O barqueiro da ilha

OBSERVADO atentamente pelo turista, o pescador disse em voz baixa, sem se voltar para o leito do rio, como se dissesse de si para si, ou como se estivesse pensando alto: “O Tatá vem descendo”. E continuou desembaraçando a rede, com a mesma indiferença de antes. O barulho do motor de popa foi crescendo à medida que o barco se aproximava, numa velocidade constante.

Já próximo à margem, o motor desacelerou, quase parando, e o turista pôde ler no casco de alumínio, em letras cheias e tinta verde: “Afonso Tatá”. Perguntou ao pescador de quem se tratava, e o rapaz, entretido com a rede, disse apenas que era um morador da região, que vivia numas terras na outra margem, do lado do Mato Grosso.

O recém-chegado atracou o barco no barranco, amarrando-o com uma corda de náilon num palanque na beirada do rio e desceu com as calças arregaçadas até o joelho, onde batia a água. Era uma calça jeans ligeiramente amarrotada. Numa das mãos, trazia uma pequena pasta bege de napa, na outra, carregava o par de sapatos velhos que calçou já em terra.

Sua pele era escura, muito queimada pelo sol. Exibia um rosco vincado, olhos castanhos bem pequenos, cabelos lisos e grisalhos, sob um boné de lona marrom. Cumprimentou o pescador com a indiferença de velhos conhecidos e perguntou algo irrelevante ao pescador. Este respondeu com o mesmo desinteresse e emendou: “Tá sumido?!”. É a chuva, disse o outro, calçando os sapatos e desarregaçando as calças.

Pelos trajes, o pescador deduziu e perguntou se era dia de ir ao banco. O recém-chegado confirmou dizendo que aproveitaria a carona do Vicente leiteiro até a cidade. Assim que o homem do barco se afastou ajeitando os cabelos sob o boné, o turista quis saber: “É índio?”. O pescador disse que não, que era gente da cidade grande, talvez de São Paulo capital, que morava ali havia muitos anos. Dedicava-se à pesca, mas tinha uma pequena roça de arroz e morava sozinho, numa casa ilhada por um braço do rio.

Já no interior do banco, o gerente, de onde estava, cumprimentou o homem do barco, acentuando bem as sílabas do sobrenome: “Boa tarde, seu Afonso Titinati!”. O gerente nunca mais esquecera o dia em que o cliente o corrigira pela pronúncia equivocada de seu sobrenome, que era de origem italiana e se grafava “Cicinacci” – mas pronunciava-se “Titinati”.

Acertou ali o recebimento de sua pequena aposentadoria, sacou o saldo da poupança que também era modesto, e tomou finalmente um rápido cafezinho com o gerente e outro funcionário. Falava pouco. Nunca se demorava, nem no banco nem no armazém, que eram os dois únicos lugares a que comparecia uma vez a cada trinta ou quarenta dias – às vezes até mais.

Na saída, cumprimentou educadamente o guarda que tinha por ele um misto de admiração e curiosidade. Aliás, a sua presença no banco sempre fora objeto de olhares curiosos (e disfarçados) por parte de funcionários e clientes. Seu sorriso simpático, e os olhos atentos, eram convidativos, mas quando alguém se aproximava dele a conversa não fluía, era cortada por silêncios e um ar de quem já estava saindo, de quem tinha pressa.

Afonso Cicinacci ouvia a todos com atenção, com certo respeito, até. Nunca se animava a discordar diretamente do que lhe diziam. Distribuía sorrisos discretos e anuências com ligeiro meneio de cabeça. Mas, por detrás do seu olhar expressivo, ficava sempre a sensação de que ele tinha, sim, suas próprias ideias sobre os mais variados assuntos que lhe propunham. Porém, preferia dar um sorriso no lugar das ideias – ou por modéstia ou por timidez.

A aparência que se podia considerar humilde, a postura desafetada porém digna, e o comedimento das palavras davam a ele um certo ar que, se não fosse de nobreza ou elegância, era certamente o de alguém que teve berço. A discrição com que chegava e saía confirmava essas impressões.

Nem bem saiu do prédio do banco, quase vazio àquela hora, e o guarda aproximou-se do balcão comentando com uma das funcionárias: “Coitado, será que ele não tem ninguém?”. A moça disse que há algum tempo havia aparecido ali um rapaz que diziam ser filho dede. O guarda corrigiu-a dizendo que era um sobrinho – mas disseram ainda que era só um conhecido da família.

Corriam histórias. Correu que ele havia matado uma pessoa em São Paulo e se escondera ali na divisa dos estados. Alguém disse que matara a mulher – a quem ele amava perdidamente. Outros disseram que foi em legítima defesa, que a mulher era louca. Ninguém sabia ao certo. E o silêncio de Afonso Tatá, sua discrição e a vida solitária, de ermitão na barranca do Rio Paraná, só fazia aumentar as especulações – ele nunca falava de si.

Uma vez, porque viram uma garrucha no barco de Afonso Tatá, saíram dizendo que ele fora matador de aluguel na capital paulista. Chegaram a dizer que o apelido “Tatá” era por causa do barulho dos tiros que ele dava, com uma pistola automática, que fazia tá-tá-tá-tá e ia derrubando a turma.

Mas isso era absolutamente incompatível com seu jeito retraído, tímido, respeitoso. De mais a mais, seu semblante meio cândido era de sofrimento – um certo desencanto passeava vagamente pelo conjunto de sua aparência; que denunciava um homem pacato. Por isso mesmo, cogitaram até que ele fora padre; abandonara a batina e se enfiara no mato – falavam de tudo.

Quando certa vez lhe perguntaram sobre o apelido delicado de “Tatá”, incompatível também com sua feição austera, seu jeito grave e talvez rústico – que não chegava a ser sisudo porque era suave – ele desconversou. Disse que lhe puseram esse apelido na escola e ele não gostou nem desgostou, deixou como estava.

O que não se sabe é se Afonso Tatá tinha conhecimento dessas histórias que corriam a seu respeito. É possível que sim, mas ele não dava a entender absolutamente nada. Parecia completamente alheio aos comentários. O que ele certamente sabia – era impossível não saber – é que o povo, tanto do lado de São Paulo quanto do lado do Mato Grosso, tinha muita curiosidade sobre sua vida. De herói, santo e bandido, corriam histórias a dar com pau.

