O copo d’água e a pós-verdade

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           UM copo com água pela metade está meio cheio ou meio vazio? Depende. Se essa água for pra cozinhar uma xícara de arroz, é pouca, então o copo estará “meio vazio”; se for pra apagar a brasa de um cigarro, é água demais, aí trata-se de um  copo “meio cheio”; se for só para dissolver um Estomazil, então a água não será nem de mais nem de menos, apenas suficiente.

          Meio copo d’água não dá pra cozinhar uma xícara de arroz. Para apagar a brasa de um cigarro, bastam duas ou três gotas. E um Estomazil deve ser dissolvido exatamente em meio copo de água. Isso tudo é verdade. Uma verdade que se revela e que pode ser confirmada pelos fatos, objetivamente.

           Agora, se essa pergunta sobre o copo “meio cheio” ou “meio vazio” for respondida por dois caras, um, otimista, e outro, pessimista, a coisa muda de figura. Provavelmente o primeiro vai achar que o copo está “meio cheio”, e vai comemorar; o segundo sempre dirá que está “meio vazio”, e vai lamentar-se.

            Nesse caso do otimista e do pessimista, tudo depende das visões subjetivas de cada um deles – não depende só dos fatos objetivos. Quer dizer, a resposta será definida pela maneira como o otimista e o pessimista sentem e encaram o dilema.

           Assim, tanto pode ser uma verdade que o copo pela metade está “meio cheio”, como diz o otimista, quanto pode ser verdade também que ele esteja “meio vazio”, conforme assegura o pessimista; ambas as conclusões não são factuais; não se verificam com base nos fatos – elas dependem do sentimento de cada um deles.

             Nunca vi ninguém tentando entender o que é pós-verdade por meio desse dilema do copo d’água “meio cheio” ou “meio vazio”. Pode ser, portanto, que eu esteja complicando as coisas… mas vamos ver se consigo salvar a roça e tirar algum proveito daí, dessa metáfora chinfrim.

            Então vamos lá. A verdade tradicional – que chamarei aqui, pleonasticamente, de “verdade verdadeira” – é algo que decorre da correspondência entre aquilo que se afirma e os fatos que se verificam na realidade.

              Eu afirmo que meio copo d’água não dá pra cozinhar uma xícara de arroz – isso é realmente verdade; asseguro que essa água é demais para apagar um cigarro aceso – é um fato verificável também; afirmo que essa água basta para dissolver um Estomazil – essa afirmação é verdadeira.

          Tudo isso, portanto, é indiscutível. Qualquer um pode constatar essas verdades observando os fatos até mesmo na cozinha de sua casa. Por isso, diz-se que esse tipo de verdade é “factual”, baseada nos fatos, exatamente como a verdade tradicional que conhecemos desde sempre – ou presumimos conhecer.

            Já as “verdades” (no plural) do otimista e do pessimista em relação ao meio copo d’água são discutíveis. Elas dependem da “confiança” de um e de outro. E a confiança, como se sabe, é um sentimento. Logo, trata-se aqui de uma verdade “sentimental”, ou, como se costuma dizer – menos poeticamente -, uma “verdade emocional”, baseada, não nos fatos, mas nas emoções.

             O que dizem os otimistas e os pessimistas sobre o meio copo d’água não é verdade nem mentira – é só a verdade de cada um deles, ou seja, uma pós-verdade. Porque é uma verdade que vem “após” a construção emocional das conclusões, que, em tese, seriam conclusões factuais – mas não são. Quer um  exemplo?

        Vou partir logo para um exemplo radical. Na campanha presidencial de Barack Obama seus adversários espalharam o boato de que ele era nascido no Quênia e, portanto, não poderia ser presidente dos EUA. Isso era mentira. Obama nasceu em Honolulu, no estado norte-americano do Havaí.

            Todavia, 41% dos estadunidenses passaram a acreditar que ele era de fato queniano, sobretudo porque é negro e ainda tem parentes no Quênia. Esses fatos verdadeiros (tom da pele e parentes no Quênia) serviram para construir uma mentira, porém, uma mentira avalizada por nada menos que 41% dos americanos.

          O ex-presidente norte-americano exibiu sua certidão de nascimento na internet, junto com ela mostrou toda a documentação do hospital havaiano onde nasceu. Não adiantou nada; nem a prova documental foi suficiente – até hoje 41% dos americanos acreditam que ele nasceu no Quênia.

         São americanos conservadores que desejam (do fundo do coração) que isso seja verdade. Trata-se, portanto, de uma “verdade desejada” – construída pelo desejo, pela emoção. Se repetida muitas vezes (como aconselhava o fascista Goebbels), acaba virando “verdade”, ou, uma pós-verdade.

            Viu como essa tal de pós-verdade é foda? Parece verdade, mas não é. É uma mentira resiliente, resiste até mesmo aos fatos comprovados documentalmente. Ela é assim resistente porque não resulta de uma operação racional, mas de um sentimento, de uma emoção – e não é fácil abandonar uma certeza emocional.

         Isso, no campo político e no mundo digital, faz um estrago danado. Porque a pós-verdade ainda se beneficia do “efeito manada” – quando os membros de um grupo (classe, partido, comunidade etc.), por imitação, passam a acreditar numa mesma coisa; mesmo que essa coisa seja uma mentira… mas uma mentira conveniente.

              Cuidado porque estão querendo negar que o Holocausto existiu e que nunca houve ditadura militar em nosso país. Se isso for repetido muitas vezes, se muitas pessoas desejarem que isso seja verdade, se forem “verdades convenientes”, já, já estaremos acreditando que a morte de 6 milhões de judeus e a ditadura no Brasil nunca passaram de pura lenda.

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A vida das línguas

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           UMA reportagem da revista Pesquisa Fapesp informa que acadêmicos e linguistas estão utilizando técnicas digitais para estudar, difundir e, principalmente, preservar as 170 ou 180 línguas indígenas que ainda existem milagrosamente no país – quando os colonizadores aqui chegaram, estima-se que havia em Pindorama nada mais, nada menos que 1.270 línguas.

           Os linguistas dizem que as línguas são “vivas”, portanto, salvar línguas é como salvar vidas. E, de fato, a língua guarda um curioso paralelo com a vida: nasce, se desenvolve, prolifera e morre – às vezes deixa até herança e descendentes, como aconteceu com o latim. Ninguém fala mais a língua do Lácio, mas ela deixou sua descendência: português, francês, espanhol, italiano, alemão…

         E tal como os humanos (plantas e animais também), as línguas se misturam, se cruzam, miscigenam. Veja o nosso caso: nossa língua nasceu do latim, virou português, cruzou com o tupi-guarani, surgiu a “língua geral” da colônia, e hoje há quem sustente que existe uma “língua brasileira”, ou o “português do Brasil”.

