Revolução: na leitura e no cérebro

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          A DOUTORA Maryanne Wolf, pesquisadora na Universidade da Califórnia, quer saber por que os seres humanos leem. Ela lembra que a leitura é uma façanha exclusiva do homo sapiens. Até onde se sabe, hominídeos, homo habilis e o homo erectus, que nos antecederam há milhões e milênios, não sabiam ler – nem escrever, portanto. E é dado como certo também que nenhuma outra espécie desenvolveu essas habilidades.

            Mas demorou. Veja que o homo sapiens surgiu entre 200 e 300 mil anos atrás; o sapiens moderno, com comportamento mais próximo daquilo que somos hoje, apareceu há uns 50 mil janeiros, no mínimo; mas só começamos a escrever há 5 mil anos, com os sumérios, que inventaram a escrita cuneiforme – letras em forma de cunha.

         Logo depois dos sumérios vieram os egípcios, com seus complicados hieróglifos. O chineses também inventaram um sistema próprio de escrita. Perece que os maias idem, aqui no México e adjacências. Os gregos iriam inventar o alfabeto. E o engraçado é que tudo isso aconteceu em lugares diferentes e distantes, de forma autônoma – de modo que um não copiou o sistema do outro.

             Isso quer dizer que o homem, mais cedo ou mais tarde, aqui ou ali, acabaria mesmo lendo e escrevendo. A professora Maryanne Wolf acha que “os seres humanos nasceram para ler”. E a leitura, diz ela, teria mudado profundamente a estrutura do cérebro humano, acrescentando um circuito novo, inexistente no cérebro dos nossos antepassados hominídeos.

          A escrita foi inventada há cinco mil anos, mas a leitura só se popularizou muito tempo depois – milênios. Imaginem que os sumérios escreviam em pedras ou placas de argila e os egípcios usavam o papiro. Os primeiros produziam livros pesados, impossíveis de carregar; já o livro dos segundos tinha o formato de rolo. Difícil manusear e ler esses monstrengos.

           Sem contar que naquele tempo as pessoas não eram alfabetizadas: nem liam nem escreviam – tais coisas eram privilégios de escribas e (alguns) cortesões; até mesmo reis foram analfabetos.

             Só três mil anos depois da invenção da escrita é que os romanos, nos primeiros anos da era cristã, iriam inventar o códice. Aí, o formato já passou a ser o de um livro, semelhante ao que temos hoje. As folhas de papiro ou pergaminho eram presas entre duas capas duras. Melhorou um pouco, já dava pra folhear. O alfabeto grego estava então mais disseminado, mas mesmo assim ainda era difícil. Os livros ficavam confinados em grandes bibliotecas públicas, longe do público.

         Os chineses inventaram o papel e a impressão, cem anos antes de Cristo. Mais precisamente no ano 105 a.C. Todavia, a disseminação da escrita e da leitura só viria a acontecer mesmo uns mil e quinhentos anos depois, com a imprensa do Gutenberg, pelos nos anos 1500 adentro. Foi uma revolução, e pode ter mexido até mesmo com a estrutura cerebral do homo sapiens sapiens.

            Agora, na era digital, dizem que a tecnologia da escrita e da leitura está passando por uma nova revolução – comparável à de Gutenberg. É possível que o nosso cérebro, obrigado a ler em livros impressos e em suportes digitais, vá sofrer (ou gozar) uma nova mudança na sua estrutura e nos seus circuitos – ninguém sabe se é para melhor ou para pior; só se sabe que vai mudar.

             A doutora Maryanne, no livro O cérebro no mundo digital (que ainda não li, mas estou me preparando para!) assegura que os jovens cérebros leitores estão mudando, e sem que a gente perceba. A mudança de uma “cultura de letramento” para uma “cultura digital” vai interferir de novo no cérebro do homo sapiens. E talvez esteja chegando aí o cérebro específico do “homo digitalis”.

         Estaríamos no meio dessa revolução e, por isso mesmo, não dá para enxergá-la com nitidez, assim como, provavelmente, os contemporâneos de Gutenberg não enxergaram direito e não entenderam a extensão do que foi a chegada da imprensa – não podiam imaginar o quanto aquilo iria impactar não só o pensamento como o próprio cérebro humano.

           No fim das contas, viver numa época revolucionária como a nossa é ao mesmo tempo um privilégio e uma angústia. É privilégio porque temos a oportunidade de testemunhar, com os próprios olhos – e de corpo presente -, a passagem de uma era para outra. E é angústia porque a gente não sabe direito o que está acontecendo… nem o que vai acontecer; só sabe que há mudança. Que já está mudando, e provavelmente até o cérebro.

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Floriano

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            CONTAVAM a história de um moço distinto que – como tantos outros de seu tempo – deixou a pequena cidade natal para fazer a vida lá fora, na cidade grande, e nunca mais voltou; a não ser em raras e rápidas aparições, de longe em longe, para visitar a mãe já velhinha e os irmãos que ficaram. Descreviam-no como um rapaz alto, bem-apessoado e gentil.

           Seu nome era Floriano. Quase sempre lembrado por meus pais como uma pessoa de temperamento afável, atencioso. Muito sensível, foi amigo das moças de seu tempo, e até trocava com elas as confidências da idade. Minha mãe mesmo, um pouco mais velha, se considerava sua confidente; era a ela que ele muitas vezes confiava suas venturas e desventuras de moço.

           Soube, em algum momento, que se formara em Direito e trabalhava na polícia – era escrivão. Vira e mexe, eu ouvia alguma história ou referência a respeito daquele amigo da família; que, quando lembrado, o era sempre com admiração e elogios. Sem o conhecer, passei a admirá-lo também.

      Floriano era especial, diziam. Com seu temperamento lhano, muito educado, amealhava logo de cara a simpatia das pessoas. E diziam mais: dono de uma estampa bonita, tinha presença marcante – mesmo assim, preferia a discrição; quem sabe fosse até um pouco tímido. Caçula dos irmãos, era o mais novo na turma de amigos.

          Muito de quando em vez, eu tinha notícias de que ele havia estado na cidade, em visitas-relâmpago, de beija-flor. Nessas ocasiões, não me lembro sequer de tê-lo encontrado. Minha mãe, fiel às coisas e amizades de seu tempo, orgulhava-se de ser uma das amigas do passado que o Floriano ainda fazia questão de visitar – nas raras, e cada vez mais raras vezes em que aparecia por lá.

           Creio que, nostálgicos, trocassem então as reminiscências de costume. Minha mãe dizia que o Floriano continuava o mesmo, bonitão, só estava um pouco calvo. A amizade entre ambos conservou-se latente. Não obstante a distância e a tão conhecida ação do tempo, ainda tinham o quê conversar; estavam mudados, suas vidas seguiram por caminhos distintos, mas os sinais daquela antiga afinidade ainda resistiam.

           Meu imaginário de menino – e de adolescente, e até de adulto -, desenhava o amigo de meus pais como um gentleman. Que ele era, de fato. Homem suave, bem-educado. Ninguém desmentia sua amabilidade, seu gênio respeitador, a fama de bom moço. As primas e os primos de minha mãe, que também conviveram com ele, referendavam tais impressões – e os elogios.