De volta ao barco, encontrou de novo o pescador, que já estendera a rede num varal improvisado, e o turista com o colete salva-vidas desabotoado no corpo. Cumprimentou novamente a ambos e deixou uns trocados na mão do amigo pescador – que ficara olhando o barco na sua ausência. Trocaram ainda um dedo de prosa e, em silêncio, Afonso Tatá desamarrou o barco, içou o motor e partiu.

O turista, visivelmente intrigado, comentou: “Que figura, hein!”. Ao que o pescador respondeu: “É… meio caladão mas é gente boa!”. O turista quis saber mais alguma coisa sobre o barqueiro e o rapaz logo retrucou, categórico: “Não sei nada desse homem, falam muita coisa, mas eu mesmo não sei nada!”. E acrescentou: “Já pesquei com ele e ele me pareceu uma pessoa do bem, normal!”.

Disse isso e calou-se, ainda mais porque suspeitou que o turista poderia ser da polícia de São Paulo, pois se mostrava muito curioso. Para arrematar a conversa, disse que não gostava de falar muito do Afonso Tatá porque ele era uma pessoa que tinha força. Certa vez, mandou o pescador pra casa porque estavam precisando dele, quando lá chegou soube que seu filho tinha sido picado por cobra e necessitava urgentemente ir para o hospital.

Desde então, atribui a Afonso Tatá a salvação da vida de seu filho. E Afonso Tatá nem conhecia nem conhece ainda o menino. Além disso, teve uma noite que uns pescadores de fora chegaram apavorados aqui no porto, completou ele, dizendo que viram um homem andando por cima das águas, e que depois esse homem entrou num barco de alumínio onde estavam escritos dois nomes com tinta verde e o primeiro nome começava com A.

Passados dois meses desse dia com o turista, o pescador começou a dar pela ausência de Afonso Tatá. Esperou mais algumas semanas, um mês talvez, e resolveu dar um pulinho na casa do barqueiro, levou consigo o filho adolescente. Encontraram a casa fechada, o quintal em ordem e o barco de boca pra baixo sobre duas toras dentro de um rancho. Chamaram pelo dono, nada.

O pescador circundou a casa, forçou uma janela, forçou outra, foi até a porta dos fundos e conseguiu arrombá-la. Tudo em ordem. Até o radinho de pilha estava na cabeceira da cama. O cachorro, muito magro, rondava a casa, farejando tudo, e finalmente deitou-se debaixo do barco, como se estivesse à espera do dono.

O pescador esperou mais um pouco, a noite cairia logo e precisava voltar para recolher as redes e pôr o barco no jirau. Quando já estava embarcado preparando-se para zarpar, viu o vulto de Afonso Tatá que lá vinha da roça de arroz. Cumprimentou-o e explicou que havia arrombado a porta dos fundos porque estava preocupado com ele, e que o esperava na cidade por esses dias.

Zarpou sem que Afonso Tatá dissesse nada – era o jeito dele, pensou. Fato é que passaram-se mais de dez anos sem notícias do barqueiro da ilha – como o chamavam também. A casa e o barco permanecem lá até hoje, cobertos pelo mato e desbotados pelo sol. O cachorro que fora o único companheiro de Afonso Tatá durante anos ainda viveu mais algum tempo com uma família do Mato Grosso, que morava nas redondezas.

Muitos ainda perguntam ao pescador pelo misterioso desaparecimento de Afonso Tatá, pois ele fora a última pessoa que o vira antes do sumiço. O pescador evita essa história o quanto pode. Creio que contou-me a contragosto, mas o fez espontaneamente – para minha surpresa. Perguntei-lhe se ele achava que Afonso Tatá ainda vivia em algum lugar e ele foi taxativo: “Claro que vive!”.

Perguntei onde. Ele disse que nem imaginava. Mas tem certeza que o barqueiro está vivo. Pois, achava ele, Afonso Tatá era apenas uma pessoa que não gostava do passado, de nenhum passado. Pedi ao pescador que me levasse até a casa que fora de Afonso Tatá. Ele relutou, disse que não era o caso, perguntou se eu era da polícia, eu disse que não, e acabou me levando; meio ressabiado, mas foi.

Descemos o rio e chegamos do lado do Mato Grosso por volta das quatro da tarde. Subimos o barranco até a casa e abrimos a porta dos fundos, fechada com ripas pregadas ao batente, que ele mesmo pregara, e entramos, abrindo caminho por entre o mato e os arbustos invasores. A casa estava parcialmente destelhada, tinha lama em alguns cômodos e um cheiro úmido de lodo pelos cantos.

Dali a pouco, meu companheiro passou a chamar-me para irmos embora; estava sentindo a presença de alguém, talvez do próprio Afonso Tatá. Eu disse que era impressão dele. De minha parte, confesso que não sentia ali nenhuma presença, e sim uma ausência, confirmada pelo abandono, que era um cenário de certa forma desconfortável – nem eu mesmo saberia dizer exatamente por quê.

Disse então que desejava ainda ver o barco. Ele me levou até o ranchinho e constatei que o nome de Afonso Tatá estava quase apagado, mas dava pra ver bem a marca das letras e algum vestígio da tinta verde. Me dei por satisfeito e disse que podíamos ir embora. Fechamos então a porta da casa, repregando as ripas e descemos ao rio.

Eu me acomodei num dos bancos do meio, ele foi até a popa, ligou rapidamente o motor e partimos, navegando à jusante. Depois de meia hora no leito central das águas, iniciamos a travessia do rio em diagonal, para a margem paulista, e atracamos do lado de cá, exatamente no ponto de onde saímos.

No dia seguinte, último dia da minha viagem, fui me despedir do pescador e dei-lhe uma caixa de pesca. Ele agradeceu bastante. Sete horas e quinhentos quilômetros depois eu já estava em casa quando vi no celular uma mensagem de áudio. Era o pescador. Desculpou-se e disse que havia obtido meu número no hotel. Dizia na mensagem que se eu ainda estivesse por perto, e se quisesse, poderia voltar para ver uma coisa inexplicável: o barco do Afonso Tatá estava atracado no porto, do lado de cá do rio.