            A vida das línguas se parece tanto com a vida da gente que elas podem até ser belas, feias, cultas, incultas, longevas ou breves. E como comprova a situação atual das nossas línguas indígenas, elas podem até ser “assassinadas” – desde o descobrimento até agora, não só matam-se os índios como se matam também suas línguas; seria um “linguicídio”?

           E ainda chamam essa matança de índios e línguas de “civilização” – mais uma prova de que a língua é mesmo viva, pois a denotação semântica do verbo “civilizar” precisa ser urgentemente atualizada.

        O Brasil nunca foi um país monolíngue. Além das 1.270 que já existiam por estas bandas, vieram a língua portuguesa, as diversas línguas (ou dialetos) africanas, outras línguas europeias (italiano, alemão, holandês, francês etc.), a língua crioula, depois chegou a japonesa – sem contar os dialetos formados por aqui.

          Duvido que você saiba o sentido ou “tradução” desta frase, do dialeto gaúcho: “Frio de renguear cusco”. Eu também não sabia. Fui procurar na internet e vi que significa: “Frio que faz até cachorro tremer”. Sabia que pros gaúchos “subida” é “lomba” e “tangerina” é “bergamota”?

         Agora há pouco, antes do almoço, tava conversando com o jardineiro aqui de casa sobre os buracos que meus cachorros (Paco e Maia) fazem no quintal. Ele disse que é assim mesmo; bicho gosta de fazer buraco – “Não vê aquele passarinho, o “trepador”, que sobe no tronco das árvores fazendo buraco?”.

          Eu disse que não conhecia esse passarinho – “trepador”. O ajudante do jardineiro, que é lá do Piauí, esclareceu que era o “pinica-pau”. Ao que o jardineiro retrucou: “Lá na região de Guaxupé, Minas Gerais, eles chamam de “trepador” – e eu logo vi que estávamos falando do nosso espalhafatoso “pica-pau”, que ainda hão de chamar de “repinica-pau”; tantos são os buracos que faz e refaz nos troncos que vai escalando.

        Ao contrário do que parece, o Brasil é um país multilíngue. Fico imaginando o encontro e o diálogo simultâneo entre um índio, um gaúcho, um nordestino, um homem da Amazônia, um carioca cheio de gíria, um paulista caipira, um mineiro falante e algum membro dessas colônias japonesas, italianas ou alemãs que ainda há por aí.

          Mas eu me sentei aqui foi pra falar (ou escrever) sobre as tecnologias digitais – corpus digital e website -, que a Unicamp está utilizando, segundo a revista Pesquisa Fapesp, com o objetivo de “salvar” as línguas indígenas sobreviventes no país. Porém, acabei não falando nada disso. Deixo então a dica, a quem interessar possa: “Pela sobrevivência das línguas indígenas” – (na internet, http://www.revistapesquisa.fapesp.br).

             Por ora, desejo apenas dizer que acho muito importante salvar uma língua, porque é como salvar uma vida. Só isso já justificaria qualquer esforço. Quando uma vida se perde, diz o filósofo Jacques Derrida, é todo um universo irrepetível que se vai embora.

            Mas há outras razões pra se salvar um língua. Li agora há pouco, no livro Mitos de linguagem (Gabriel de Ávila Othero, ed. Parábola), uma frase que dizia mais ou menos assim: “Quando uma língua deixa de existir, perdemos mais do que um sistema gramatical… perdemos uma maneira de ver e compreender o mundo” – e uma maneira irrepetível, é bom lembrar.

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Tribos e bolhas

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          O QUE era pra ser uma grande “Aldeia Global” (Herbert Macluhan), com todo o mundo ligado numa só rede, hiperconectado, interagindo simultaneamente por meio das sofisticadas tecnologias digitais que nos legaram o Vale do Silício, acabou virando um monte de tribo separadas – e pior: tribos que não se entendem, não falam a mesma língua.

        Veja o nosso caso, li não sei onde que 90% dos brasileiros usam a web para se informar e se informam mais especificamente pelo WhatsApp e Facebook. Ou seja, praticamente o país inteiro se informa por aí. Era de se esperar, portanto, que víssemos as mesmas coisas, conversássemos sobre os mesmos fatos e… “falássemos a mesma língua”. Nada disso.

       Cada um acessa e recebe um “pacote” de informações diferentes, que nos torna conectados, mas recebendo mensagens e se informando em fontes diferentes, com diferentes opiniões e pontos de vistas – que nos separam; que nos dividem. E olhe lá se isso não acaba semeando a discórdia e o ódio entre as pessoas!

          Não bastasse essa babel de fontes, notícias e informações, ainda estamos sujeitos às “mensagens personalizadas”, dirigidas especialmente pra nós, individualmente, de acordo com o nosso algoritmo (conjunto de dados que a web “coleciona”sobre nós com base nos cliques e likes que damos na internet).

           Quer dizer, recebemos as mensagens que gostaríamos de receber, aquelas que são feitas “sob medida”, só pro nosso jeitinho de ser, conforme nossas preferências, valores, medos e crenças, pouco importando o diz e o que pensa o resto – em tempos de pós-verdade, o pensamento do outro, diferente do nosso, é sempre suspeito; é o pensamento da “outra tribo”, apenas.

            As redes sociais – que já vi muita gente chamar de “redes antissociais” ou “redes insociais” – podem estar se tornando “redes socioindividuais”, nos propiciando informações que apenas confirmam nossa visão pessoal de mundo, mostrando aquilo que nós queremos ver, dentro da nossa “bolha” – é o que o ativista de internet Eli Pariser chama de “uma repetição infindável de nós mesmos”.

        Outro dia, em sala de aula, uma aluna contou que, do nada, seu smartphone lhe mandou a seguinte mensagem de voz: “Você vai dormir à meia-noite e três”. Ela se assustou. Não havia acionado o despertador nem programado qualquer horário. Sua reação foi surpreendente: ficou com medo, e, sem saber por quê, começou a rezar.

           Se eu e você fizermos uma consulta sobre um mesmo assunto  no Google, através dos nossos respectivos smartphones, é muito provável que seremos direcionados para sites e notícias diferentes e, portanto,  receberemos informações diversas sobre a mesma coisa – cada um de nós receberá notícias ou direcionamentos customizados, mais compatíveis com nossos algorítimos.