           Ainda que à distância – no tempo e no espaço – passei a nutrir pelo Floriano certo respeito, uma admiração herdada. Tinha curiosidade pelo fato de ter sido amigo de meus pais na infância; ter sido jovem com eles; pertencido à mesma turma. Não sei se tanto, mas a impressão que eu tinha é que ele personificava o irmão que minha mãe, filha única, nunca teve e possivelmente gostaria de ter tido.

          Soube certa vez que o Floriano estava morando numa grande cidade do interior de São Paulo – onde casou-se e continuava trabalhando como escrivão de polícia. Cheguei a pensar que seu temperamento sensível pudesse ser impactado negativamente pela rotina algo embrutecedora das delegacias criminais. Um ambiente muitas vezes hostil, incompatível talvez com sua alma – cheguei a pensar.

           As vindas dele à terra natal foram ficando cada vez mais raras, sobretudo depois da morte da mãe. Ele esqueceu-se da cidade e a cidade esqueceu-se dele; ninguém mais falava no Floriano. Mesmo as referências que minha mãe amiúde fazia, também foram ficando escassas, até quase desaparecerem.

          Na minha memória, porém – nalguma região meio apagada – estava lá a figura do Floriano. Que nem bem conheci. Quando era menino – e até hoje -, ao passar na frente da antiga casa dele, um casarão sem varanda da primeira metade ou mesmo começos do século 20, acudia-me logo a lembrança do amigo de meus pais; e então recompunha sua figura elegante, o jeito cortês, obsequioso.

          Não vou dizer que o Floriano tenha sido, naquela altura, um paradigma, um modelo para mim; já disse que sequer o conheci direito – a não ser pelas referências elogiosas que cresci ouvindo quase que a vida toda. Mas ele constituía, sim, uma figura cujos predicados não me eram indiferentes, impressionavam – mesmo à distância, mesmo sem ter convivido com ele.

           Além do mais, tinha um nome forte (nome de presidente) que, por paradoxal que fosse, soava delicado, romântico – posto que derivava das flores. E era um nome que tinha qualquer coisa de antigo; de um passado aristocrático, talvez. Ou seria personagem de romance histórico, cujo nome o tempo dissipara?

             Na minha adolescência, penso tê-lo visto uma ou outra vez de longe, atravessando a praça com passadas largas, e firmes; caminhava compenetrado como um ator em cena. Bem-vestido, pisando um mocassin que então me parecia condizer com a roupa, olhava sucessivamente em várias direções, altivo, como se procurasse algo, algum ângulo, alguma recordação.

          Foi assim que cultivei na memória, casualmente, a imagem abstrata do Floriano: uma pessoa desconhecida e admirável. Figura típica, quem sabe, daqueles anos dourados, que então me pareciam tão distantes: de um lado, porque eram os tempos – naturalmente não vividos por mim -, da infância e mocidade de meus pais; de outro, porque eram tempos afastados pelos divisores anos da contracultura, da bossa nova e da Geração Beat.

         Vai um dia, na sala de aula, logo no começo da minha carreira docente, noto a presença de um senhor de meia-idade, certamente chegando, ou chegado, aos 60 anos. Já um tanto calvo. Com uma expressão benfazeja no rosto. Seu olhar era inseguro, como que solicitando permissão para estar ali.

           Aproximei-me, desejando saber quem era – decerto para lhe dar as boas-vindas. E ele, aspergindo familiaridade com o olhar, sorriso perdido no rosto, disse que era o Floriano. Disse que eu talvez nem soubesse quem ele era, mas fora muito amigo de meus pais, mais precisamente da turma de minha mãe.

           Soubera por alguém que eu estava lecionando na cidade e queria apenas assistir a uma de minhas aulas. Era só curiosidade. Porque tinha grande apreço por meus familiares, meus pais e avós; e eu, afinal, embora não o conhecesse, talvez nem de nome, era sim um conterrâneo – filho de seus amigos de origem.

          A figura dele não era exatamente a que eu tinha na memória – não me pareceu tão alto. Era outono. Vestia um suéter verde-claro e o semblante exprimia cansaço. Sentou-se ao fundo da sala e permaneceu atento o tempo todo. Em algum instante, porém, creio ter percebido uma furtiva centelha de fastio. Imediatamente afastada, disfarçada.

            Encerrada a aula, levantou-se com os alunos e veio em minha direção; agradeceu educadamente, normalmente. Conversamos um pouco – não lembro o quê. Decerto, coisas de praxe. E, assim que tal, fomos saindo da sala, devagar, às vezes parando. Fragmentos de frases – novas e velhas. Interjeições. Não conseguimos – acho que na verdade nem tentamos – transpor o limiar desértico das conversas ligeiras, dessas de corredor…

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Sobre russos e garrinchas

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           PROCURADORES da Lava Jato, não sei por que cargas-d’água, botaram o apelido de “Russo” no ex-juiz Sérgio Moro, quando este ainda estava à frente daquela operação. Nas mensagens que trocavam pelo Telegram – e que agora o The Intercept Brasil vem tornando públicas – os acusadores lá de Curitiba só chamavam o então juiz por esse apelido: Russo.

           Ele não tem nenhuma aparência de russo: não é loiro, ruivo, ferrugem, sardento, etc. Ao contrário. Sua estampa está mais para etrusco do que para nativo do Cáucaso. Tem a aparência peninsular de soldado ou imperador romano – traços duros; embora a voz seja de adolescente, num contraste até engraçado.

          Enfim, não sei o porquê desse apelido que puseram no juiz. Não sei também se ele sabia que era chamado de “Russo”. E tampouco sei se os procuradores lavajateiros esclareceram a origem dessa alcunha.

          Mas, se for aquilo que todo mundo tá pensando, aquela história do Mané Garrincha na Copa de 58, na Suécia, que teria perguntado ao Vicente Feola se ele havia combinado a tática da seleção brasileira com os russos – nossos adversários – então a coisa é bem mais grave do que parece.

        Segundo a lenda, momentos antes da partida contra a badaladíssima seleção da Rússia – antiga União Soviética -, o técnico brasileiro Vicente Feola passou a mão numa prancheta, desenhou nela o nosso esquema tático de jogo, e explicou tudo aos craques canarinhos no vestiário.

             O esquema era simples: Nílton Santos trocaria passes com Didi no meio-campo; em seguida, um deles lançaria Garrincha em profundidade, pela ponta-direita; este, driblaria tantos russos quantos encontrasse pela frente; faria o cruzamento milimétrico na direção do centroavante Vavá, que, por fim, cabecearia para o gol, inaugurando o placar logo de cara – sem tempo pros russos acordarem.

        Terminada a exposição do esquema, dizem que o Garrincha, com sua conhecida e folclórica espontaneidade, teria indagado ao Feola: “Mas o senhor já combinou tudo isso com os russos?”. Que, na verdade, eram os únicos que poderiam atrapalhar aquela estratégia cartesiana do técnico brasileiro.

          Dizem, porém, que tudo isso é lenda. O biógrafo do Garrincha, jornalista e escritor Ruy Castro, que pesquisou para escrever o livro Estrela solitária (Companhia das Letras) e entrevistou vários jogadores que estavam no vestiário do Brasil no dia do jogo, assegura que ninguém ouviu o Garrincha perguntar aquilo ao comandante Feola – tudo não passou de boato, lenda, folclore.