____________________________

http://www.outrasprosas.wordpress.com

Publicado em Crônicas | Deixe um comentário

Senhor doutor

EM PORTUGAL, o designativo “doutor” sempre vem precedido do pronome de tratamento “senhor”. É hábito deles chamar os graduados de “senhor doutor”. Estranhei um pouco quando estive pela primeira vez na terra de meus avós e um tio-avô que lá vivia, e que era padre, na frente dos outros só me chamava assim, com toda essa cerimônia – “senhor doutor”.

Tentei evitar esse tratamento cerimonioso demais, inusual para nós brasileiros, mas nada feito. O tio padre, como o chamávamos desde sempre, não abriu mão e só me tratava pelo nome íntimo, com que sou chamado na família, quando estávamos em casa: eu, ele e as irmãs solteiras, minhas tias-avós que moravam com o padre e seguiam, resignadamente, os rituais (e os ditames) dele.

Até as duas funcionárias da casa, Teresa e Conceição, me chamavam de “senhor doutor”. Disse a elas que não era preciso, que podiam me chamar normalmente pelo nome da intimidade, mas o padre não permitiu. Um dia, estando na sala de jantar, ouvi um fragmento de conversa entre eles na cozinha: meu tio repreendia as empregadas que andaram me chamando simplesmente pelo meu nome, sem doutor nem cerimônia.

Não adiantou o argumento de uma delas, a Conceição, dizendo que era eu quem preferia assim, que preferia deixar o “doutor” de lado. O padre foi firme, categórico: “Ora, pois, ele é um delegado ministerial no Brasil!” Fiquei na minha.

Naquela primeira viagem a Portugal – já lá se passaram quase quarenta anos – fui tratado realmente pelo padre e pelas tias com a típica fidalguia portuguesa. Soube até que uma das empregadas fora contratada como “mulher a dias” (diarista), especialmente para cozinhar durante o período em que lá estive – e comi de fato, como dizia o padre, à moda de “um rico português”, que come bem e suficientemente.

Me lembro até hoje dos cuidados do padre e do carinho das tias Elvira e Isaura, e das funcionárias Teresa e Conceição, para comigo. O padre me levou ao seminário onde lecionava latim, francês e alguma disciplina teológica; levou-me também a uma missa celebrada por ele na igreja pegada à Câmara Municipal, onde anunciou publicamente a presença de seu sobrinho, “senhor doutor” no Brasil.

Eu tinha grande curiosidade em conhecer os parentes de Portugal, especialmente o padre, com quem me correspondia por carta desde a adolescência. Me lembro como se fosse hoje do dia em que desembarquei na modesta estação ferroviária de Peso da Régua e, de dentro do trem, antes mesmo que o comboio parasse, já identifiquei o tio padre Ilídio, inconfundível, tamanha sua semelhança física com os irmãos que viviam no Brasil, entre eles, meu avô.

Desci do trem em meio a uma pequena multidão de passageiros que ali desembarcava e ele já veio em minha direção – “És o Beto!”. Abraçamo-nos afetuosamente. Apesar do semblante austero, e da postura imponente, percebi logo de cara, nos seus olhos e no meio-sorriso, uma certa satisfação com a presença do sobrinho-neto – que ele até então não conhecia, a não ser por cartas que trocáramos muito tempo atrás.

Como nos reconhecemos reciprocamente ali na estação, dada a identificação imediata dos nossos traços pessoais e o peculiar biotipo da família, vi o quanto fora desnecessário o telefonema que dei algumas horas antes, quando ainda estava na estação de São Bento, na cidade do Porto, ligando ao padre para dizer quais eram as características e a cor da minha roupa, de modo que ele pudesse me identificar no meio dos demais passageiros quando lá chegasse.

Ao telefone, ele disse apenas que estaria vestido como um padre, por acaso uma camisa branca e um blazer preto – foi assim que o encontrei. Lembrou ainda que talvez se parecesse com meu avô e os demais irmãos do Brasil. Dito e feito, parecidíssimos!

Embarcamos no seu antigo modelo Opel alemão, um sedan cinza-escuro ou marrom, e partimos para Lamego, a cidade onde o padre vivia e trabalhava, e onde eu ficaria hospedado, na vivenda Santa Teresinha, um sobrado da família perto do Liceu Nacional de Latino Coelho, na avenida das Acácias – era nesse endereço que, anos atrás, minhas cartas, a cada dois meses mais ou menos, desembarcavam ansiosamente.

Os dias que se seguiram, como se pode imaginar, foram de intensa curiosidade e emoção para mim – creio que para eles também. Nem preciso dizer que conversamos de tudo um pouco. Até de política falamos. Comedido, o padre não perdia a elegância e a fleuma, mas notei que olhava para o neto de seu irmão com certo carinho, alguma admiração até – afinal, tratava-se de um “senhor doutor na família”.

Num daqueles dias, o padre me entregou um conjunto de cartas que eu havia escrito e remetido a ele nos anos da adolescência, algumas com fotografias que tirei na época. Foi algo perturbador me reencontrar ali, daquele jeito, inesperadamente – tanto nos textos que escrevi no passado quanto nas fotos antigas que ele agora me devolvia.

Uma tarde, meio encabulado, peguei duas ou três cartas daquelas e desci pela avenida das Acácias até a praça da Câmara (prefeitura), onde gostava de me sentar nos dias cálidos daquele verão distante. Relendo-as, minha cabeça tentava encontrar no agora “senhor doutor” algum vestígio do adolescente que fui. Havia vestígios, sim, uns, mais ou menos nítidos, outros, quase que soterrados pelo tempo; e havia também, sei lá, qualquer coisa de perda…

____________________________

http://www.outrasprosas.wordpress.com

Publicado em Crônicas | Deixe um comentário

A vida é uma catacrese

PELA fonética e pela morfologia, o termo “catacrese” deveria significar “confusão” – mais ou menos como “ziquizira” e “ingresia”. Fala a verdade: catacrese, ziquizira e ingresia não parecem palavras de uma mesma família? No entanto, catacrese, como se sabe, é uma figura de linguagem, uma espécie de metáfora.