           É por isso que tá ficando cada vez mais difícil nos entendermos – e isso não é só no Brasil não, que anda assim tão polarizado, tão fraturado politicamente; é no mundo inteiro. Veja os norte-americanos: estão se estapeando por causa das mentiras do Trump sobre “o perigo da imigração”, sobre a insegurança do país e sobre as conspirações de Hilary Clinton e Barack Obama.

          Mesmo numa sociedade desenvolvida, escolarizada e com amplo acesso aos meios digitais de informação, como é o caso da sociedade norte-americana, muita gente lá ainda acredita que Saddam Hussein tinha arma química, que era membro da Al Qaeda, e que a invasão do Iraque salvou a humanidade; enquanto outros acham que não, acham que aquilo foi simplesmente uma carnificina infame contra um povo indefeso.

           Paradoxalmente, as pessoas andam entupidas de informação, mas andam também cada vez mais desinformadas. Presas nas suas “bolhas”. Os motivos que justificaram a Guerra do Iraque (que não foi guerra, foi “invasão”!) é a mais trágica fake news deste século 21.

         A verdade, a informação factual e até a ciência estão caindo na vala comum da suspeição, do relativismo cognitivo – não sabemos mais o que é verdade e o que é mentira; o que é fato e o que é boato; o que é científico e o que é “propaganda enganosa”.

      Por exemplo, há muitos movimentos no ambiente digital – produzindo muita (des)informação – que visam abalar as evidências científicas acerca do aquecimento global e sobre a importância das vacinas na prevenção de doenças – até a alegoria do criacionismo bíblico (Adão e Eva) estão querendo ressuscitar contra tudo o que Darwin demonstrou cientificamente.

           Ficaram difíceis e contraditórios estes tempos! Eles são deslumbrantes, mas também assustadores. Estamos em conexão, mas separados em nichos e “bolhas”. Nos comunicamos, mas não nos entendemos – a “Aldeia Global”, pelo que vejo, vai se reduzindo a um “Globo Tribal”, um amontoado de tribos – com suas próprias verdades, pajés e caciques.

          Pode ser que o “senso comum sobre a realidade” esteja mesmo se tornando uma coisa utópica, ou até impossível, como advertiu a conceituada crítica literária do The New York Times, Michiko Kakutani, no seu livro A morte da verdade: notas sobre a mentira na era Trump.

           Outro dia, o técnico do meu computador me chamou de “noob”, disse que eu sou um eterno “novato” neste mundo digital. Concordei com ele. Não entendo nada. Mas vejo que os entendidos também não sabem muita coisa além dos “cliques”. Numa dessas, ainda acabo adotando aquela saída da minha aluna e saio rezando…

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Profanações

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        A EXEMPLO do que ocorre com a maioria (por enquanto) dos brasileiros, tenho também uma formação católica. Sou, portanto, Católico Apostólico Romano – batizado, crismado e sacramentado; até coroinha de padre eu já fui.

       Se bem que foi uma carreira muito curta: eu não era um coroinha assíduo, não cumpria rigorosamente os horários… e na paróquia havia outros coroinhas bem mais competentes que eu, reconheço.

           Mas – eu dizia -, sou católico. Nunca fui fervoroso, é verdade. E desde muito cedo dei pra desconfiar de alguns dogmas católicos. Se a minha fé é pouca, se ela desandou – nem sei explicar por quê – não foi culpa das minhas professoras de catecismo, que eram muito dedicadas e tinham uma paciência infinita com este catequizado relapso.

          E como todo catequizado nas religiões judaico-cristãs, tive de lidar desde cedo com os problemas da culpa e do pecado. Minhas culpas então eram leves, e eu as resolvia nas poucas vezes em que me ajoelhei diante do padre no confessionário; as penitências que ele me impunha eram, no máximo, três ou quatro ave-marias e meia dúzia de pai-nossos.

     Certamente que, depois, viriam pecados e profanações mais graves e menos confessáveis – o que me alivia é que, segundo dizem, isso acontece com todo mundo; dizem que todo mundo é pecador e ninguém pode atirar a “primeira pedra”.

           Mas uma das primeiras profanações que cometi – com registro e testemunha – dizia respeito aos chamados “pecados da carne”: ainda menino, burlei a vigilância frouxa do porteiro do cinema (cine Rivoli, em Jaboticabal) e fui assistir ao filme Toda nudez será castigada (olha aí o castigo, já no título do filme!), com Paulo Porto e Darlene Glória.

           Era uma peça do dramaturgo Nélson Rodrigues, adaptada para o cinema. A história girava em torno de um viúvo (Paulo Porto), da alta sociedade carioca, que se casou com uma prostituta (Darlene Glória), a qual, por sua vez, mantinha relações sexuais com o enteado homossexual que queria punir o pai, traindo-o com a nova esposa.

          Aqueles dramalhões de família à Nélson Rodrigues, sabe? Mas eu não tava lá no cinema querendo saber de Nélson Rodrigues nem de suas críticas de costumes – só mais tarde viria a conhecer a obra do “anjo pornográfico”. Naqueles tempos sem internet, o que eu queria mesmo era ver a Darlene Glória pelada, que era um mulherão.

          Como o filme era proibido para menores, e havia ainda a censura dos militares, contei com a ajuda do meu primo Waltinho para entrar no cinema. Ele já tinha dezoito anos e era conhecido do porteiro, portanto, não precisava nem apresentar documento pessoal para identificar-se.

            E o nosso truque foi o seguinte: ele me emprestou sua carteira de estudante, maior de idade, e disse pra eu entrar ao lado dele, os dois juntos, meio embolado. Eu estava nervoso, mas ele disse: “Vai firme, não vacila não, mostra a carteirinha de longe e vai entrando naturalmente, de cabeça erguida – firmeza”.

            Fiz o que ele mandou e deu certinho; lá fomos nós. Quando me vi dentro do cinema, nem acreditava que a Darlene Glória estaria ao meu alcance dali a alguns minutos. Até hoje sou grato ao meu primo por ter colocado aquela diva, nua em pelo, diante dos meus olhos… e da minha imaginação – se bem que eu e ele esperávamos numa nudez e uma Darlene mais atrevidas.

          Se um dia eu tiver que prestar contas desse pecado – espero que seja no reino dos ceús! – vou repartir a culpa com o Waltinho, que, conciliador como é, tenho certeza que convencerá o porteiro e entraremos juntos no céu também… naturalmente, com a cabeça erguida.