       Agora, cortando para a Lava Jato: se for verdade que os doutores de Curitiba chamavam o juiz Sérgio Moro de “Russo” porque estavam combinados com ele sobre táticas e jogadas no processo do Lula, então a cosia é feia. É feia porque isso torna o processo uma tramoia; feia porque os procuradores sabiam que transgrediam a lei; e é mais feia ainda porque, com o apelido dado ao juiz, debochavam da própria transgressão.

            O Garrincha era um cara bem simplão, ingênuo, gozador… Já esses procuradores da Lava Jato são gozadores mas não têm nada de ingênuos, nem de simplões. Portanto, nada a ver com o Garrincha. E mais: o Garrincha não combinou coisa alguma com ninguém, deu um baile nos russos em 1958 e ganhou o jogo por 2 a 0 (fora duas bolas na trave), desbancando o futebol científico dos Sputiniks.

           Já os nossos procuradores têm dado baile é na lei e na Constituição, e também na boa-fé dos brasileiros – além de entregar o jogo para os adversários. Levaram a Petrobras ao banco dos réus lá nos EUA e a empresa brasileira, que já tinha sido vítima de propinas, ainda teve de desembolsar um dinheirão para pagar multa aos gringos. É a primeira vez que vejo a vítima sair condenada!

             Em resumo, essa história de “combinar com os russos”, embora não seja verdadeira no caso do Garrincha, parece fadada a permanecer no nosso imaginário por mais algum tempo. A grande diferença em relação aos “russos” e “garrinchas” da Lava Jato é que o Garrincha verdadeiro respeitou as regras do jogo e não combinou nem precisava combinar nada com ninguém – era um craque.

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Bacurau, exagerado

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         O FILME Bacurau de Kléber Mendonça Filho e Juliano Dornelles, premiado em Cannes, cotado para concorrer ao Oscar de melhor filme estrangeiro em 2020 (foi desbancado por A vida invisível, de Karim Aïnou), exagera na violência – uma violência meio bizarra, explícita demais, recorrente do começo ao fim.

              Se os caras queriam fazer um filme impactante, polêmico… conseguiram. Creio que ninguém ficará indiferente. Uns, haverão de aplaudi-lo; outros, nem tanto; e outros ainda o reprovarão. Por mim, dispenso aquela violência toda; em bom clichê: não faz o meu gênero.

         Aliás, o filme tem uma mistura de gêneros (drama, ficção científica, crítica social, caubói etc.) que pode interessar tecnicamente aos entendidos – cinéfilos e críticos. Como não sou nem uma coisa nem outra – quando muito, um consumidor de cinema – a mim não interessou essa miscelânea. E creio até – não sei se dá pra dizer isso – que mesmo se fosse um entendido não me interessaria por esse aspecto.

          Há uma interpelação no filme sobre a violência, o medo e a paranoia do nosso tempo? Há. Mas é algo que poderia ter sido feito com mais sutileza. Mais inteligência, portanto. Não sei se era necessário recorrer a tanto sangue e tanta morte – de uma maneira até certo ponto apelativa, ou – como direi? – meio vulgarizada.

           O filme tem uma crítica social interessante? Tem. Na minha leitura, os diretores descarnam a relação vertical imperialismo/Terceiro Mundo. E mais: alertam até que ponto pode chegar o neocolonialismo e a supremacia norte-americana – ao ponto de “caçar” e matar gente como se fosse bicho, por simples esporte? Isso, num certo sentido, ilumina e denuncia o universo texano e a insanidade da Era Trump, que o delírio armamentista de Bolsonaro anda querendo copiar.

          Só que, ao lado dessa crítica, e como resposta a ela, o filme evoca uma reação grotesca do cangaço brasileiro. Pouco provável; muito postiça. Pelos aplausos (poucos) que ouvi na sala, é um momento do filme que suscita algum sentimento ufanista, nacionalista, sei lá – ou de simples desforra.

           À matança dos norte-americanos, caçadores de gente, o nosso “cangaço” responde com um banho de sangue… e com as famosas decapitações à la Lampião. Um Lampião do futuro, estilizado. Que luta contra o imperialismo do Norte e seus aliados internos – representados no filme pelo prefeito do distrito de Bacurau, sertão de Pernambuco: político demagogo, populista, racista e corrupto.

             Creio que ainda há no filme uma advertência, ou denúncia, sobre a psicopatia dos serial killers norte-americanos. Revelando que esses assassinos em série, muitas vezes, são pessoas respeitáveis, de classe média, perfeitamente inseridas na sociedade e no mercado de trabalho – sem traços evidentes de qualquer psicopatia.

           O filme, pensei na hora, sugere que a patologia dos serials, o gosto pelas armas, a naturalização da violência, a supremacia branca e o racismo podem ser uma herança dos fundadores da América, reunidos lá em Filadélfia no século 18 – a herança “genética” de uma América profunda, que impacta, sim, o mundo todo; sobretudo o Terceiro Mundo, onde consumimos passivamente o “American way of life” – desde o inocente Pato Donald até as séries da Netflix.

            É pouco provável que alguma agência de turismo norte-americana, no futuro, venha a oferecer a seus clientes um pacote de viagem “all inclusive”, com direito de “caçar” e matar mestiços, negros e pardos no semiárido brasileiro. Mas pode ser também uma metáfora da guerra (que já não é tão improvável), ou da exploração imperialista, ou do racismo – que também  matam por aqui.

         Como se vê, a película do premiado Kléber Mendonça tem lá suas virtudes. É um filme bem-feito, bom roteiro, não se nega. Afora alguns diálogos artificiais, há momentos extraordinários, de realismo e talento dos atores. Até por isso não entendi o porquê de tanta violência aberta, tanto sangue, angústia e desespero. Confesso que respirei aliviado quando as luzes se acenderam!

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Desinteligência artificial

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             A ARTE imita a vida ou é a vida que imita a arte? Disseram isso tantas vezes que já nem sei mais quem foi o autor do dilema. Parece que Aristóteles disse uma coisa – “A arte imita a vida”; Oscar Wilde disse a outra – “A vida imita a arte”. Mas, no final das contas, o que me parece mesmo é que uma imita a outra e a outra imita a uma – num contínuo (e eterno) vice-versa.

          Obra de arte que imita a vida tem demais; e o contrário também há por aí, aos montes. Os filmes e livros de ficção científica (arte) são pródigos em comprovar isso. Pra citar dois óbvios: Aldous Huxley, com seu Admirável mundo novo, e George Orwell, com o impressionante 1984, acertaram em cheio. A vida acabou imitando suas obras (de arte) com a fidelidade de um copidesque.

             Os ciborgues dos filmes e livros – seres metade homem, metade máquina -, junção de organismo vivo e cibernética, talvez sejam os exemplos mais bem-acabados dessa simbiose entre vida e arte. Desconfio que os androides de O exterminador do futuro – filme de David Cameron lançado nos anos 80 – têm qualquer parentesco com esses eletrodos e chips que andam querendo implantar no cérebro dos humanos.

          E vice-versa. Não sou muito ligado nesses assuntos, mas sei que em algum lugar algum cientista implantou o cérebro de uma minhoca num robô de Lego, e a coisa funcionou. Não demora muito, esse povo acaba criando um Frankenstein de verdade e depois não sabe como fazer para o controlar.