É quando – ensinam os gramáticos – a gente usa uma palavra em sentido figurado, ou seja, com sentido trocado (logo, não deixa de ter um certo parentesco com “confusão”). Por exemplo, quando falo que “o barco descia pelo braço do rio” estou usando uma catacrese, porque rio não tem braço.

O mesmo acontece quando falamos em “pé de briga” ou “pé de conversa”. O termo pé, que originalmente é um membro inferior do corpo humano, passa a designar o “começo” de uma briga ou de uma conversa. Hoje em dia, por exemplo, tem muito pé de briga e pé de conversa na internet; é um lugar de muita confusão.

A catacrese mais comum é o sentido de “embarcado”. Originalmente (e etimologicamente), “embarcar” significava apenas “entrar num barco”. Hoje, embarca-se em qualquer geringonça – avião, automóvel, ônibus, navio… e até barco. Embarca-se ainda em folia, arruaça e… confusão, assim como embarca-se também na mentira, na lábia e no conto do vigário – confusão de novo.

O doutor Valo – cujo nome era Álvaro; doutor Álvaro Afonso Moreira – gostava de dizer que a vida é uma catacrese. O nascimento é o embarque. A gestação são os preparativos para a viagem programada – são noves meses preparando a tralha. O parto é o momento exato em que se embarca na vida.

Já o transcorrer da vida, desde a infância até o final dela, seria o trajeto, percurso ou itinerário da viagem. Que pode ser longa, média ou curta. Confortável ou desconfortável. E, como toda viagem, tem também suas paisagens bonitas, os trechos agradáveis e, claro, os inevitáveis imprevistos e percalços. Muitas vezes desembarca-se no meio ou em qualquer altura da viagem, antes do final da jornada.

O desembarque, dizia o doutor Valo, é a morte. Às vezes é um desembarque brusco, com solavanco e tudo, antes mesmo de se concluir o percurso projetado. Outras vezes, faz-se um desembarque natural, tal como previsto desde o início – o viajante chega ao seu destino, depois de uma longa viagem, e desembarca naturalmente; mas, mesmo assim, quase sempre contrariado, pois todo mundo quer prolongar a viagem.

Para o doutor Valo, a catacrese é (ou deveria ser) uma palavra da família etimológica da ziquizira e da ingresia, pois, catacrese, no final das contas, sempre tem alguma coisa a ver com imprevisto e confusão. A vida da gente, prosseguia o doutor Valo, desde o embarque até o desembarque, é a maior prova disso.

Quer dizer, segundo ele, a vida é uma verdadeira catacrese, uma metáfora que troca o sentido das palavras e das coisas e acaba se constituindo num grande mal-entendido. Rindo, com os olhos meio fechados, o doutor Valo dizia: “Você ri, é?, mas a nossa vida é catacrética, amigão, vai por mim!”.

Depois que o doutor Valo Moreira fora processado por um fato natural da vida, que as leis penais, infelizmente, catalogavam como crime, intensificou bastante sua convicção de que a realidade não passava de uma metáfora trapaceira; dizia com mais frequência ainda que a vida era uma “catacreeeeese!” – acentuando e esticando a paroxítona, como se quisesse associar catacrese a cataclismo.

http://www.outrasprosas.wordpress.com

Publicado em Crônicas | Deixe um comentário

Um racista em desconstrução

NÃO sei ao certo se foi no primeiro, no segundo ou no terceiro ano do primário (antigo grupo escolar); não me lembro direito se tinha seis ou sete anos, mas lembro perfeitamente do fato; inesquecível. Um episódio aparentemente banal que, no entanto, grudou na minha memória feito visgo e nunca mais achou jeito de ir embora – talvez tenha sido a primeira grande lição daqueles meus primeiros anos.

Saíamos da escola em fila indiana, que naquele tempo era assim, caminhávamos em fila até chegar ao portão, onde a tropa se dispersava como a água do rio que chega na foz. A professora permanecia ao lado da fileira, garantindo o alinhamento e cuidando para que tudo saísse nos conformes – porque sempre havia os irrequietos que poderiam eventualmente bagunçar o coreto.

Eu seguia ordeiramente – como de hábito. No meio do caminho, entre o pátio e o portão, olhei para trás e vi, de cócoras na portinhola do sótão, rente ao telhado, um amigo de meu pai. Ele era funcionário da prefeitura e realizava trabalhos braçais. Era negro. Tive então a infelicidade de me lembrar da brincadeira que meu pai fazia com ele – ele que era também um endiabrado jogador de bola.

Virei-me, em alto e bom som, e disse-lhe a frase que ouvira tantas vezes, e que ambos, ele e meu pai, diziam um ao outro: “Nego, diabo!”. Foi com certeza uma das frases mais infelizes e mais inoportunas que pronunciei na vida; custou-me certamente meu primeiro grande constrangimento público – a vergonha na frente dos colegas.

A professora, não me lembro se foi a do primeiro (Dona Delfina) ou a do segundo (Dona Mariinha), e poderia ter sido até a do terceiro ano (Dona Maria José), repreendeu-me pronta e energicamente. Com toda a razão, diga-se. Uma das coisas que ela disse no meio da reprimenda – que mais de cinquenta anos depois ainda não me saiu dos miolos – foi “Não devemos tratar uma pessoa assim, ainda mais sendo um senhor!”.

Na hora, não entendi direito aquela carraspana; achava que havia feito uma brincadeira normal, corriqueira, que os adultos faziam sem nenhum sentido malfazejo senão apenas o sentido de brincar. Eu quis, talvez, imitar meu pai, ser amigo do amigo dele, bancar o adulto e íntimo daquele que eu tanto admirava jogando futebol com uma elegância que até hoje é lembrada pelos mais velhos (ele era, e é ainda, uma pessoa muito elegante também na vida!).

Fato é que a vida correu, meu pai saiu cedo da vida, e eu herdei a amizade daquele homem do sótão – que na ocasião era apenas um moço, um rapaz. Somos amigos até hoje. Já fizemos muita seresta juntos (ele é dono de um ritmo e de uma voz como poucas!); sou amigo de seus filhos – com um deles estudei no primário e jogamos muita bola na rua e na várzea.