          Mas o diabo é que outro dia, passando por Jaboticabal, verifiquei que o antigo cine Rivoli não existe mais, virou uma igreja. Decepção: pela perda de mais um cinema e porque o lugar onde pratiquei aquela deliciosa profanação da minha inocência era agora um lugar de culto, um ambiente sagrado.

          E pra completar, vi na internet que a Darlene Glória abandonou a carreira de atriz e virou evangélica, assumindo o nome de “pastora” Helena Brandão. Foi um choque! Me senti um blasfemo, um pecador profano, daqueles que nem o padre Henrique conseguiria absolver com suas providenciais ave-mais e padre-nossos.

          Não bastasse, vejo agora nas folhas e nas mídias que os evangélicos vetaram o nome do novo ministro da Educação porque ele não é favorável à Escola Sem Partido; e impuseram a nomeação de um colombiano que promete salvar o ensino público brasileiro em nome dos bons costumes, da tradição e da família – aí, quem se sentiu profanado fui eu.

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Pé no chão

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          BATI  os olhos no caderno de turismo e estava lá o título da matéria “Cinco lugares para voar de balão”: Albuquerque nos Estados Unidos; Dubai nos Emirados Árabes; Parque Maasai Mara no Quênia; Praia Grande em Santa Catarina, Brasil; e, claro, Capadócia na Turquia.

          Tenho uma tia (na verdade, uma prima da minha mãe) que, depois de muitos anos de trabalho, aposentou-se ainda com bastante vitalidade e saiu correndo o mundo – viajou (e ainda viaja!) pra tudo quanto é lado; arriscaria a dizer que já pôs os pés nos cinco grandes continentes – e em algum deles terá passado mais de uma vez.

      Admiro. Tiro o chapéu. Porque eu, com a minha preguiça e a falta de espírito aventureiro, dificilmente encontraria disposição semelhante. Sei que, com isso, perco muita coisa boa, muita coisa bonita e interessante por aí. Há muitos lugares que eu gostaria realmente de conhecer (ou de voltar), mas quando penso na logística, nos aeroportos, no avião…

           Já ouvi dessa minha tia-prima (aliás, muito querida) vários relatos impressionantes sobre as viagens que fez pelo mundo afora. Sobretudo os safáris na África. Mas, dentre as histórias todas, a que mais me surpreendeu foi seu passeio de balão pela Capadócia, na Turquia.

      Até tenho vontade de conhecer a Turquia, Istambul, antiga capital do Império Bizantino, que então se chamava Constantinopla, tendo ganhado esse nome no século IV depois de ser conquistada pelo imperador Constantino – não sei por quê, sempre gostei dos mosaicos retratando esse imperador nos livros de história.

         Se um dia eu fosse pra lá, é possível que também quisesse conhecer a Capadócia, região histórica. Mas dificilmente me ocorreria voar de balão – como fez a minha tia-prima – mesmo sabendo que essa é a melhor maneira de conhecer as impressionantes formações geológicas do lugar, e ter uma noção do que foram, há milhões de anos, as atividades vulcânicas que convulsionaram a superfície da Terra.

            É que eu sou um bicho terrestre; tipo pé-no-chão. Mas não é aquele “pé no chão” no sentido figurado, do homem precavido, dotado de bom senso, que sabe onde pisa, que nunca tropeça nem pisa na bola – sou pé no chão porque não gosto de altura, de vertigens, nem daquela sensação de não ter onde me agarrar, se alguma coisa der errado lá em cima.

        Jamais voaria de balão, ultraleve, asa-delta, helicóptero, paraquedas… Avião, que dizem ser um dos meios de transporte mais seguros que existem, já me deixa cabreiro – me incomoda saber que por debaixo dos meus pés não tem nada; não tem chão nem barranco. Esse negócio de voar não é comigo; não é a minha praia – deixo isso pros alados e pro Super-Homem.

           Lembram-se daquele padre voador que sumiu em direção ao mar de Santa Catarina depois de atar-se a vários balões cheios de gás hélio? Impressionante. Até hoje não acharam o padre nem os balões – voaram sabe-se lá pra onde.

          E houve também um outro padre nascido no Brasil, Bartolomeu de Gusmão, que ficou famoso por causa da sua mania de voar: inventou a “passarola” e um balonete, com o qual andou voando em Lisboa, no século 18, quando ninguém ainda sonhava com o avião – talvez esse padre possa ser considerado (não sei se o é!) o legítimo precursor da aviação moderna.

           Parece que esse desejo de o homem voar, mesmo sem ter asas, é uma coisa antiga. Uma obsessão, talvez. Na mitologia grega tem aquela história do Ícaro, que, aliás, acabou se dando mal – foi voar e caiu bem no meio do oceano, exatamente como o padre de Santa Catarina.

           Pois bem… Como eu disse, meu negócio é terra firme, pé no chão. Nada de voos e saltos, de alturas e vertigens. Mas esse “pé no chão” que eu digo não quer dizer que eu seja um cara seguro, prudente. Daqueles que só dão o passo de acordo com a perna e nunca se arriscam. Não não. Bem sei o quanto foram temerários e o quanto me custaram alguns tropeços e tombos!…

            A única coisa que eu não gosto mesmo, que realmente me incomoda, é me meter em alturas sem ter asas para tanto. Como bicho terrestre, meu lugar é o chão – é no solo que me sinto seguro, “em casa”. Nada de andar flutuando no espaço. Se bem que agora a gente tem que ficar de olho porque até ministro astronauta o Brasil já tem.

           Uma vez, quando era moleque, tentei voar. Achei que se eu subisse no muro de casa e saltasse com dois guarda-chuvas abertos, um em cada mão, cairia mais suavemente, e mais longe do muro, à maneira de um paraquedista. Você já pode imaginar como é que essa história acabou – ainda bem que o muro era baixo e eu pulei desconfiado pra chuchu.

           Já ouviu falar em “voo de galinha”? É voo curto. Mais ou menos como aqueles “voos” do João do Pulo. Pois nem esses eu consegui dar na vida. E descobri que, além de bicho terrestre, sou também um bicho lento – até pra pensar. Tô aqui pensando numa maneira de finalizar esta crônica, e nada – o jeito vai ser pôr mesmo um arbitrário ponto-final… ou três pontinhos… e boa.