         Soube agora que a tal da “inteligência artificial” das máquinas cibernéticas pode funcionar com autonomia, “pensar” por si mesma, numa espécie de “livre-arbítrio digital”. São softwares, mas podem pensar por conta própria, à revelia do controle e da programação pelo homem.

            Dizem que sim. Dizem que se a máquina for abastecida com milhões de algoritmos ela poderá, autonomamente, “raciocinar”, “escolher” e até “decidir”. Por exemplo, se um robô armazenar certa quantidade de fotos de um determinado carro, ele (robô), sem programação nenhuma, será capaz de reconhecer um carro diferente daquele que lhe enfiaram na memória – um carro que ele nunca viu.

           E o pior eu vou te contar: os cientistas não sabem como é nem por que isso acontece, não conseguem explicar esse “raciocínio” autônomo das redes neurais artificiais. Só sabem que os bots são treinados a partir de um volume de dados, mas, depois, podem raciocinar por si, sem programação direta pelo homem que o criou e o treinou.

          Não sei se é o mesmo caso, mas o campeão mundial de xadrez, Garry Kasparov, não foi derrotado no tabuleiro por um robô?

          Pode ser que a inteligência artificial, como o cérebro humano – que tem bilhões de neurônios -, tenha também seus bilhões de bytes que fazem os disparos “neuronais” e as “sinapses” que ninguém explica nem controla. No fim das contas, não explicamos o funcionamento do nosso cérebro, criado por Deus, nem o dos cérebros artificiais, criados por nós mesmos.

           Na minha santa ignorância começo a ficar com a pulga atrás da orelha quando penso nas armas de guerra operadas por drones, com inteligência artificial. Poderá o homem delegar a essas máquinas a decisão sobre quando e qual inimigo deve ser atacado, destruído?

          E não sou só eu que fico com pulgas atrás da orelha, não. Sei que a ONU também está preocupada com isso. E está até tentando estabelecer limites, princípios e normas para disciplinar a criação e uso das armas inteligentes. Exigindo que elas, as armas, estejam sempre sob o controle e programação humanos.

          Até aí, beleza. Concordo em que essas armas – uma vez que existem – fiquem sob o controle exclusivo dos humanos responsáveis (ou irresponsáveis) por elas. Os senhores da guerra. Para que seja possível definir as autorias, as culpas e os dolos quando for o caso.

       O problema das armas com inteligência artificial é se os bots que as operam, programados e treinados pelo homem, inventarem de raciocinar por si mesmos, com autonomia para escolher e tomar decisões. Fora de controle. Aí, o risco de desinteligência é grande. Porque os robôs pensam, raciocinam, jogam xadrez, mas, até onde sei, não sentem nada – nem dor nem remorso.

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Pecadilhos gramaticais dos ministros

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      FIZERAM um auê danado com o erro do ministro da Educação que escreveu “paralização” – com zê – num documento oficial. E escreveu errado duas vezes essa palavra – no mesmo documento. Que era pra não ter dúvida: tratava-se de um erro de ortografia e não mero erro de digitação – ou o popular “erro de dedo”.

          Não sei se seria para tanto, mas a gafe saiu nos jornais, rodou nas mídias e nas redes, obrigando o ministro a reconhecer que se equivocou. Se bem que ele tentou repartir o erro com seus assessores. Disse que ele próprio ou alguém de sua assessoria escreveu paralisação com “z”. Mas assumia o deslize porque leu, não corrigiu e assinou o documento.

           Outro ministro que andou alfinetado por causa de deslizes gramaticais como esse foi o Sérgio Moro.

           Primeiro com a história do “conge”. Em vez de dizer “cônjuge”, numa entrevista, ele pronunciou “conge”. É difícil imaginar que um magistrado não conheça essa palavra, ao ponto de pronunciá-la erradamente; todo estudante de Direito topa com ela logo nos primeiros anos do curso, estudando Direito de Família – deve ter sido apenas algum vício de pronúncia do ministro, uma elipse, e não um erro de vocabulário.

       Pegaram no pé dele também porque, quando o Intercept Brasil divulgou suas conversas no Telegram, foi ao Twitter e escreveu que não via “Nada demais” naquelas mensagens trocadas com procuradores da Lava Jato. Desceram o pau no “Demais” aglutinado, quando o certo seria dizer “Nada de mais”, separadinho.

         Claro, o ministro errou. “Demais”, junto, quer dizer “muito”; “de mais”, separado, quer dizer “a mais”. Portanto, têm usos diferentes. Quando o ministro disse que não via “nada demais” é como se estivesse dizendo que “não via nada muito” nas conversas do Telegram – sem sentido. O correto seria dizer que “não via nada de mais”, ou seja, “nada a mais” (que o normal, naquelas conversas).

            O ministro da Justiça, ao contrário do da Educação, não passou recibo. Não admitiu esses erros nem discutiu com ninguém por causa disso. Ele é mais argucioso, me parece um pouco mais dissimulado – disfarça melhor.

             Mas, sinceramente, não acho muito legal esse patrulhamento gramatical com quem quer que seja. Nesse caso dos ministros, de pequenos deslizes, é como procurar pelo em ovo; fica parecendo mais uma mania de hipercorreção, quase um pedantismo que pode até reforçar o preconceito linguístico – a língua não deve servir para isso.

             E, de mais a mais, a língua portuguesa está cheia dessas armadilhas. Outro dia vi na prateleira de uma livraria um livro de gramática cujo título me chamou a atenção pela extravagância. Era qualquer coisa – não me lembro bem – como “As cascas de banana da língua portuguesa”, sugerindo, pois, que nossa língua é escorregadia.

        E é mesmo. Creio que há, sim, muitas “pegadinhas” na língua de Camões. Por exemplo: você está seguro de quando é que deve usar “onde” ou “aonde”?, “ao invés de” ou “em vez de”?, o “porque” junto e o “por que” separado?, o “porquê” com acento e o “porque” sem acento – alguém se lembra direitinho, de cor e salteado, dessas regras todas?

             Ontem mesmo acabei de ler um livro de contos de uma escritora renomada. Com vários livros na praça. Roteirista e tudo o mais. Um livro publicado por uma editora conceituada (Globo Livros), que certamente prima pela qualidade das revisões. Pois não é que lá pelas tantas a escritora (cujo nome não vou dizer, óbvio!) lascou um “nada demais” igualzinho ao do Sérgio Moro, no mesmo contexto de frase.

             Acontece. É normal. Tem que corrigir e pronto, sem escarcéu. Note-se que no caso desse livro, que acabei de ler, o errinho deve ter saído da pena da autora (ou foi o corretor automático?), passou pelos revisores, voltou pra autora revisar a prova final da obra, retornou aos revisores e ninguém viu nada. Acontece, pois; não vejo nada de mais!

           Nossa língua tem mesmo suas arapucas, verdadeiras armadilhas. Ou melhor, como adverte o linguista Marcos Bagno, “não é a ‘língua’ que tem armadilhas, mas sim a gramática normativa tradicional“. Segundo ele, a gramática normativa inventa essas regras e filigranas só para justificar sua existência e nos convencer de que ela (gramática) é indispensável.

          No caso dos ministros bolsonarianos, eu acho melhor a gente prestar mais atenção no que eles dizem (no conteúdo) – e sobretudo no que eles fazem -, do que na gramática que atropelam de vez em quando. Porque muito pior que atropelar uma ou outra regrinha de português é atropelar os falantes da língua, passando por cima de seus direitos.

