Liberdade: de Sartre a Rita Lee

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          VOCÊ teria coragem de ler um livro escrito pela roqueira Rita Lee – a famosa Rita Lee Jones? E por que não, só porque ela é uma roqueira meio doidona? Doidona é modo de dizer, pois não sei se ela é isso; sempre me pareceu mais extravagante, mais irreverente que doidona; meio lisérgica, talvez.

          De mais a mais, quem é doidão? E quem não é? Não foi o Caetano que disse que de perto ninguém é normal? Ou foi o Chico? Assim, como na passagem bíblica, ninguém pode atirar a primeira pedra – nem a última. E eu… tampouco. Ou não tenho lá (aqui) minhas esquisitices?

       Que eu saiba, a Rita Lee já escreveu dois livros: uma autobiografia – que não li; e uma coletânea de contos – que li. Os contos não são ruins, não. Parecem meio puxados para o “realismo fantástico”, “realismo mágico”, ou coisa assim. Não vou classificar o trabalho literário da Rita Lee porque não sou do ramo; minha praia é outra e eu, quando muito, não passo de um simples leitor metido a besta.

        É quase certo que não lerei a autobiografia da roqueira-escritora. Não sou muito chegado a esse gênero. Nada contra – só não sou chegado. Ao contrário do ministro da Justiça, que gosta de ler biografias, eu li muito poucas na vida. (Se bem que o ministro, quando perguntado pelo apresentador Pedro Bial qual fora a última biografia que lera, não soube responder – sinal de que não tem lido nada ultimamente; sua praia é outra: é caça – caçador de javali-cabeçudo.)

           Mas o livro de contos da Rita Lee eu li. O título dele é Dropz – não me perguntem por quê. Que eu me lembre, não há na obra nenhum conto com esse nome. Estranhamente, o livro não tem índice, e eu, desculpe, não vou ficar virando página por página só pra ver se tem ou não tem algum conto denominado Dropz – até diria que não.

          Bem, o que eu pretendia comentar aqui não é nada sobre o livro em si. É sobre um dos contos – cujo título é TPM – em que há uma sacada muito legal da Rita Lee. A certa altura, ela solta a frase “Tenho livre-arbítrio e não tenho escolha quanto a isso”. Me chamou a atenção. Pois é um paradoxo: ou se tem livre-arbítrio, e então todas as escolhas são possíveis; ou não se tem todas as escolhas, e aí o livre-arbítrio não é tão livre assim.

           Pois é… acabei de ler o conto da roqueira e fiquei pensando que, paradoxalmente, ter  livre-arbítrio não é uma escolha, uma opção – é algo predeterminado. Nasce-se com ele. Mas isso é determinismo, ora, ora. Filosófico demais, não? Revela que a polêmica sobre a existência ou não do livre-arbítrio está longe do fim; é uma discussão circular; cachorro tentando morder o próprio rabo.

          A filosofia é assim. Quem espera que ela tenha resposta para tudo vai se frustrar. Pois o que a filosofia tem na verdade é “pergunta pra tudo”. Saí do livro da Rita Lee (que sempre me pareceu tão libertária, tão irreverente!) sem saber se ela acredita ou não na liberdade e no livre-arbítrio. Acho que ela faz que nem o Sartre, e como diz o pequeno Antônio: acredita um pouco, e outro pouco, não.

      Por coincidência, amanhã faz exatamente trinta e nove anos da morte de Sartre (21.6.80), aliás, de Jean-Paul Charles Aymard Sartre. Para ele, o homem (e as mulheres também, claro) sempre tem a liberdade de fazer escolhas; porém, tudo dentro de um determinado contexto. Não é uma liberdade ilimitada, absoluta e metafísica, fora do mundo concreto, como parecem pregar os adeptos mais radicais do livre-arbítrio.

          Seria, então, como que uma liberdade condicionada? Sartre tratou desse tema na sua vasta obra filosófica, e também em seus romances, como, por exemplo, a trilogia chamada Caminhos da Liberdade, que reúne as novelas Idade da Razão, Sursis e Com a morte na alma. (Preciso relê-las; quando as li, minha noção de liberdade era completamente diferente da de hoje – era meio romântica.)

