arrastando, pesado. Algumas nuvens esparsas – e brancas -, decorando o verão, ou denunciando talvez uma longínqua possibilidade de chuva; uma possibilidade sem ameaça, por ora.

          Sente-se o aroma agradável da ilangue-ilangue do vizinho, a cananga odorata, aqui conhecida como kananga-do-japão. Seu cheiro, facilmente confundível com o da romântica dama-da-noite, se espalha e suaviza. Dizem que a ilangue-ilangue é uma planta afrodisíaca, que combate até a depressão; no idioma malaio quer dizer “a flor das flores” – rainha.

        Pedalo com calma, e com alguma indolência, a velha Caloi 100 cor de prata – sem pressa. Conheço seu choro, seus rangidos pedindo graxa, sobretudo quando passo pelas lombadas. Sigo ouvindo o plec-plec do pedal, que parece vir dos rolamentos; ou da correia; ou da marcha mal engrenada.

           Apesar do calor e da monotonia, respira-se.

        Há ainda o perfume natural, que é mesmo das tardes; e há o perfume da cananga odorata; e o perfume que minha memória olfativa recupera de outras tardes, outros verões… Imagino o que não seria uma tarde dessas nas mãos – ou na pena – de um Rubem Braga, o “rei da crônica”: só poesia!

      As pedaladas, como as caminhadas – ambas sugeridas cada vez mais com mais insistência pelos cardiologistas -, têm o cheiro também da solidão. São tarefas solitárias. Introspecção. O músculo cardíaco agradece, mas não só – o cérebro também. Ao caminhar (e pedalar) – em silêncio com nós mesmos -, pensamos, recordamos, meditamos e até planejar, planejamos: as ideias parecem brotar do nada!

          Com seus passos largos, o quero-quero atravessa a rua num compasso de dança. De tango. Sigo devagarinho e vejo que manca. Não percebo nenhum sinal de ferimento ou malformação. Nunca tinha visto um quero-quero manco! Joga o corpo de um lado para o outro, vai coxeando, girando a cabeça lentamente, mas precavido… Pronto para o voo emergencial, se for o caso.

           A coruja-buraqueira solta um grito estridente. Até me assusto. Que exagero! Vai ver é por causa dos filhotes. Impaciente, me olha do muro. Sente-se ameaçada com minha presença. Pedalo bem devagar, procurando não importuná-la, como a dizer-lhe que não era preciso todo aquele escândalo; meio sem graça, ela gira a cabeça feito um radar, num controle de 360 graus.

         Cruzo um carro branco. Ou melhor, passo por um carro branco parado. Fiat placa GKE 4965. Súbito, troco mentalmente a ordem dos números da placa, de modo que eles formem o numeral mais alto possível – GKE 9654. Em seguida, automaticamente, meu cérebro procura obter o resultado oposto, reorganizando os números para formar o numeral mais baixo – GKE 4569. (Será algum tipo de T.O.C.?)

      Logo à frente, um ligeiro aclive. Esforço moderado. Sinto que os músculos da panturrilha, do abdome e dos braços estão trabalhando com alguma sinergia. No topo, estabilizo a marcha e volto a pensar: flashs, fatos, retalhos de memória… Não me fixo numa sequência de ideias por muito tempo, o movimento da bike leva a cabeça por diferentes trilhas.

           As galinhas-d’angola, meio encardidas, são três. Ciscam no gramado avidamente, em busca de alimento – pequenos insetos. Passo por elas e elas nem me veem. Ou fingem não ver. Sequer cacarejam. Com obstinada avidez, seguem batalhando o pão-de-cada-dia. São três solitárias sobreviventes. Em silêncio, contam uma história – em silêncio, penso na África.

          Quando a bicicleta se popularizou na Europa, início do século 20, foi uma paixão que só vendo. Diziam que ela curava muitos males, do corpo e da alma – até depressão curava. “As mãos no guidão e a alma ao vento”, é o que lembra o escritor italiano, Edmondo De Amicis, em La tentation de la bicyclette – não me recordo se chega a dizer que ela, la bicyclette, estimulava também o pensamento, o solilóquio; este deserto do eu-comigo.

           Chego à planície.

        Portanto, posso agora pedalar menos e pensar mais. Ou simplesmente pedalar sem pensar nada. Como aparentemente ocorre com os joões-de-barro (um casal, talvez) que ciscam e caminham sem pressa à minha frente, sob a sombra da árvore, onde paro um instante para observá-los melhor. Passos errantes, vacilantes… Retomo então a marcha interrompida.