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O mundo tá piorando?

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             O MUNDO tá piorando, melhorando ou continua na mesma? Muita gente garante que ele piorou, e que vem piorando a cada dia… Os conservadores, naturalmente nostálgicos, asseguram que o mundo piorou muito, e que, antigamente, no tempo deles, as coisas eram bem melhores, tudo era mais simples, mais fácil – não havia essas complicações de hoje.

         Naquele livrinho A retórica da intransigência (digo “livrinho” porque não é um calhamaço de páginas, mas é um “livrão”!), Albert Hirschman diz que todo conservador sempre acha que o passado era melhor, e que o presente e o futuro são terríveis, ameaçadores. O passado é sempre bom porque já não ameaça mais ninguém – passou, acabou, não tem mais risco.

           Enfim, o que andam dizendo por aí é que o mundo está cada vez mais inseguro, perigoso – e o perigo é de guerra. Até acho muito sintomático que haja tanta gente dizendo isso, alertando para a volta do fascismo, do populismo autoritário, do ultranacionalismo xenófobo, das autocracias – com risco de conflito bélico entre países.

           Dizem que a luzinha amarela acendeu com a surpreendente eleição do Donald Trump nos Estados Unidos. Um homem com ideias de extrema-direita e mais mentiroso que bula de remédio. A Europa deu também sua contribuiçãozinha: elegeu Viktor Orbán na Hungria, Erdogan na Turquia, pôs os nazistas de novo no parlamento alemão e quase elegeu a ultradireitista Marine le Pen, na França.

           E tudo isso por insegurança e medo!

     Medo da criminalidade, do terrorismo, da globalização, das perdas econômicas (sobretudo pela classe média) e dos imigrantes. Até na Dinamarca um partido extremista chegou ao poder (DPP). Seus membros mais radicais, imaginem!, inventaram um spray anti-imigrante e antirrefugiados para borrifar nos estrangeiros que se demoram por lá – fiquei sabendo que até brasileiro andou passando perrengue no reino de Hamlet.

           E os brasileiros também contribuíram para tornar o mundo mais atormentado, mais inseguro. Quase 58 milhões deles deram uma “fraquejada” e elegeram para a presidência do país um indivíduo autoritário, bronco, destrutivo, sem rumo e sem rédea. Escolheram um homem enrolado na corrupção pra combater a corrupção; um incendiário pra combater os incêndios da Amazônia; um autoritário para salvar a democracia.

            Deu nas folhas e nas mídias que até no Brasil estão organizando grupos nazistas no WhatsApp. Eu pergunto: que que o Brasil tem a ver com isso, com nazismo? O povo anda tão perdido que na reportagem sobre esse disparate entrevistaram um rapaz de Guarulhos, administrador do grupo Fascismo Vive, e ele disse que nem sabia por que foi parar lá, no meio da turma que se saúda, uns aos outros, com o Heil Hitler!

     Estão falando aí num mundo cada vez mais inseguro, com a ameaça dos hipernacionalismos que já fizeram tantas guerras, com xenofobia, racismo e coisa e tal. Mas há 100 anos, na outra virada de século, o mundo andava nessa mesma draga de hoje, às voltas com os nacionalismos, fascismos e nazismos que fariam duas grandes guerras matando cerca de 80 milhões de pessoas.

           Recuemos mais. Mil anos. Na virada do ano 1000, do primeiro para o segundo milênio, o mundo também estava conflagrado, com guerra pipocando pra todo canto. A Europa andava um caos. Destruindo tudo o que restara da civilização greco-romana, revirada com invasões bárbaras, batalhas intermináveis e sangrentas entre godos, visigodos, ostrogodos e vândalos de vários brasões e bandeiras.

          E mesmo assim, mesmo depois de tanta tragédia, estão querendo ressuscitar os totalitarismos bélicos do século 20. E de outros séculos. A troco de quê? Parece que a humanidade não aprende nem esquece nada!

            Nunca faço balanços sobre se o mundo está melhor ou pior; se o passado era melhor que o presente. Sempre tem prós e contras. Os mais otimistas gostam de dizer que hoje está muito melhor do que ontem. Costumam lembrar que a vida era mais frugal, mais saudável, mais segura, isso e aquilo, só que não existia antibiótico, analgésico nem anestesia como hoje, e a expectativa de vida andava lá embaixo.

         Não faço essas contas porque sou ruim de contabilidade, mas, principalmente, por não ter vocações otimistas nem apocalípticas – nem Pangloss nem Cassandra. Sempre acho que o mundo é como é: vai e volta e dá muitas voltas. Não me iludo muito com a Criação, gênero ou raça. Não tenho, portanto, grandes ilusões nem grandes decepções – só as necessárias. E nada de fazer balanços de prós e contras, de pior ou melhor!

           Pergunte ao meu vizinho aqui do lado – que é um garotão bem-nascido, bem nutrido e bem-apessoado -, se o mundo está piorando. Ele não vai nem entender a pergunta. E vai dizer que o mundo é “mó loco, mano”, que é a “pica da galáxia”. De minha parte, não acho que o mundo esteja pior nem melhor nem tão diferente, acho que ele está como sempre esteve, girando – bom mesmo, só no começo.

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Refugiado digital

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        QUEM viveu a chegada, e a popularização, da internet – dos anos 90 pra cá – e, portanto, vivenciou a experiência de passar de um mundo inteiramente analógico para outro predominantemente digital, pode se considerar um migrante. Migrou ou emigrou (saiu) do seu lugar de origem para entrar em outro território – falam que o mundo da internet é “outro mundo”.

           Por tal motivo, os pertencentes a essa geração, que deixaram seu torrão físico e foram para o virtual – como é o meu caso -,  têm sido chamados de “migrantes digitais”. A nossa condição, portanto, é muito diferente da de um “nativo digital” – que já nasceu no ambiente on-line, sob a era da internet, com os PCs ao pé do berço e os smartphones no criado-mudo.

           Esses, nem bem puseram a cara no mundo, não saíram sequer da sala de parto, e suas fotinhos já estavam (estão) circulando na web – saltitando como num grande playground. E com dados e tudo: nome, peso, comprimento, hora em que nasceu, se chorou muito, se chorou pouco… Entram no mundo real e no mundo digital ao mesmo tempo. É uma estreia e tanto, pra celebridade nenhuma botar defeito.

           Praticamente, os “nativos digitais” já nascem clicando. Não demora nada e estão de olho comprido na tela dos smartphones, laptops e notebooks. Trocam os chocalhos pelo teclado rapidinho. Enfim, chegam ao world wide web como quem chega em casa – com idêntica tranquilidade, com a mesma naturalidade.

      Os migrantes digitais, não. Esses só entraram no mundo da web por força das circunstâncias, e muitos deles (de nós) a contragosto, desconfiados, meio que tateando no escuro, sem saber direito o que fazer nem que rumo tomar. Porque vida de migrante não é sopa, não!

           Todo migrante é uma pessoa carente, deslocada, errante. E sofre muito preconceito. É incompreendido. Nesse mundo da internet sempre tem alguém pronto a chamar o “migrante digital” de noob (recém-chegado), mas com o sentido de nub, aquele que não é capaz de se virar sozinho no mundo on-line. Migrante é discriminado – tanto na vida real quanto na digital.