Mas o episódio do sótão nunca mais me saiu da cachola – e por isso sou grato à Dona Delfina, ou à Dona Mariinha, ou à Dona Maria José, uma delas, que logo cedo iniciou a desconstrução de um racista potencial. Nunca mais tive coragem de pronunciar nem aquela nem outras frases de mesmo teor.

E não se trata apenas de ser “politicamente correto”, nada disso; é um constrangimento interno, meio indefinível.

Vejam que não foi, portanto, exatamente dentro da sala de aula, mas nos arredores dela, bem na saída, que recebi uma das lições mais duradouras que a vida me deu (ou melhor, me impôs) desde cedo: é preciso tomar cuidado com as palavras, e elas, as palavras, mesmo quando pronunciadas sem qualquer intenção malévola, podem ferir, podem discriminar.

Hoje em dia, cresce a consciência de que vivemos numa sociedade estruturalmente racista e somos afetados, sim, pelo racismo; seríamos todos, portanto, virtualmente racistas. Hoje conhecemos melhor a injustiça desse racismo estrutural, que muitas vezes se manifesta nas atitudes mais comezinhas do dia a dia – atitudes que parecem inocentes, inofensivas, e até amistosas, mas que certamente ajudam a transmitir e perpetuar a discriminação.

____________________________

http://www.outrasprosas.wordpress.com

Publicado em Crônicas | Deixe um comentário

Leve e carregado

EMBORA nunca me tenha deixado deslumbrar por indumentárias e divisas, sei que provenho de um mundo enfatiotado – dos ternos, gravatas e becas; não há como escapar à tradição formal do Direito. Um outro mundo que também não dispensa a fatiota, com direito a terno, gravata, traje social e valise – aquelas famosas “pastas 007” – é o mundo dos executivos; hoje chamados de CEOs.

Mas há mudanças. Pelo menos no mundo das novas tecnologias, noto que os executivos estão mudando a aparência, a idade e a indumentária. Muitos deles, bem mais jovens, trocaram o terno, a gravata e as valises por roupas mais confortáveis, tênis e mochila, o que dá a essa nova cepa (cepa tá na moda) de executivos uma aparência mais, digamos, “descolada”.

No geral, eles são mais jovens. Donos de uma inteligência um pouco ou muito acima da média, são capazes de produzir inovações tecnológicas e negócios que lhes tem garantido, logo cedo, uma confortável situação econômica e até fortunas. Quantos anos tinha esse Zuckerberg quando inventou o Facebook e se tornou um dos homens mais ricos e poderosos do mundo?

Mas o assunto não é o Zuckerberg – é o look, o layout desses novos executivos que andam à frente de grandes negócios e grandes fortunas no mundo das tecnologias. Tem me parecido que eles preferem um design pessoal mais despojado, certamente mais confortável e prático: camisetas ou camisas largas (às vezes em cores berrantes), tênis ou sapatênis e mochila nas costas.

Até entendo: roupas e calçados confortáveis são tudo o que há de mais civilizado no mundo; e a mochila, com suas divisões elásticas e almofadadas, sempre ganham uma dimensão mais ampla, ajustável, que permite transportar mais coisas, inclusive os indefectíveis notebooks – sem contar a maior facilidade para carregá-las nas costas, o que sempre reforça o estilo juvenil e despojado do usuário.

Não é regra, bem sei, mas tenho visto, sim, um visual mais descontraído entre os bambambãs e os home d’affaires da tecnologia da informação – sejam eles executivos, inovadores ou donos do próprio métier. Quando não, vejo muitos deles usando blazer, ou mesmo terno e gravata, mas com mochila nas costas, e até um tênis, numa mistura que, convenhamos, pouco ortodoxa – mas, sabemos que a moda muda, é cambiante por natureza.

Seja pelo conforto, praticidade ou porque a moda é um eterno devir, não contesto o novo visual dos novos executivos. Até aprovo. Só pelo conforto e praticidade já vale a pena. Mas tenho uma tese: esse visual tão frequente entre os CEOs e bambambãs da tecnologia pode ter uma origem e uma razão nem sempre lembradas, que vou lembrar aqui por pura especulação.

Lá no início dos anos 60, um sujeito meio hippie, chamado Stewart Brand, andava pelo Vale do Silício com sua camionete, trajes e comportamentos típicos da contracultura “sessentista”, espalhando suas ideias e valores pela baía de São Francisco. Ele, que era escritor, foi simplesmente o guru da revolução computacional naquela época – nos primórdios dessa revolução, os engenheiros revolucionários do Vale do Silício eram fãs de carteirinha do escritor excêntrico e descolado.

Que pregava a ideia de que, se a política não era capaz de mudar o mundo (para melhor, naturalmente), a tecnologia e os computadores deveriam entrar em campo e fazê-lo. Daí nasceu o ideário meio humanista, meio utópico-transformador que até hoje anima os românticos do Vale do Silício. O escritor fez escola. Mas as coisas não andaram como ele queria.

De suas ideias, talvez tenha restado apenas (e esse é o meu ponto) o visual descontraído e descolado dos CEOs da Tecnologia da Informação (TI).

Creio que restou também uma retórica humanista, que ainda acredita (cada vez menos) nas possibilidades das máquinas como instrumento de mudança, de união entre as pessoas, capazes de informá-las e dotá-las de livre-arbítrio, criando até mecanismos de participação popular e democrática – portanto, máquinas habilitadas a mudar o mundo e a humanidade.

Só que, de repente, surgiram Google, Facebook, Apple e outros “gigantes da internet” que acabaram atropelando a verdade, servindo de veículo para o ódio, desaguando no mundo distópico do controle e dos monopólios. Não sei como Stewart Brand enxergaria tudo isso, se ainda estivesse perambulando pela baía de São Francisco; talvez andasse temeroso de que, apesar do visual leve e da retórica progressista, o Vale do Silício ainda acabe se transformando num Vale do Suplício.