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Hóspede do tempo

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           ASSIM que a porta automática se abriu, entramos no antigo hall e sentimos um leve bafejo de mofo, algo que começava a infiltrar-se por tudo o que antes fora o ambiente requintado de um hotel alto padrão – o maior, o melhor e certamente o mais charmoso hotel da cidade durante anos, décadas…

           O cheiro me fez lembrar imediatamente aqueles hotéis que ainda sobrevivem por aí, e dos quais meu olfato corre como o diabo corre da cruz, ostentando nomes desusados como Hotel Continental, Hotel Globo, Hotel Central…

       Mas, apesar do mofo discreto, só perceptível aos narizes mais atentos, ainda permaneciam lá, além do nome com toque de estrangeirismo, o mobiliário de estilo moderno, as luzes e as colunas tentando sustentar aquilo que o tempo teimava em pôr abaixo, em levar para longe.

      Não estávamos hospedados ali – os  moradores raramente, ou quase nunca, se hospedam nos hotéis das cidades em que moram – a intenção era apenas rever o ambiente e o espírito do antigo bar, do antigo hall, que, estes sim, já havíamos frequentado bastantes vezes, desde há bastante tempo

             Cumprimentamos dois conhecidos que ocupavam uma das mesas e nos sentamos junto ao balcão do bar – que ainda guardava a mesma disposição de outrora, ao fundo do hall de entrada -, e pedimos dois chopes. O barman trouxe o nosso pedido imediatamente, trazendo também uma porção de amendoim salgado – apenas duas mesas estavam ocupadas naquela tarde de terça-feira.

            Numa delas, a mais próxima de nós, havia um senhor – que, como viemos a saber em seguida, tinha sessenta e quatro anos de idade; embora aparentasse um pouco mais, pouca coisa, talvez.

            Cabeça inteiramente raspada (máquina-zero); porte ainda atlético – resquícios de tempos mais varonis -, e um estudado vigor na voz. Trajava bermuda cáqui e camisa branca, com botões abertos na altura do peito. Usava chinelos havaiana que, então, se encontravam jogados por debaixo da mesa.

         Não havia desleixo, apenas um despojamento que certamente passava longe de prováveis (e antigas) preocupações estéticas. O jeito meio imponente, a autoconfiança, que parecia residir apenas no tom grave da voz, garantia as aparências.

            Solitário, aguardava o pedido tomando vinho tinto (uma garrafa que já estava pela metade) acompanhado de água. Sua refeição chegou logo a seguir: dois bifes medalhões bem altos, uma porção de arroz branco, meia travessa de salada, onde, via-se, predominavam folhas verdes.

           Dada a proximidade, impossível não ouvir o que ele falava ao celular. Sustentava, com presumida convicção, que não era alcoólatra. (Argumentou que estava apenas na terceira taça de vinho, esperando a comida.) Acrescentou ainda que em seus sessenta e quatro anos de existência havia tomado, quando muito, uns dez pileques, e apenas duas vezes dera realmente algum trabalho.

         Talvez estivesse falando com a esposa, um filho, algum amigo… sabe-se lá! Quase verborrágico, mantinha-se apegado – e com afinco -, ao argumento de que era resistente ao álcool. Seu passado de mais de seis décadas constituía prova inequívoca dessa resistência, desse vigor, que até agora não permitira que ele sucumbisse ao vício – nem a nada; afinal, continuava ali, resistindo…

          O local quase deserto, os funcionários se movendo como sombras e a atmosfera meio gris não nos convidavam a repetir a dose. Tomamos os dois únicos chopes solicitados – aliás, desconfortavelmente servidos em tulipas de vidro grosso – e fomos embora, levando um pouco do mofo e dos fragmentos de uma conversa intempestiva, ouvida ao acaso, involuntariamente.

             Só na saída é que observamos algumas obras inacabadas por quase toda a fachada do hotel, até os últimos andares. Parecia ser uma troca dos antigos aparelhos de ar condicionado, que deixavam tijolos vazados à vista, esperando o reboco; a parede toda, de baixo a cima, pedia pintura – algumas bandeiras descoradas tremulavam sobre a marquise da entrada.

        Súbito, tão desolado quanto conformado, meu filho comentou esse fenômeno urbanístico que nos últimos tempos tem atingido impiedosamente o centro das grandes e médias cidades. Êxodo. Prédios malcuidados. O aspecto de abandono, a feiura, enfim, a sensação de que alguma coisa está se perdendo, está se esvaindo… no tempo… com o tempo.

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Os lados da vida

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          POR QUE será que os grandes escritores têm a mania de ficar escarafunchando o lado sombrio da existência humana? Parece que têm uma verdadeira obsessão pelo lado negativo da vida, pelo que há de mais dramático, e até trágico, esquecendo-se que ela não é só drama – tem muita coisa boa na vida… tem até comédia!

           Os mais otimistas chegam a dizer que a vida, em si, é uma verdadeira dádiva; dessa forma, só o fato de termos recebido tal dádiva, e estarmos vivos, já seria motivo suficiente pra muita comemoração; a vida mereceria ser “celebrada” diariamente, dizem esses empolgados.

             Mas os grandes escritores, por alguma razão, insistem em mexer no que a vida tem de mais lúgubre. Só pra dar alguns exemplos, refiro-me a um Cervantes e seus desenganos; um Shakespeare e suas tragédias; Dostoiévski e a escuridão da alma humana; Kafka e suas incertezas; Gabriel García Márquez e a multicentenária solidão; Clarice Lispector e suas angústias dilacerantes etc., etc., etc.

             O grande escritor argentino, Ernesto Sabato, chegou ao ponto de escrever um livro (belo livro!) com o título O escritor e seus fantasmas, onde defende que a boa literatura e os bons escritores são aqueles que sentem a “necessidade obscura mas obsessiva” de dar o testemunho de seu drama, sua infelicidade, sua solidão… como mártires.

            Um dos maiores escritores da língua portuguesa (único lusófono a ganhar o Nobel de Literatura), José Saramago sempre foi pessimista, e um pessimista convicto; parece que, segundo ele, o otimismo, por si só, não é capaz de criar nada de mais profundo. Por que essa obsessão, esse martírio?

         Uma primeira resposta pode até parecer simplória, mas é lógica: os escritores escrevem muito sobre o lado sombrio da vida simplesmente porque esse lado existe. E se existe, não se pode ignorá-lo; alguém tem que falar (e escrever) sobre ele; enfim, é preciso conhecê-lo para – quando for o caso – saber aceitá-lo… ou saber enfrentá-lo.