         Mas quando Sartre diz que “o homem está condenado a ser livre”, é o mesmo que dizer – como a Rita Lee -, que o homem livre está, deterministicamente, irremediavelmente submetido (condenado) ao livre-arbítrio, e, assim, por mais paradoxal que pareça, não tem pelo menos uma escolha: é-lhe vedado escolher entre ter e não ter o tal livre-arbítrio.

         Filosófico demais; melhor parar por aqui – senão o “escola sem partido” ainda acaba dando as caras aqui no bloguinho Outras Prosas: filosofia pra quê? Antes de enveredar por esses caminhos (e discussões) sobre a liberdade, estou me programando para começar a ler (ou melhor, reler!), neste aniversário da morte de Sartre, o seu primeiro e talvez mais famoso romance: A náusea, do herói problemático Antoine Roquentin.

         O tema desse livro – o vazio ou absurdo da condição humana -, me parece (sempre me pareceu!) mais urgente do que as discussões metafísicas sobre a liberdade. Assim é porque, se se considera o mundo “um absurdo sem sentido e sem propósitos”, um absurdo gratuito, portanto, então a liberdade segue o mesmo destino do mundo. A ponto de alguns dizerem que ela nem existe; ou, se existe, nunca sabemos nem saberemos o que fazer com ela. Absurdo, não?

      Chega! Por ora almejo apenas exercitar minha modesta liberdade de escolher o próximo romance que lerei a partir de amanhã: A náusea.

           Mas quem disse que escolhi livremente esse romance, guiado apenas pelo meu, vá lá, livre-arbítrio? Não terei feito a escolha de tal livro levado mais pelas condições nauseantes do momento do que pela minha liberdade de escolher? E Sartre, não o terá escrito também condicionado pelas difíceis circunstâncias do entreguerras (1938)? Cadê então a liberdade, minha e dele, do escritor e do leitor? Mas chega!, tá ficando nauseabundo demais.

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Vertigens da memória

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        A MEMÓRIA é o lugar onde guardamos o passado – tão indecifrável quanto. É mistério, portanto. Ninguém sabe como a memória se forma, onde ela fica, nem como vem à tona ou por que desaparece – muitas vezes sem mais nem menos. Ela é caprichosa; a gente lembra de cada coisa, como diziam os antigos, do arco-da-velha… mas esquece também.

            Outro dia mesmo, eu estava pelejando pra lembrar a palavra que designa as pessoas que aprendem a falar uma língua só de ouvido, sem estudar, apenas convivendo com os falantes. Lembrava que monoglota é o que fala uma língua só; bilíngue é o que fala duas; e poliglota é o que fala várias. Mas o que fala de “orelhada”, sem ter estudado, esse eu não lembrava de jeito nenhum – deixei pra lá.

            Passado um tempo, estava escrevendo alguma coisa nada a ver e, de repente, sem querer e sem esforço nenhum, me veio a palavra, saltou de dentro da minha memória como um saltimbanco no picadeiro: aloglota. Vai saber por quê.

             A neurociência diz que a memória da gente se forma no hipocampo do cérebro, e lá fica armazenada. Mas essa não é uma conclusão muito segura, não. Porque a memória, como qualquer ideia, depende de bilhões de neurônios (dizem que são 86 bilhões no cérebro humano), depende de outro tanto de sinapses, e mais um tanto de energia e estímulos externos que já nem dá pra saber como ela funciona.

            Não é à toa que o cérebro é um dos mais – senão o mais -, desconhecido dos órgãos humanos – não conhece nem a si mesmo.

            Há vários tipos de memória. Mas dizem que a mais intensa é a olfativa. O cheiro da minha adolescência era o perfume Très Brütt (não tenho certeza se era assim que se escrevia, ou se era Très Brut – “Muito Bruto”); e também o desodorante Rastro. O perfume nunca mais vi – nem senti -, mas outro dia comprei um spray do Rastro, a ver se desafiava o tempo…

          Mas escuta essa. Desde a infância – lá pelos anos 60 -, conservo uma imagem na memória que não tem explicação; ela não tem por que ficar ali, ocupando espaço no meu apertado cérebro. É uma lembrança neutra, não diz nada, não tem função nenhuma; acho que fica lá no hipocampo só porque não tem pra onde ir.