____________________________

http://www.outrasprosas.wordpress.com

Publicado em Crônicas | Deixe um comentário

A penúltima flor do Lácio

DEU nas folhas e nas mídias que uma professora em Portugal humilhou a aluna brasileira, que lá estuda, dizendo que ela (a aluna) não sabia falar corretamente o português. E parece que a professora foi além das tamancas: sugeriu que a estudante pusesse um lápis na boca para aprender a pronunciar corretamente na língua de Camões, que é, como dizem, a “última flor do Lácio”.

Pegou pesado, hein! Mas eu, cá comigo, e com os meus botões (que os portugueses pronunciam “butões”), desconfio que tem nessa atitude da professora uma mistura de preconceito linguístico, ciúme autoritário da língua portuguesa e sentimento antibrasileiro.

Sim, creio que os portugueses – porque foram nossos colonizadores e nos impuseram seu idioma, matando o nosso tupi nativo e a Língua Geral falada no Brasil pós-descobrimento – se sentem os únicos donos da língua portuguesa, e, portanto, seus legítimos guardiões, autorizados até a humilhar os que, segundo lhes parece, andam a cometer barbarismos linguísticos que conspurcam a bela e última flor do Lácio.

Nem sempre foi assim. Conheci Portugal há quase quarenta anos atrás (o que não dirão os portugueses deste pleonástico “há quase quarenta anos atrás”, hein!), e era um Portugal das antigas, bucólico e não globalizado; ainda não integrado à União Europeia. Portanto, vi se cruzando pelas ruas da capital antigos bondes e velhos Opels alemães, usei o Escudo em vez do Euro, e curti um fado em tabernas que não eram as casas de show hoje existentes para turista ver.

Não era um Portugal das caravelas, mas quase! E naquela época percebi até uma certa simpatia pelo sotaque brasileiro; as nossas novelas começavam a fazer sucesso por lá e os portugueses, sobretudo os mais jovens, até decoravam nossas gírias, como o “Tá legal!”, no lugar do “É muito giro!” – que eles ainda usam por lá quando querem dizer que uma coisa é bonita, boa ou legal.

Tenho até um episódio prosaico pra contar daquela época. Estava ligando para o Brasil de um orelhão em Lisboa (ainda não existia celular ou telemóvel) e, enquanto falava com minha família, percebi que um pequeno grupo de jovens parou ao meu lado e começou a rir, simpaticamente – percebi que riam do meu sotaque – ainda não havia tantos brasileiros em Portugal.

Mas, de lá pra cá a coisa mudou. Por razões que não me animaria a apontar aqui, cresceu, sim, um certo sentimento antibrasileiro lá na terrinha. É Lamentável! Eu particularmente lamento muito porque sou luso-descendente – e até me orgulho disso -, e os que me conhecem sabem o quanto fui (e ainda sou) ligado às tradições portuguesas – inclusive à língua.

Pois bem, quanto à língua, é certo que o Acordo Ortográfico de 2009, que vigora formalmente em todos os países lusofalantes, naufragou, e foi claramente sabotado pelos próprios portugueses no dia a dia. De modo que o sonho de uma lusofonia única entre os mais de 270 milhões de falantes da língua camoniana (212 milhões deles só no Brasil), ficou mesmo para as calendas.

E, na verdade, com licença dos mais doutos, acho que a língua falada no Brasil se diferenciou muito do português falado em Portugal. O caso dos pronomes, como lembrou Oswald de Andrade, é o mais emblemático, mais didático: você já se imaginou falando “Dê-me um cigarro!” em vez de falar “Me dá um cigarro!”?

De fato, há uma língua-padrão dormitando nos livros de gramática e uma língua viva, muito diferente, fervilhando nas ruas do Brasil. Até a chamada língua-culta, falada e escrita pelos letrados, se afastou da língua normativa. E quem manda na língua não são os gramáticos puristas ou professores ranzinzas; quem manda na língua são os falantes, as normas gramaticais vêm depois da fala.

Portanto, em vez de pôr um lápis na boca para aprender a pronúncia correta do português de Portugal, a aluna brasileira deveria dizer à professora mandona: Fique com a sua língua, que é na verdade a “penúltima flor do latim”, porque nós, os brasileiros, já temos a nossa autêntica Língua Brasileira, esta sim, a “última flor do Lácio” – tão bela e tão culta quanto a vossa!

____________________________

http://www.outrasprosas.wordprerss.com

Publicado em Crônicas | Marcado com | Deixe um comentário

Cinema, Cultura e Política

Desenho de Câmera de cinema para Colorir - Colorir.com

NESTES tempos retrógados, de obscurantismo político e ataque à Cultura, é muita bem-vinda a obra de Paulo Emílio Sales Gomes, “Cinema e Política”, publicada pela Penguin-Companhia das Letras e lançada agora em 4 de abril de 2021, como mais um título da coleção Grandes Ideias.

Historiador, crítico de cinema e ensaísta, Paulo Emílio, que foi militante de esquerda, aborda nessa obra as relações do cinema com a política, passando pelas questões, aliás atualíssimas, do socialismo e do fascismo como forças que se contrapõem, tal como se contrapõem socialismo e barbárie – só pra lembrar o dilema levantado por Rosa Luxemburgo na sua obra famosa.

O livro contém textos escritos entre 1935 e 1973 e retrata um pouco da visão de quem participou ativamente da luta democrática nesse período, sustentando as utopias modernizadoras, mergulhado na efervescência cultural que emergia com o desenvolvimentismo de JK, a bossa nova, o cinema novo e tudo o que desaguaria no que hoje chamamos de “contracultura dos anos 60”.

O livro é, por assim dizer, um estímulo (e um alento) para aqueles que sabem que a Cultura é o que nos faz humanos, é o que nos diferencia de tudo o mais que há no universo, e sabem também que Cultura e Resistência andam de par – uma parceria mais que necessária neste momento em que pairam algumas ameaças ao Estado de Direito.

Em suma, o livrinho de Paulo Emílio (digo livrinho porque a obra é uma brochura de apenas 150 páginas) é saboroso, suave e, creio eu, muito oportuno, pois é preciso entender os vínculos notórios (e indissociáveis) entre política e cultura, bem como o relevante papel do cinema como instrumento de crítica e desenvolvimento da cidadania.