           Se existe um lado bom da vida é porque existe o lado ruim. Parece (e é!) uma obviedade, mas às vezes a gente acaba se esquecendo disso, ou não entendendo, e sofre, recusa, enlouquece… Tudo o que há no mundo é constituído assim, contraditoriamente, ou, como se diz: tem o lado bom e o lado ruim; os prós e os contras. E viver talvez seja isso: andar equilibrando entre os prós e os contras.

            Mas como todo equilibrista, é preciso saber que há sempre o risco do tombo. Ele é permanente. A queda faz parte dessa tal “dádiva da vida”. Ganhamos dadivosamente a vida, mas ganhamos também o risco de viver… e de cair, sintetizado naquela famosa frase de outro escritor (Guimarães Rosa): “Até viver é perigoso”.

              Nesse ponto é que os grandes escritores e a literatura autêntica cumprem um papel importante: lidar com os riscos. Para os otimistas, no entanto, é melhor esquecê-los; é melhor voltar-lhes as costas e aproveitar, digamos, o lado bom da vida.

            E não deixam de ter alguma razão: é preciso aproveitar esse lado doce da existência até porque, diz a sabedoria popular, tudo o que é bom dura pouco.

           Os otimistas ainda ajuntam outro argumento de peso: é melhor rir do que chorar. E indagam: pra que ficar antecipando a desgraça, a miséria e o tal “lado sombrio da vida”. Pois, com literatura ou sem literatura, uma hora ou outra esse lado sempre acabará dando as caras – tanto para os otimistas quanto para os pessimistas; logo, o melhor é não se aporrinhar muito e ir vivendo, enquanto e do jeito que der.

             Tudo bem, tudo certo. Não discuto. Embora não seja exatamente um otimista, creio que o otimismo tem lá sua função. Ele é importante pra aumentar a autoestima, a autoconfiança, a coragem etc., e ajuda a enfrentar obstáculos e encruzilhadas, sobretudo quando eles parecem intransponíveis – ou sem saída.

             E não se podem esquecer também as soluções místicas. São importantes. É comum ouvir-se aquela frase “Deixe tudo nas mãos de Deus, Ele dá um jeito”. Ultimamente tenho ouvido bastante uma que parece ter virado até um bordão na boca dos crentes e otimistas: “Fique tranquilo, vai dar tudo certo, Deus tá no comando”.

          Nada contra. Na boa: embora não seja exatamente um místico, acho muito bom, muito tranquilizador que Deus esteja no comando. Isso ajuda – e como! Todavia, é preciso saber que Deus comanda, mas a queda, o tombo é da gente. E é na hora do tombo que costumamos pensar na vida, no sentido fundamental dela.

         O problema é que pode ser muito tarde; pode não dar tempo de entender mais nada. É por isso que a grande literatura (como a filosofia) precisa ser necessariamente existencial (Sabato), escarafunchar os problemas fundamentais da existência humana, que não tem apenas um lado – sem desconhecer o lado bom da vida, é preciso refletir também sobre o “lado mais escuro”.

               Pelo sim, pelo não, sem ser muito otimista, porque o otimismo ajuda mas também engana, e sem ser muito pessimista, porque ele às vezes nos torna céticos demais, e já que a vida tem o lado bom e o lado ruim, parece-me que o melhor mesmo, o mais prudente, é olhar para a vida meio de lado – ou, como diz a sabedoria das ruas: um olho no peixe e o outro no gato.

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Como dois homens

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            DOIS anos e meio. O Antônio já está destramelando a língua, falando mais que o homem da cobra. Vai entrando naquela fase engraçada em que eles soltam cada pérola que a gente nem imagina de onde sai – e sai cada uma!… sem contar os porquês.

             Ontem mesmo: estávamos aqui no jardim de casa procurando caramujo quando ele entrou no meio de uns arbustos, da sua altura. Ficou camuflado. Eu disse então que ele agora se transformara numa planta. Imediatamente, sem pensar um segundo sequer, retrucou: “Não, eu não sou planta – eu falo!”.

          Cansei de ler nos livros de linguística (de filosofia, antropologia, etc.) que o que nos distingue dos demais seres viventes é exatamente a fala. Só os humanos possuem essa faculdade. Pensamos e elaboramos o mundo por meio da linguagem. Ou seja: pensamos com palavras.

        (Não sei se a teoria darwinista já explicou como e por que apenas os seres humanos são dotados de habilidade linguística. Noam Chomsky e Robert C. Berwick acabam de publicar um livro exatamente sobre esse tema, cujo título é “Por que apenas nós?”, editora Unesp.)

          É inquietante, mas é isso – a fala -, o que no fundo nos distingue biogeneticamente dos outros animais e dos vegetais – como é que o Antônio foi sacar logo esse argumento certeiro (e decisivo) pra me dizer que ele não era uma planta? Mas as tiradas do nosso Miúdo (apelido que ganhou do irmão) nem sempre ficam no campo assim, digamos, tão filosófico; tipo altos-papos.

        Outro dia sua mãe chegou do trabalho e perguntou à babá se ele havia feito cocô. Andava meio ressecado. Ele se adiantou e disse “Cocô não, mãe, foi só pum mesmo; igual ao papai”. Sobrou pra mim! A coisa vai ficando perigosa – a gente já tem que medir o que fala e o que faz na frente dele.

        No último domingo combinamos um passeio de bike. Chegamos na garagem e os pneus, murchos. Peguei a bomba e comecei a encher o pneu de trás e pedi a ele que desatarraxasse a tampinha do bico do outro pneu. Sentou-se no chão, exatamente como eu estava, e começou a trabalhar, tentando desenroscar a tampa.

         De repente, se fez de sério; olhou pra mim, olhou pra si, como se observasse duas pessoas que estão na mesma condição, e disse-me, meio sorrindo, mas se dando ares: “Dois homens, né, pai?”. Eu confirmo: “Claro, filho, dois homens – eu e você!”; percebo que fica satisfeito.

         Afixei a cadeirinha dele entre o selim e o guidom e partimos. O homenzinho foi falando pelos cotovelos; até cantar, ele cantava. Quando inventei de pedalar um pouco mais forte, aumentando a velocidade da bike (ele gosta do vento contra o rosto), percebi sua empolgação e escutei logo a frase, que até hoje só ouvi da boca de adultos, e de adultos mais velhos: “Senta a pua, pai!”.

           Me lembrei que eu também já quisera ser um homenzinho antes da hora. Um fato em especial me fez lembrar isso enquanto pedalava. Entre a infância e a puberdade, ali pelos treze ou catorze anos, achei de fazer a barba; cortar umas penugens que já começavam a aparecer debaixo do nariz e no queixo, sombras de um bigodinho ralo e um cavanhaque chinês.