         Por isso, o migrante está sempre necessitando de ajuda, de assistência. Precisa de apoio e paciência, não de repressão. Fora de seu contexto, de sua região e gente, ele fica meio desorientado; se não houver quem o acolha, quem lhe dê as instruções necessárias para se mover e se encaixar no novo ambiente, ele acaba desistindo.

            Todo mundo sabe que qualquer migrante precisa de assistência emergencial porque sua situação é de crise aguda; mas precisa também de um atendimento em médio e até longo prazo, uma acolhida mais paciente e humanizada, até sua final inclusão – portanto, tem de ser assim também com o migrante digital.

          Mas, às vezes ele quase que precisa implorar, mendigar uma assistência. É ignorado porque o consideram ignorante. Não basta dar um equipamento de último tipo na mão dele – processador não sei que lá; memória RAM não sei das quantas; HD não sei de quantos TB e a última versão do Windows. Ele precisa bem mais do que isso… apoio, compreensão, essas coisas.

          E tem outra: na vida concreta, o migrante é aquele que deixa seu lugar de origem (seu mundo) espontaneamente, em busca de melhores condições de existência. Tá certo que não é tão espontâneo assim: se a pessoa procura outros lugares para viver é porque o lugar onde ela vive não anda lá essas coisas, e então se vê quase que obrigada a debandar, – mas, de qualquer forma, é sempre uma saída espontânea; uma escolha.

          Só que no caso dos “migrantes digitais”, que migramos do mundo analógico para o mundo da web, não tivemos escolha – não tivemos saída. Entramos com tudo. Da noite pro dia, sem essa nem aquela, fomos praticamente atirados a um mundo novo e totalmente estranho, para o qual não nascemos nem pedimos pra nascer. Daí a nossa dificuldade de adaptação…

           A situação do “migrante digital” é tão crítica que às vezes ele – falo por mim – se sente não um migrante – mas um refugiado. Refugiado é aquele que foge de sua terra natal por causa de alguma perseguição, ou discriminação. Isso acontece também na web: os “migrantes digitais” são discriminados, chamados de “tico-e-teco” porque não teriam mais que dois neurônios para operar um computador – se sentem estrangeiros em sua própria casa.

             Tô sabendo que no Brasil tem até um Estatuto dos Refugiados. É uma lei que visa proteger os rejeitados e desvalidos que se encontram fora de seu mundo. Da próxima vez que o técnico disser que o problema do meu computador é aquela “pecinha” que fica do lado de cá do teclado, fazendo bullying comigo, invoco essa lei para as “providências cabíveis”; afinal, (desculpe a paráfrase assim tão previsível!) no peito de um noob também tecla um coração.

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Os ciclos e as cores

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           À LA Rubem Braga, eu diria que nem se discute a beleza do pôr do sol: as variadas cores explodindo entre o céu e a terra – amarela, vermelha, laranja… -; se enfeixando entre o chão e a escuridão da abóbada – escuridão que desce lentamente empurrando o colorido para dentro do horizonte; a luz se esvaindo pouco a pouco; o dia chegando ao fim – em cores mas acabando, despedindo-se.

           É uma despedida, não há como negar, porém, vestida de encanto – que encanta. E sabemos que a aurora virá. É certo que mais adiante haverá um alvorecer, igualmente belo, renovando as jornadas e prometendo esperanças. Um novo dia vai se levantar, com a força própria dos dias; seu frêmito, sua luminosidade, seu azul…

           Os espetáculos – do nascer e do pôr do sol – estão garantidos por suas cores e luzes, não há dúvida; mas também pela certeza de que eles se sucederão; pelo sossego de saber que o final de um dia é o prenúncio de outro, que virá com a força inquestionável das coisas que têm que vir.

           As estações também se despedem e se renovam no sumo de suas luzes e cores. O verão vai embora levando consigo a luz intensa e o calor que envolve, que aviva. Troca a brancura e a tepidez dos dias pelo frescor, ainda tímido, do outono. Que se aprofunda no inverno. Que inibe as cores e parece inibir também a vida. Vem o cinza e o acinzentado dos dias grises.

        Mas, adiante sempre haverá uma primavera. Assistiremos então à renovação da natureza. A vida retornando quase que de súbito, anunciada pelo verde irrefreável que substitui o gris. Alvoroço: das flores e dos pássaros. É a certeza de que tudo ainda permanece; nada se perdeu.

           No calendário, os anos também se vão, despedem-se. E vêm. Mas, tanto na partida quanto na chegada é sempre clima de festa, mistura de luzes e cores, naturais e artificiais – réveillon. Não há tempo para despedidas nem lamento, pois o ano que se vai já anuncia, de pronto, a chegada do outro – o novo substituindo imediatamente as esperanças do velho.

        Os que vivemos uma virada de século sabemos muito bem que eles, os séculos, também se acabam. E se renovam. As centúrias – como os dias, as estações e os anos -, também se sucedem. E que cores teriam? Os séculos são incolores, para que se possam imprimir neles as cores das muitas alvoradas, dos muitos pores do sol, estações e sucessivos réveillons.

         Mas tivemos o privilégio de viver ainda a passagem do milênio. Mil anos deixados para trás. Não apenas uma sucessão de anos, mas de séculos. É uma virada gloriosa, quase bíblica, percebemos então a travessia “…pelos séculos dos séculos, amém!”. E percebemos ainda que os milênios também  se vão, e outros se põem à frente – com as cores, talvez, do infinito.

     Desde a Antiguidade Clássica, os gregos associavam cores e natureza; mais propriamente, cores e natureza da luz. Bem depois, impulsionada pelas inquietações de Leonardo da Vinci e Isaac Newton, a ciência viria a descobrir o “espectro fotomagnético”, confirmando o vínculo entre cores e luzes – desvelando-se então as cores primárias, secundárias e terciárias; explicou-se cientificamente o mistério do arco-íris.

            O escritor alemão Johann Goethe – que também conheceu uma virada de século, do 18 para o 19 – relacionou as cores ao psiquismo humano, à subjetividade. Falava então numa “percepção subjetiva” das cores, estas, produzidas pela luz, mas também pelo toque decisivo das nossas emoções – talvez seja nesse sentido que podemos falar numa realidade rósea – ou escura.

          E não seria ainda por isso que se fala nuns “verdes anos”, no “verde da idade”, na “fase áurea” (cor de ouro) da vida ou numa “vida cor-de-rosa”? E uma existência cambiante, não seria furta-cor?

            Quem sabe se já não poderíamos associar também as cores e o tempo. O começo do dia é prata e azul; seu final é amarelo, vermelho, laranja…; o verão é branco; o outono e o inverno são cinza; a primavera é verde; os réveillons são multicores, os séculos seriam acrômicos. E os milênios? Bem, os milênios perdem-se de vista, não há retina que enfeixe sua coloração, não são acrômicos nem simplesmente coloridos – são mil-cores.

           A propósito, teria a vida uma cor que lhe fosse própria, sua, que não fossem apenas aquelas que lhe emprestam a luz, as retinas e as nossas emoções? A resposta parece-me até simples: a vida tem muitas cores: as da luz, da retina e dos sentimentos; mas tem também as cores dos dias, das estações e dos anos – ela é, portanto, infinitamente policrômica, uma somatória inumerável de luzes e cores… e, por isso mesmo, também de sombras.