             Eis a imagem: menino, entro num bar da cidade e vejo na parede do fundo, bem à vista dos fregueses, a figura do personagem criado pelo cartunista Péricles Maranhão, o Amigo da Onça, desenhado no alto, com a frase: “Amigo da Onça é quem pede fiado”, ao lado de uma velha propaganda da Coca Cola. No mesmo instante, ouço o prefixo de um antigo noticiário de rádio, o Repórter Esso – e só; a lembrança é essa.

            Qual a razão de ser dessa recordação? Por que ela não se apagou, se é uma memória neutra, nem boa nem má, e que não me diz nada em especial?, se não aconteceu nada de marcante naquele dia? Seria algum truque ou algum capricho do meu cérebro, esse maluco desconhecido? Não sei se todo mundo tem essas coisas, essas lembranças fragmentadas, esses flashs sem sentido, sem importância.

            Pra dizer a verdade, aquela imagem instantânea, composta pelo Amigo da Onça (personagem de cartoon publicado pela primeira vez nos anos 40, na revista O Cruzeiro), ao lado do desenho de uma garrafa de coca-cola, associada ao prefixo do Repórter Esso que então soou no rádio do bar, não me diz nada, mas provoca uma sensação que é, provavelmente, mais nítida que a imagem.

           Ainda hoje sinto que naquela circunstância, naquele dia, experimentei algo como que uma vertigem, uma ligeira incerteza – algo bem sutil – talvez sobre aquele presente, que eu ainda não sabia ao certo o que era; ou sobre o futuro, sobre tudo o que estava por vir, e que eu não sabia se viria mesmo, nem como viria – e acabou que vieram tantos anos… tantas coisas!…

          Mas a lembrança é só isso. A imagem (e a sensação) já está meio apagada, esmaecida no meu cérebro – como se fosse um sonho. Ou terei sonhado, realmente? Pode ser. Porque o prédio onde penso ter vivido aquela circunstância existe até hoje e no mármore da soleira da porta ainda está gravada a palavra Pharmácia com pê-agá, indicando que antigamente ali não fora bar coisa nenhuma. Ou terá sido depois da pharmácia?

             Nunca vou saber. São os mistérios da memória… e do passado; que também é outra incógnita. De tudo, só ficaram a Coca Cola, a lembrança e o mármore da porta. Porque o bar, a farmácia com pê-agá, o Amigo da Onça e o Repórter Esso sumiram… Desapareceram, talvez, nas brumas do porvir ou nas vertigens do futuro – que, afinal, chegou e já está passando… vertiginosamente… querendo virar passado.

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Rico dinheirinho

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        MINHA avó portuguesa (a outra era brasileira) gostava de contar “estórias” e histórias. Umas, vinham lá de Portugal, da sua terra, sua gente; outras, eram daqui mesmo. Tratavam de coisas práticas do dia a dia; coisas da vida. Prosaísmo saboroso. E a gente escutava aquilo com muito gosto, porque ela não errava: nem no tema, nem no tamanho, nem, como se diria hoje, no timing das histórias.

          Eram quase sempre histórias, parábolas ou fábulas de cunho moral. Criança ainda, eu absorvia aqueles “ensinamentos” como verdades – inquestionáveis. Minha avó tinha um carisma qualquer que emprestava às suas narrativas certo respeito, um quê de certeza e credibilidade naturais – que eu absorvia naturalmente, até mesmo sem perceber que o fazia.

       Hoje, chego a me espantar com a quantidade de histórias da minha avó que me ficaram armazenadas na memória. Vira e mexe, saco uma. Meio que sem querer, me pego repetindo algum dito ou alguma história que a avó contava. Não sei por quê, não é intencional, eu não fico escarafunchando a memória… mas, assim que tal, vem-me à lembrança alguma história da avó portuguesa.

         Lembrei-me dessas coisas, e dela, porque vi uma notícia na internet sobre a Mega Sena que, no último final de semana, não teve ganhador. E o prêmio, acumulado, saltou para 63 milhões. Bela grana!