          Alguém me havia dito que, uma vez aparada, a barba renasceria mais forte, ficaria mais densa. Raspei os poucos pelos que havia e meu rosto ficou liso e brilhante como uma garrafa. Me lembro até hoje do creme de barbear geladinho e do seu cheiro adocicado; esperava então que, nos dias seguintes, surgissem um bigode e uma barba mais respeitáveis.

           Fiz a minha primeira barba num dos banheiros da repartição pública onde meu pai trabalhava – era funcionário da Casa da Lavoura – e onde ele deixava seus apetrechos de barbear: creme, pincel e um aparelho daqueles antigos, com uma gilete presa por duas plaquinhas de metal parafusadas na extremidade da haste .

           Era um banheiro bem pequeno, pouco mais que um lavabo, que ficava nos fundos do prédio. Isolado, parecia até um banheiro sem muita serventia. Ou com uso bastante restrito, esporádico, o que o tornava também um lugar propício aos devaneios – esses, menos confessáveis -, da minha sexualidade/masculinidade que então começava a despertar.

     Saí do tal banheirinho e fui direto à sala do meu pai, pra conferir o resultado. Orgulhoso, entrei exibindo aquele rosto liso feito tronco de goiabeira. Esperei que ele também se empolgasse com o filho que, pelo visto, estava se encaminhando para ser um homem-feito, um adulto.

         Mas ele não deu muita moral, não. Com um sorrisinho quase imperceptível foi logo perguntando, num tom meio dúbio, de quem poderia zangar-se comigo: “Que que é isso, moleque?”. Prendi a respiração, esperando a bronca. Fiquei, porém, com a impressão de que ele estava fazendo tipo; no fundo, pareceu-me satisfeito com as minhas preocupações pretensamente masculinas.

          Eu queria ser como ele: tão adulto que até já fazia a barba. Não deu certo. O destino (ou seja lá quem for que responda pelas idas e vindas do destino) não permitiu que eu e meu pai convivêssemos ambos na vida adulta: quando ele deixou este plano (tão cedo!) eu era praticamente um menino, mal chegado à adolescência. Restou-me ao menos o consolo de um dia ter compartilhado seu barbeador – como dois homens.

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Meus mortos

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         HOUVE um tempo – ah, que tempo! – em que eu chegava ao pequeno cemitério da cidade e rezava em dois ou três túmulos de parentes que nem cheguei a conhecer: túmulo de um bisavô, de uma bisavó, de dois ou três tios ou tias-avós que morreram antes que eu me desse por gente; enfim, pessoas cuja existência não testemunhei – só existiram para mim como mortos.

           Esses não eram, portanto, os “meus mortos”. Rezava sobre o túmulo deles sem os ter conhecido, apenas por força dos laços de parentesco; num rito ancestral. Creio que rezei e pedi muitas vezes em favor de suas almas. Que, mesmo não tendo conhecido nenhum deles, Deus os livrasse do temível fogo do inferno, do purgatório e de todas as demais ameaças que ainda nos sobram para depois da morte.

      Se tais rezas valeram, não posso assegurar. Creio que sim. Porque eu cumpria rigorosamente esse ritual toda vez que ia ao cemitério: rezava no túmulo de um, no túmulo de outro e terminava logo ali, no túmulo seguinte de algum parente distante, que eu conhecia apenas de nome – além de uma ou outra referência que minha mãe e meus avós por vezes faziam à pessoa do morto.

        Como não testemunhei nem a vida nem a morte deles, era como se não tivessem existido nem morrido. Como se não tivessem história, ou fossem pouco mais que uma ficção. A morte deles era algo imaterial, não era uma experiência concreta para mim. Jaziam ali, nos seus túmulos, apenas como parte de uma dinâmica natural do mundo; uma sequência cósmica e indolor da existência humana.

        E era um privilégio poder rezar no túmulo de pessoas que, de certa forma, nem tinham morrido, nem tinham sofrido; porque, para mim, concretamente, elas nem haviam existido – a existência e a morte delas me eram ao mesmo tempo naturais e inteiramente alheias, distantes; um “vir a ser” quase irreal, simples sucessão burocrática de destinos e almas – sem drama.

          Rezava, portanto, uma reza sem dor, sem lágrimas, sem angústia… Claro que eu ficava condoído pelo fato de que aquelas pessoas já não mais existissem; claro que imaginava algum sofrimento delas diante da morte, mas era uma coisa muito distante, abstrata, sem densidade nenhuma – naquela altura, naquela idade, só a vida era real – a morte não passava de uma abstração, um desvio improvável.

           Enfim. Esses mortos me eram familiares mas não eram propriamente “meus”. Era por esses que eu então rezava – mortos que não eram meus, e no fundo nem eram mortos. Eram existências virtuais que se encaixavam na árvore genealógica da família apenas como figuras, como personagens que tiveram de existir um dia para que, um dia, eu estivesse ali a rezar por eles.

         Eram tão poucos esses túmulos onde devia rezar – quase ninguém tinha morrido -, que ainda sobrava tempo para sair perambulando por entre os desconhecidos “Aqui-jaz- fulano-ou-fulana-de-tal”. Uns túmulos mais pomposos, outros nem tanto, e outros  ainda paupérrimos. Passava pelas pequenas placas anônimas onde se lia a palavra “Perpétua”, seguida de um número; depois chegava até o ossário, a tal e antiga vala-comum, que me impressionava tanto.

         Um dia como o de hoje – Finados – eu entendia como se fosse uma data festiva. Até alegre. Dessas que os católicos comemoram animadamente: as pessoas se encontrando no cemitério, muitas que não se viam há muito tempo, se cumprimentando, andando por entre os túmulos, arranjando os vasos com flores, limpando as lápides… e tudo num vozerio que, se não era de festa, também não era de dor, de velório.

    Com o tempo, no entanto, foram surgindo outros túmulos que eu deveria necessariamente visitar, e rezar. Túmulos de gente que conheci, com quem convivi – gente que tinha uma história concreta e que tornava a morte delas mais real para mim, mais palpável… mais próxima. Já não eram abstrações – eram “mortos de verdade”, que um dia viveram e por fim morreram de fato; não eram simples figuras, personagens sem materialidade alguma.

          Já não rezava ali com o mesmo alheamento de antes. Conhecera aqueles mortos, suas histórias, seus epílogos… Assim, a experiência e a angústia da morte foram ficando mais palpáveis; já não eram apenas uma ideia, simplesmente. Tornavam-se mais possíveis, algo que se incorporava às minhas experiências reais; que tomava corpo ao meu redor – esses mortos já eram “meus”.