       Tantos rumos. Ou rumos nenhuns. Ruas e rumos. Que se abrem e se cruzam. Se tocam. Se apartam… Direções. Quase não há trânsito – o rush é longe daqui. Lentamente, a tarde vai se retirando, trocando o cansaço e o calor esbraseado pela languidez – como sempre, morna. (Só faltou mesmo o cheiro de lenha queimada, que pena!) Sozinho, pedalo em direção a tudo…

__________

http://www.outrasprosas.wordpress.com

Publicado em Crônicas | Marcado com , , | Deixe um comentário

Molluscus infelix

Resultado de imagem para molusco desenho

          CALCULEM vocês que agora o ex-juiz da Lava Jato virou até nome de molusco. Um cientista da USP descobriu a mais nova espécie desse animal numa caverna do Ceará e batizou o bichinho com o nome científico de Lavajatus moroi – em declarada homenagem à famosa operação policial e ao juiz que a comandava.

          Sinceridade? Fiquei com dó do molusco.

      Raciocine comigo: o nome escolhido, evidentemente, não existe no latim. Porque quando a operação Lava Jato e seu comandante nasceram, o latim já havia morrido há muito tempo, muitos séculos. Fica parecendo, portanto, um nome artificial. Fajuto. Enfim, uma forçação de barra. Pra quê? E sempre haverá alguém a dizer que é puxa-saquismo. Ou ironia.

      Depois, tem outra. Sabe-se que a operação Lava Jato e seu juiz nunca foram exatamente uma unanimidade – e se o foram, o são cada vez menos. A credibilidade deles anda abalada, em baixa: tem muita gente dizendo que eles nunca tiveram imparcialidade. Que não tinham compromisso com a verdade. Que enxergavam as coisas de maneira enviesada.

            Isso não é bom pra ciência, nem pro molusco.

           De fato, nestes tempos em que o conhecimento científico vem sendo posto em xeque, quando estão ressuscitando o criacionismo bíblico no lugar das pesquisas de Darwin; num momento em que andam a defender que a Terra é plana, deitando por terra anos e anos de observações científicas, não é bom associar a ciência a pessoas e coisas com credibilidade ameaçada.

         Isso pode ameaçar não só o reinado da ciência, que vem desde o século 19, como também a própria credibilidade do cientista. E da sua pesquisa. E da instituição a que pertence. E do molusco, coitado.

             Mas os problemas não param por aí. É evidente, como já vi nas folhas e nas mídias, que vão associar – e comparar -, esse desconhecido molusco cearense a um outro molusco, mais vistoso e muito mais apreciado: o Cephalopoda coleoidea, a popularíssima lula; e isso não pega bem pro novo catalogado.

        Essa comparação será uma covardia. Porque, enquanto o Lavajatus moroi é um molusco das cavernas, a lula é do oceano. Um vive nas trevas, o outro navega nas águas turbulentas, mas brilhantes do mar. Enquanto um vive preso na escuridão de uma cavidade, uma fossa úmida, o outro surfa na vastidão do oceano, sinônimo de liberdade sem fim…

            O molusco cearense não terá vida fácil: sempre haverá alguém lembrando que existe também a lula-colossal (Mesonychoteuthis hamiltoni). E aí vão comparar esta última com o humilde Lavajatus moroi, e vão ver que não tem comparação; a diferença entre um e outro pode ser medida pela enorme diferença entre seus habitats.

        E tem também a lula-luminescente (Taningia danae). Ela é iluminada, brilhante, exibe uma coloração verde-amarela e anda por aí, nos mares do mundo, levando as cores da nossa bandeira pra todo canto. Enquanto isso, o Lavajatus moroi, tadinho, fica lá na opacidade da sua caverna, como se estivesse numa prisão.

    Mas o pior de tudo é quando se lembrarem da lula-gigante, conhecida como Architeuthis dux – que numa tradução livre pode ser chamada de “arquiteto-líder”. E aí vão dar essa liderança pra lula e deixar o molusco cearense de lado, lá na caverna, com suas pinturas rupestres, como se estivesse ainda no período cretáceo – ou na pré-história neandertalense.

           Fico preocupado com o nome e com o destino do nosso molusco recém-descoberto em terras de padim padre Ciço – temo que no futuro possam ridicularizá-lo, humilhá-lo.

         Ainda bem que ele foi encontrado aqui no Brasil, onde uma generosa legislação permite mudança de nomes que exponham o usuário ao ridículo ou à chacota; ou seja, nomes que possam causar constrangimento e humilhação – não é justo que o nosso valente molusco cearense seja escrachado por arrastar uma alcunha que ele nem imaginava nem pediu para si!

__________

http://www.outrasprosas.wordpress.com

Publicado em Crônicas | Marcado com , , | Deixe um comentário