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A flor amarela da imortalidade

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          COMO no conto de Cortázar, o jornalista com quem conversei por longo tempo no saguão do hotel, tomando o vinho que a vinícola chilena promovia naquela noite um tanto fria de outono, também achava que tinha conhecido uma pessoa, na verdade um rapaz bem mais moço, que seria ele próprio – ou seja: o rapaz seria o próprio jornalista -, o que provava que somos imortais; a nossa vida continua na vida de outros.

           Achei que fosse já o efeito do vinho – afinal, haviam sido várias taças. Perguntei se ele tinha lido o conto do argentino Julio Cortázar que fala de uma imortalidade assim. O jornalista disse que não, que nunca tinha lido nada desse autor. Sabia apenas da existência de um romance dele chamado O jogo da amarelinha, mas não tinha lido também; por acaso, nunca se interessara pela obra desse escritor portenho.

         Não me lembrei na hora o nome do conto do Cortázar, lembrei-me apenas da história, ou de fragmentos dela. Depois, em casa, é que fui ver que o conto se chama Uma flor amarela. Mas nem sei como fui me lembrar dessa história, porque li esse conto há muito tempo, e nunca mais pensei no assunto; nem nunca mais li nada do escritor argentino – a não ser uma ou outra coisa esparsa, como, por exemplo, Continuidade dos parques, que é um conto pequeno mas é um dos mais famosos de Cortázar – tem uma construção literária interessante.

          O jornalista não se mostrou muito interessado na obra desse autor, mas eu lhe disse que o protagonista do conto também achava que tinha encontrado uma pessoa que era a “continuação” dele. Da vida dele. Eram parecidíssimos; em quase tudo. Tinham traços fisionômicos muito próximos e seus destinos guardavam também uma semelhança perturbadora – só podiam ser a mesma pessoa.

            Pois não é que o jornalista, como o personagem do conto, defendeu categoricamente que isso acontecia de fato. E não era apenas na ficção. Achava que temos realmente um “outro” ou alguns “outros” por aí que são a gente mesmo, ou a continuação da gente, e, por isso, seríamos imortais.

          Não me animei a contestá-lo. Estava um pouco cansado e o vinho já começava a pesar um pouco. E também eu não tinha como contestá-lo. Se alguém diz que as pessoas são imortais porque todos nós temos um “duplo” que continua a nossa vida; e esse “duplo”, por sua vez, será continuado por outro, e assim por diante, indefinidamente, não há como provar isso nem desmentir. Segundo essa concepção, não seríamos “únicos” nem “duplos”, mas “múltiplos”. Nos multiplicamos e nos repetimos nos outros, e, assim, somos sempre “mais do mesmo” – daí a nossa infinitude ou perenidade.

           E na realidade eu não queria contestar nem provar nada. A conversa do jornalista me tomou de surpresa e eu me limitei a ouvi-lo. Às vezes concordava com a cabeça, fazia uma ou outra pergunta sem importância, apenas para mostrar interesse, mas eu estava querendo mesmo é que aquela conversa acabasse logo; que o papo tomasse outro rumo. Tentei até mudar a direção da prosa, fiz algumas perguntas sobre não sei o quê e não adiantou nada, ele continuou falando da nossa imortalidade.

           Não gosto muito desses papos metafísicos. Eles nunca chegam a lugar nenhum e sempre nos deixam subjugados pelo insondável. Não que eu seja uma pessoa que goste de discutir apenas as coisas palpáveis, concretas, não, até me deixo seduzir por especulações abstratas, sem concretude, portanto; mas as discussões metafísicas, que entram pelo campo do mistério, da alma, do espírito, da imortalidade, da vida extraterrena e coisas assim, que normalmente se situam no campo das religiões, eu não gosto mesmo – mas não tinha como falar isso ao jornalista sem ser indelicado.

         Cheguei a pensar que ele não estivesse batendo bem da cabeça; mas, fora essa conversa de que somos imortais, ele não tinha dito nada que revelasse algum desarranjo, nem embriaguez; e, de mais a mais, tratava-se de um jornalista culto e respeitado; se não era nacionalmente conhecido, porque trabalhava no interior, sabia-se que tinha, como ele mesmo havia dito, e outras pessoas também disseram, a perspetiva de trabalhar numa grande rede de televisão de uma das capitais.

       Poderia vir a ser, portanto, um jornalista famoso. Pensei que talvez aquela sua convicção – um tanto esquisita, convenhamos – de que somos imortais, e que a vida da gente continua em outras pessoas, aqui mesmo na Terra, poderia ser uma bizarrice capaz de atrapalhar suas pretensões profissionais. Porque acreditar na reencarnação, como acreditam os espíritas, é uma coisa, mas crer que vivemos também em outras pessoas, mesmo antes da nossa morte, sem reencarnação nenhuma, eu só tinha visto na literatura ficcional.

         Me mantinha atento ao que ele dizia por educação, mas também para ver se suas conclusões tinham alguma coisa a ver com o conto do Cortázar. Só que eu não me lembrava mais de detalhes daquele conto – nem sei quanto tempo faz que o li. Mas eu me mantinha atento porque poderia ser que a minha memória, provocada pelas palavras do jornalista, recuperasse algum detalhe da obra. Só por isso, e também por educação, claro, é que me mantinha atento à conversa do jornalista.

          Ele contou que o seu “duplo”, ou melhor, o continuador de sua vida, era aluno de sua esposa. Disse que o havia conhecido numa feira de ciências. E assim que viu o rapaz notou logo a semelhança consigo próprio. Não era uma semelhança muito grande, ele disse, como a dos gêmeos, não era uma “fotocópia”, ele brincou, mas havia traços comuns inconfundíveis. Tinham, por assim, dizer, um biotipo bastante próximo, e poderiam, sim, passar por irmãos, ou pai e filho.

          O que o impressionava não era tanto a semelhança física, porque eles não eram assim tão parecidos, a ponto de alguém logo de cara achar que fossem parentes próximos. O que o impressionava eram os detalhes. Os movimentos das mãos, por exemplo. Ele garantiu que o rapaz, quando falava, fazia os mesmos gestos que ele – ambos gesticulavam da mesma maneira quando pronunciavam certas palavras ou frases. Isso era, segundo o jornalista, um detalhe perturbador, sem contar o timbre da voz que, se não era idêntico, era muito parecido, e dava sinais de que, com o tempo, poderia ficar igualzinho ao timbre de sua voz.

            A outra coisa que chamou sua atenção foi o jeito como o cabelo dele caía na testa e como ele afastava a mecha de cabelo, empurrando-a em direção ao topo da cabeça com dois rápidos movimentos de mão. Depois de empurrar a mecha, ele dava também duas batidinhas nela, como se quisesse fixá-la no alto da cabeça. Isso era repetido a intervalos. E o jornalista, então, repetiu esse gesto só para confirmar se era mesmo igual ao do rapaz. Era exatamente igual.

         Notou ainda que os traços do perfil direito do estudante eram mais simétricos e harmoniosos, mais bem-acabados do que os do perfil esquerdo. Essa também era uma característica sua. Sempre gostou mais de seu perfil direito do que do esquerdo. Quando ia ser fotografado, oferecia sempre o lado direito e levantava ligeiramente o queixo; aparecia assim na maioria das fotos.