          Entre eles, havia até os que amei. E esses não só eram os “meus mortos”, jazendo nos “meus túmulos”, como eram as minhas dores, as minhas ausências… Visitando esses túmulos eu visitava minhas perdas… sentia que a morte era mais do que concreta, mais do que palpável – era uma dor certa… como a verdade, a chuva e o vento.

           Hoje, toda vez que visito os túmulos dos “meus mortos” me lembro dos “mortos que não eram meus” – que nem eram mortos. Do tempo em que tinha o privilégio de rezar longe da morte, com os pés bem fincados na vida, como se tudo, o presente, o passado e o futuro fossem o “sempre”, o “eterno” que me constituía e constituía tudo à minha volta – a mim e às minhas circunstâncias

           Nas raras vezes em que volto ao pequeno cemitério – que um dia poderá, quem sabe, soterrar todo o meu mundo -, costumo passar pelos túmulos antigos dos “mortos que não eram meus”, para ver se ainda há possibilidade de rezar sem dor e sem realidade, sem urgência, como naqueles tempos (privilegiados) em que a morte era só uma ficção, uma hipótese ausente – não era ainda uma possibilidade, nem uma probabilidade, tampouco uma ameaça.

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Meu porão

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            NA CASA onde passei a infância havia um porão. Ficava embaixo do assoalho dos quartos. O piso era de terra e meio acidentado, irregular. Era uma terra fininha, parecia um talco, um talco marrom – meu avô dizia que aquilo era terra podre, porque nunca tomava sol. Deve ser por causa disso que lá dentro era frio e havia um cheiro de mofo; um cheiro de passado.

       As coisas velhas, descartadas, jaziam ali como se fossem restos de um tempo definitivamente encerrado: pedaços de ferro que algum dia formaram uma peça qualquer, cadeiras quebradas, malas antigas, pedaço de mesa, moinhos velhos, argolas não sei do quê… trastes que certamente já tiveram alguma utilidade mas que então não serviam para mais nada.

            A recomendação que eu tinha era pra não entrar no porão – podia haver ali algum bicho peçonhento: o medo maior era de cobra e aranha – as inofensivas baratas já nem conto. Além do que, o lugar era escuro, bagunçado, a gente nunca sabia o que poderia encontrar no meio daquilo tudo; a impressão que se tinha era de que sempre poderia haver alguma surpresa, desagradável ou não.

          Eu evitava o porão de casa: um pouco por medo e outro pouco porque não havia nada que me interessasse ali. Eram só sucatas, coisas imprestáveis que, se um dia serviram para alguma coisa, isso fora em épocas passadas, tempos que não vivi, ou de que não me poderia lembrar – logo, nada do que havia lá me dizia respeito; eram só fragmentos de um mundo que não foi meu e que já não existia mais.

          Mas havia a curiosidade, né? Parece que todo porão esconde um mistério! Mais de uma vez entrei no porão de casa. Não era frequentador assíduo; não me lembro de inventar qualquer brincadeira naquele porão inóspito; muito embora me parecesse um lugar propício para fazer um esconderijo, uma caverna… essas coisas que tanto instigam a imaginação dos meninos; sobretudo a do menino imaginoso que fui.

      Mesmo sabendo de antemão que lá dentro não haveria nada que me pudesse interessar, andei, sim, bisbilhotando pelo porão algumas vezes – a ver se encontrava qualquer coisa que fosse, qualquer coisa que me servisse não sei pra quê.

        O único objeto que me lembro de ter encontrado ali e que me despertou certo interesse foi um lampião velho, a querosene, que eu simplesmente achei muito legal, considerei a possibilidade de utilizá-lo de alguma forma, mas não me recordo também de ter feito uso daquele lampião – continuou por lá, no abandono.

          Vieram algumas reformas; meus avós gostavam de manter a pintura das paredes em dia; eu gostava do cheiro de tinta e do clima de reviravolta quebrando a rotina da casa. Veio até uma troca do telhado inteiro (era uma casa antiga), que eu acompanhei de perto, trepado no madeiramento junto dos pedreiros, com o meu avô lá embaixo temendo que eu pudesse despencar lá de cima.

         Apesar dessas reformas todas, das ligeiras mudanças que por vezes faziam num ou noutro cômodo da casa, o porão permanecia intacto. Nunca foi objeto de uma reforma ou mesmo de uma limpeza mais radical. Era um lugar intocável, ou simplesmente esquecido, definitivamente abandonado.

           Não era inacessível – o acesso até que era fácil. Tinha uma portinhola de madeira que ficava só encostada. Havia também uma ou duas janelinhas pequenas, feito postigos, fechadas por uma rede de alumínio ou ferro vazado toda furadinha e enferrujada, que era certamente para garantir alguma ventilação lá dentro, mínima que fosse.

          Mas o porão não era ventilado – nem o vento passava por lá. Solidão. Eu sentia ali algo meio sufocante, oxigênio escasso, rarefeito. Silêncio subterrâneo…, de séculos. O interior era escuro, frio e mofado. As coisas que habitavam aquele local eram seres que não tinham cor, não tinham vida; permaneciam imóveis como se estivessem mortos – como se fossem espectros de um passado também morto, enterrado.

           Os porões talvez tenham algum parentesco – longínquo embora -, com os museus: guardam coisas velhas, objetos antigos, memória dos tempos. A diferença é que nos museus as coisas são restauradas, conservadas e exibidas; já nos porões elas ficam abandonadas, deterioradas, escondidas…

           Como disse, nunca achei nada de interessante no porão lá de casa. Nunca fiz dele um lugar onde pudesse brincar ou permanecer. Até porque era desconfortável entrar ali; a gente tinha que passar encurvado pela portinhola, o teto era baixo, e havia as ameaças: da penúmbra e dos bichos peçonhentos que nunca encontrei. Não era um lugar essencial, não estava na rota das incontáveis invenções que fiz naquele eterno quintal de casa.

           Posso dizer, portanto, que se aquele porão não existisse não faria a menor diferença pra mim; existindo ou não, daria na mesma, não mudaria nada. Mas é estranho, apesar disso, apesar do frio e da pouca luz, nunca esqueci o porão da casa da minha infância. Tanto é verdade que estou aqui agora a escrever sobre ele, à toa, sem quê nem porquê; ou talvez pelo simples fato de que era o meu porão – o único que tive.

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