É quase um truísmo dizer que nestes tempos difíceis de crise e peste a Cultura tem certamente um papel essencial na recuperação das esperanças numa humanidade mais consciente de si. O pequeno livro de Paulo Emílio se inscreve nessa categoria de obras que revelam a importância civilizatória da Arte, da Cultura e da Política.

____________________________

http://www.outrasprosas.wordpress.com

Publicado em Crônicas | Deixe um comentário

Quarentenas

Joaninha - Desenho de bolachitas - Gartic

ACORDEI lentamente (talvez de “sonhos intranquilos”) e acendi o abajur. Eram cinco da tarde de um domingo ainda incerto. A luz iluminou uma joaninha, com sua carapaça redonda vermelho-ferrari e minúsculas pintinhas pretas, passeando devagar pela haste dos meus óculos pousados sobre o romance Apátridas, de Alejandro Chacoff, no criado-mudo. Notei que não tinha pressa.

Subiu e desceu pela haste, parou, vacilou um pouco e seguiu vagarosamente seu caminho. Com suas perninhas ágeis, e frágeis, desceu e começou a passear pela capa marrom-sépia do livro de Chacoff, ilustrada pela fotografia de um quadro onde vê um posto de combustível com duas bombas – provavelmente numa estrada sem movimento.

A joaninha explorou a superfície do livro, parando de quando em vez, sem se distanciar muito dos óculos. Em seguida, voltou. Dava a impressão de procurar alguém ou alguma coisa. De repente, acelerou os passos, percorreu quase toda a capa do livro e parou na beiradinha, como se pressentisse algum perigo – um precipício. Estava de algum modo apreensiva.

No silêncio do quarto, ainda banhado pela penumbra acima da luz direcionada do abajur, resolvi observá-la, sem interferir no seu itinerário. Ela desceu pelo dorso do livro, foi ter à superfície do criado-mudo, alterou a direção uma ou duas vezes e resolveu subir na base do abajur, onde parou, como se quisesse enxergar mais longe.

Não sei se ela teria consciência de algum mundo mais amplo, fora dali, para além dos limites escuros do meu quarto, aonde agora se metera. Ora parecia resignada, ora dava a impressão de procurar uma saída. Sua desorientação espacial, indo e voltando, sugeria que estivesse perdida. Dúvidas. O silêncio dos seus passos era o de quem pisa com cautela, experimentando um terreno desconhecido.

Havia, certamente, alguma preocupação naquele caminhar corcunda, ensimesmado, com a cabeça espreitando o chão, como se medisse os próprios passos. Não creio que estivesse à vontade naquele quarto assombreado, subitamente iluminado pelo foco quebradiço da luz do abajur – não diria que fosse aflição, nem desespero, mas havia inquietação.

Notei (creio) que não se importava com minha presença; creio até que tampouco lhe incomodasse meu olhar intrometido, que naquele instante nos vinculava numa circunstância peculiar, única. Na verdade, ela parecia alheia a tudo, metida apenas com sua aparente desorientação.

É certo que às vezes, numa profusão de pernas, apressava os passos, que então pareciam decididos, andando como quem sabe aonde ir ou o que fazer; mas logo à frente detinha-se como alguém que teve o caminho cortado talvez pela dúvida. Ou por algum mau pressentimento, um temor indefinido, quem sabe. Parecia não confiar em suas anteninhas, vagamente inquietas, como se captassem sinais desencontrados.

Virei-me e cochilei mais alguns minutos. Quando acordei novamente, vi que a joaninha havia desaparecido. Procurei-a sobre o livro, na haste dos óculos, vasculhei o tampo do criado-mudo, e nada. Deve ter, finalmente, encontrado algum rumo – ou aquilo que parecia procurar. Ou quem sabe continuasse ainda perdida, em algum outro lugar, na vastidão e no silêncio do quarto desconhecido e penumbroso.

Essa era a hipótese mais provável. Lembrei-me então de que tinha asas, pequenas asas. E talvez tivesse alçado um voo para fora daquelas circunstâncias. Para longe, enfim, da penumbra e da minha intromissão. Livrou-se, ao menos, de um olhar alheio – o que é sempre uma maneira de ser livre, e, no caso, de livrar-me também.

Desliguei o ar-condicionado e o abajur, aumentando o silêncio e as sombras do quarto. Tomei um gole d’água e tentei cochilar mais um pouco, já agora sem qualquer esperança de rever minha companheira ocasional, que, no entanto, devia estar por ali, não muito longe, com suas antenas agitadas, tateando ansiosamente e compartilhando comigo o mesmo silêncio, a mesma escuridão…

____________________________

http://www.outrasprosas.wordpress.com

Publicado em Crônicas | Deixe um comentário

Quando só restam palavras

CREIO que seria justo qualificar o romance A palavra que resta, do cearense Stênio Gardel, como um trabalho primoroso de originalidade impressionante. Cuida-se de um romance de estreia, mas já revela, desde logo, o estilo muito singular do autor – uma marca em que sobressai a linguagem poética para tratar das asperezas nada poéticas da vida.

A história também é singular. Dois jovens homossexuais, entre dezoito e dezenove anos, nascidos e moradores da zona rural, se apaixonam e resolvem revelar suas orientações sexuais e assumir o namoro, tanto perante a família quanto socialmente.

Vivendo num meio naturalmente conservador, machista e tradicionalista, há mais ou menos cinquenta anos atrás, os jovens sofrem uma reação violenta por parte dos pais, e um deles (Cícero) escreve e manda entregar uma carta ao outro (Raimundo), que era analfabeto e guardou o texto consigo pela vida toda.

Aos 71 anos de idade, vivendo agora numa capital brasileira, Raimundo resolve fazer um curso de alfabetização de adultos apenas para ler a carta de Cícero – seu grande (e talvez único) amor. Guardado em segredo, até então o teor da carta nunca fora revelado a ninguém, nem a ele próprio, que não sabia ler. Raimundo queria agora alfabetizar-se para descobrir, por si mesmo, aquilo que Cícero lhe escrevera meio século atrás.

O conteúdo da carta é revelado apenas no final do livro. E de uma maneira elegante, literariamente sofisticada – preparada ao longo de todo o romance -, para fechar a história, sempre com muita poesia e realismo.