          No dia seguinte, voltou à feira de ciência e puxou conversa com o rapaz. Apresentou-se como marido da professora e a conversa andou. Falaram sobre amenidades, naturalmente, muito embora ambos fossem de falar pouco, e em ambos houvesse a mesma timidez, e o mesmo cálculo das palavras. Aí pelas tantas, viu algumas fotos do rapaz no celular e notou que, em todas elas, ele também virava o lado direito do rosto para ser fotografado e levantava um pouco o queixo.

        O sorriso era outro detalhe impressionante. Não que fossem iguais, a dentição de ambos eram um pouco diferentes. Mas ao sorrir eles mostravam apenas a dentição superior. E tanto ele quanto o rapaz, quando tinham que sorrir discretamente, o faziam pelo canto direito da boca, puxando levemente os lábios colados, sem mostrar os dentes. A gargalhada era impressionantemente igual.

       O destino semelhante de ambos era outro detalhe decisivo para que o jornalista concluísse que o rapaz era mesmo uma continuação sua, em vida. Tiveram as mesmas doenças na infância. O sarampo dos dois foi aos cinco anos e, mais à frente, ambos tiveram caxumba. Na adolescência, o jornalista havia sofrido um grave acidente de moto, o rapaz sofrera um acidente, também grave, de automóvel – ambos tinham mais ou menos a mesma idade quando isso lhes acontecera.

           O garoto era órfão de pai, assim como o jornalista. Ficaram órfãos na adolescência. O pai de um morrera em circunstâncias que não restaram inteiramente esclarecidas, quando pescava no Araguaia e teve um mal súbito – caiu nas águas, fora resgatado imediatamente, mas sem vida; o pai do outro, do jornalista, desaparecera no mar depois que o catamarã em que viajava de férias emborcou, não se sabe ao certo por quê, atirando vários passageiros nas águas, perto do Morro de São Paulo na Bahia – a mãe do jornalista, que também estava na embarcação, nada sofreu.

         Nos dias que se sucederam, durante a feira, o jornalista conversou várias vezes com o rapaz; procurou saber mais sobre ele. Descobriu que ambos tinham preocupações e objetivos bem semelhantes. Não tinham apenas vidas parecidas; a “visão de vida” também era quase idêntica. Nesse ponto, o traço mais sutil que chamou sua atenção é que os dois tinham os mesmos medos. “Porque o medo”, me disse o jornalista, “é um sinal que vem da alma, e, portanto, identifica as pessoas no que elas têm de mais íntimo, logo, isso indicava que as nossas almas também eram parecidas, ou eram únicas”.

          Os olhos. Quando ele falou em identidade de almas, pensei logo que iria dizer que os olhos de ambos, dele e do estudante, também fossem idênticos. Achei que se sairia com aquele clichê dos “olhos como janelas da alma”. Mas ele disse que eram comuns, olhos castanho-escuro e normais, como os de muita gente. Imaginei que ele fosse dizer então que, se não os olhos, pelo menos os olhares eram idênticos. Mas não. Não disse nada sobre isso. Disse apenas que tinham um jeito de baixar os olhos e desviar o olhar em determinados momentos, dependendo do que falavam; esse também era um detalhe, e o decisivo pra ele estava nos detalhes, assim como a identidade de uma pessoa está nos detalhes quase invisíveis das impressões digitais.

           Nessa altura, falando de almas idênticas (ele não usava o termo “almas gêmeas), pensei em perguntar se, apesar de sermos duplos ou múltiplos, como ele sustentava, a nossa alma seria também dupla ou múltipla, ou seria uma só. Mas desisti dessa pergunta porque ela seria um sinal de interesse da minha parte, o que poderia animá-lo ainda mais a prosseguir com aquela conversa. E o que eu desejava mesmo era mudar de conversa. Cheguei a pensar que também já vi muitas pessoas fisicamente parecidas comigo, com o mesmo biotipo ou biotipo semelhante, mas nunca tive a oportunidade de comparar os detalhes entre mim e essas pessoas, como ele fez, muito menos comparei os medos e a alma, para ver se tais indivíduos eram a minha continuidade, ou vice-versa.

           Em uma coisa apenas o jornalista viu diferença entre si e o rapaz: a profissão. O aluno de sua esposa estava no terceiro colegial e pensava seguir estudos de arquitetura, na área de exatas; enquanto ele, jornalista, havia seguido a área de humanas. Só que no curso das conversas ao longo da feira o estudante disse que queria ser arquiteto para trabalhar uma “arquitetura democrática”, ou seja, construir espaços públicos e privados que propiciassem o encontro, o convívio, o debate e a construção de consensos comunitários. O jornalista classificou isso como uma “arquitetura humanística”, o que os aproximava novamente no campo do saber e das ciências humanas.

            Desde aquela feira do colégio, em que o jornalista se encontrou com o “continuador” de sua vida, haviam se passado vários anos. E ele nunca mais teve notícia do estudante. Podia ser – era quase certo -, que já estivesse formado e exercendo a profissão. Nesses anos todos, o jornalista disse que encontrou outros “continuadores”, ou possíveis “continuadores”, de sua vida e imortalidade. Cauteloso, não perguntei nada sobre os outros casos; temia que ele começasse a contar mais episódios como aquele do rapaz na feira de ciências.

         Ele não contou nenhum outro caso, felizmente. Eu também fiquei na minha. O assunto estava quase esgotado. Estávamos também cansados, e o vinho dava sinais de que nos venceria. Mas ele continuava falando da continuidade da vida de uns na vida de outros; que isso era um jeito de ser imortal, e que aquelas outras pessoas que nos continuam, na verdade, não são “outras” – são a gente mesmo.

          Fez questão de deixar claro que a imortalidade a que ele se referia não era a da alma, como apregoam algumas religiões – entre elas as cristãs, que acreditam numa vida eterna, pós-morte, em algum plano extra ou supraterreno -, mas uma imortalidade corpórea. Eu fiz que sim com a cabeça porque era exatamente isso o que eu tinha entendido: as pessoas eram imortais aqui mesmo neste mundo; o sistema dele não recorria a nenhuma explicação ou categoria transcendental fora deste plano, como céu e inferno, por exemplo; a imortalidade que ele imaginava era aqui mesmo neste mundo e não dependia de reencarnação post mortem.

         Ele deixou tudo isso muito bem claro porque às vezes, acho, eu fazia alguma expressão de incredulidade, ou de surpresa, diante das coisas que me dizia. Mas eram expressões involuntárias, porque eu estava fazendo um grande esforço para ouvi-lo com naturalidade, como se o que ele estava dizendo fosse a coisa mais natural do mundo; não queria demonstrar nenhum espanto; não queria dar a entender que eu estava em dúvida sobre o que ele falava.

           Me disse ainda várias outras coisas, mas a que não prestei muita atenção. Pois meu nível de acuidade e concentração, àquela altura, já estava meio que reduzido; deficitário mesmo. Lembro de ouvi-lo dizer que estava concluindo os projetos de uma praça e de um prédio público destinados a facilitar encontros e discussões institucionais; e se lembrou também que numa feira de colégio, há alguns anos, conheceu uma pessoa, na verdade um jornalista mais velho que ele, que era a continuidade de sua própria pessoa.

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