Notem que não é uma história convencional acerca da homossexualidade, do tabu e de todo preconceito que ainda envolve a questão. Não gira (como costuma acontecer) em torno do dilema de assumir ou não a própria sexualidade. Os protagonistas são assumidos, estão decididos e não há dúvida.

Outros personagens homossexuais, e até uma travesti, intervêm na trama e nenhum deles revela qualquer dúvida ou hesitação sobre como devem viver e expressar suas próprias sexualidades. Não basta dizer que são bem-resolvidos – são completos, satisfeitos e até ufanos da vida sexual que lhes coube.

A história é ótima. A mensagem do livro é melhor ainda. A linguagem calculadamente poética, com os silêncios e elipses que o estilo exige, é cativante, leve. Creio que estejamos diante de um romance incomum, que ao mesmo tempo é realista e cheio de lirismo; tem uma história afetuosa mas não ignora a violência; por fim, é uma obra suave que encara a dureza da vida. Leitura pra lá de recomendável!

____________________________

http://www.outrasprosas.wordpress.com

Publicado em Crônicas | Deixe um comentário

Levando meio no tapa…

Resultado de imagem para caminhonete desenho

O CAMINHONEIRO saiu em viagem para Belo Horizonte e nem de longe imaginava que aquela seria sua última jornada – como caminhoneiro. Sofreu um acidente horrível. Parou o caminhão na beira da estrada para “se desapertar” e foi atropelado por outro caminhão. Quebrou tudo o que tinha direito de quebrar: joelho, bacia e coluna – quem contou essa história foi o jornalista Ricardo Kotscho, numa bela reportagem-conto publicada num jornal paulista.

Com esse acidente, o sujeito trocou o caminhão por uma cadeira de rodas – ficou paraplégico. Mas não foi só isso. Em seguida, sua mulher foi embora com outro e o deixou com duas filhas pra criar – uma de 10 e outra de 12 anos. Pra completar o quadro, porque, como dizem, desgraça sempre vem acompanhada, logo depois do acidente e do abandono da mulher ele sofreu um infarto.

E tudo isso sem dinheiro. Duro. Depois de muito tempo – e de muita briga na Justiça -, passou a receber um salário mínimo do INSS. Não tinha nem como pagar a fisioterapia e ainda tinha que criar duas filhas, preso numa cadeira de rodas, sem poder trabalhar e infartado – pra não dizer que miséria pouca é bobagem.

Acabou que ele fez tratamento de graça em São Paulo, e no tempo em que ficou se tratando aprendeu cartonagem e informática – só pra disfarçar a desgraceira e empatar o tempo. Voltou pra casa e passou a fazer caixas de cartolina pra vender, no que era ajudado pelas filhas. Depois, começou a prestar serviços de informática para a firma de seu irmão.

E foi assim, com o minguado salário do INSS, o dinheiro da cartonagem e os serviços de informática que pagou suas contas – e criou as filhas. Ah!, e passou a fazer também costela assada pra vender – o negocinho dos assados foi adiante e, segundo ele, a vida melhorou bem. Até a mulher que havia ido embora passou a frequentar sua casa de novo, com seu atual companheiro, que ele agora chama de “sócio” – que figura, hein?!

Uma das filhas está casada e já lhe deu, salvo engano, dois netos. Um deles, o mais velho, dorme na cama com o avô até hoje. O ex-caminhoneiro está proibido pela filha de arranjar outra mulher… e se conformou. Muito bem-humorado, brinca e diz que não precisa de mulher porque já arrumou um homem na sua vida – o neto.

Afirma que, apesar de gostar muito da antiga profissão, viajando pelas estradas, não guarda mágoa nenhuma de seu destino ou da má sorte. Diz que não se preocupa muito com nada e vai levando a vida assim… segundo ele, “meio no tapa”.

Claro que é inevitável aquele clichezão do cara que recebe da vida um limão e faz uma limonada. Mas, se for ver, é bem esse o caso do caminhoneiro. A vida lhe deu um par de limões: o acidente, a cadeira de rodas, o abandono da mulher, o infarto, a falta de dinheiro… E mesmo assim ele continuou dando seus tapas.

Reconto esta história de segunda mão – que li no jornal – não apenas porque é uma história de superação, perseverança e luta por sobrevivência, mas porque é um exemplo. E só por isso já merecia ser contada e recontada aqui e onde for.

Vejo nesse caso um exemplo de que a vida é uma só mas pode ser vivida de várias maneiras – não tem só um jeito de vivê-la. Creio que seja também um exemplo de que quanto menor a expectativa, maior a chance de levar uma vida mais leve – talvez até mais feliz.

Essa história do caminhoneiro faz lembrar aqueles muitos e muitos destinos anônimos, sem biografia, sem romance ou cinema, em que a vida acontece de verdade, em estado bruto. O segredo para enfrentá-la deve estar no tapa com que caminhoneiro afirma levar a vida. Um tapinha aqui, outro ali, outro acolá… e vai levando. Vai indo. Não adianta chorar as mágoas – diz ele: “Se eu ficar chorando, não pago minhas contas”.

Pode ser ainda que o “levar a vida meio no tapa” não seja só um jeito de levar a vida – mas o próprio segredo dela. O segredo e o sentido. Quem leva a vida no tapa pelo menos “leva”, e não é levado por ela. E, como sabemos, encontrar um jeito de levar a vida, ainda que seja no tapa, não é coisa fácil; é praticamente encontrar um sentido de viver; porque, nesse caso, o “jeito” é o próprio “sentido” da coisa.

Tá certo que às vezes a gente vai aos trancos e barrancos, sem uma direção muito segura, tropeçando e até caindo. Mas, mesmo assim, mesmo quando a vida sai do script e parece que as coisas fugiram do controle (revelando que na verdade ninguém tem controle de nada!), mesmo quando dá a impressão de que ela (a vida) é que leva a gente e não a gente que a leva, a história do caminhoneiro ensina que, mesmo aí, ainda dá pra dar uns tapinhas, né!

____________________________

http://www.outrasprosas.wordpress.com

Publicado em Crônicas | Deixe um comentário