          Nunca me interesso por loterias – não tenho sorte no jogo; mas também não jogo. Diz o ditado popular que sorte tem quem acredita nela. Eu acredito na sorte; mas não ao ponto de jogar, de apostar na dita-cuja. Vi a notícia da Mega Sena por acaso; e vi também que o último ganhador, há algumas semanas, levou 80 milhões com uma aposta que lhe custara apenas R$ 3,50.

          Uma vez ganhei na Loteria Esportiva. Era moleque, fizemos um bolão e acertamos os 13 pontos. O pessoal resolveu pegar todo o dinheiro do prêmio e apostar novamente, aumentando o valor e a quantidade das apostas; multiplicavam-se assim as nossas chances de ganhar de novo. Eu não: peguei minha parte e embolsei. Caí fora do bolão.

     Me contaram depois que meu pai – sem que eu soubesse -, deu o dinheiro correspondente à minha parte para que eu continuasse incluído no jogo da turma. (Fiquei sabendo disso só muito tempo depois.) Mas, enfim, no concurso seguinte jogaram tudo e perderam tudo – exatamente como eu temia.

          Eu não joguei, mas perdi também. Porque nem me lembro o que fiz com o dinheiro do prêmio anterior. Era pouco, foi tudo embora. Dinheiro na mão é vendaval! Mas era uma mixaria tão grande (ou tão pequena) que não dava pra fazer nem um ventinho, nem uma brisa sequer – que dirá um vendaval. Só lembro que por alguns dias andei com a bufunfa no bolso – poderoso.

         Mas o que é que essas coisas – Mega Sena, Loteria Esportiva, dinheiro… -, teriam a ver com as histórias da minha avó?

           Ela contava que lá na sua aldeia, em Portugal, havia um senhor muito simples que tinha algum dinheiro no banco. Não era pouco. Era um dinheiro guardado ao longo de muitos anos: economias do trabalho e uma parte de herança também. Não era uma fortuna, mas quase. Soma considerável. Para aquela época e para o lugar, seria, quem sabe, uma pequena fortuna.

        Pois bem… Certa vez ele desceu a serra e foi ao banco fazer não sei o quê. Lá chegando, humilde, discreto e talvez malvestido, foi ignorado pelo gerente novato que o deixou esperando na fila por muito tempo. Ele esperou com paciência, sem reclamar. Quando chegou sua vez, o funcionário levantou a ficha dele e assustou-se com o saldo: era muito dinheiro na conta.

          O tratamento mudou na hora. Imediatamente o chamaram para uma sala especial. Ofereceram-lhe café, atenção e os salamaleques de praxe. Quando lhe indicaram uma poltrona confortável para se sentar, ele disse: “Senta-te aí meu rico dinheirinho, porque eu mesmo não valho nada”.

           Não sei se uma advertência moral dessas ainda cabe nos dias de hoje. Até penso que deveria caber. Mas os tempos mudaram. Seriam outros. Não sei… deixa pra lá. Isso é problema dos endinheirados. Como não sou (nem pretendo ser) um deles – tampouco jogarei na Mega Sena acumulada -, desejo muita boa sorte aos concorrentes; e que saibam fazer muito bom proveito do seu “rico dinheirinho”.

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Revolução digital ou existencial?

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            DE PRIMEIRO, aí pela década dos 90, a gente ainda penava com os computadores. A toda hora você ouvia alguém reclamando, pelejando, xingando… “Essa merda!”. Dava um probleminha, ninguém entendia nada, e lá vinha o técnico – que então eram poucos; uns eram mais curiosos que técnicos.

           Não era fácil – o computador ainda não havia se popularizado. A tecnologia não era lá essas coisas e a gente não estava familiarizado com aquela geringonça misteriosa. Apanhava que nem homem de bem! E xingava. E prometia jogar o bicho pela janela. E torcia o nariz. E voltava.

           Me lembro que naqueles idos de 90 circulou até uma tiradinha espirituosa – que era uma queixa geral-; dizia-se que o computador viera pra resolver os problemas que antes a gente não tinha.

         Sim, o velho PC tinha lá seus caprichos, seus humores: às vezes dava problema e quando o técnico chegava o problema havia desaparecido, sem mais nem menos. Que vergonha. Então, o técnico, com certa superioridade, ares benevolentes, dava uma risadinha, olhando pra cara do cara, e consolava: “Esquenta não, velho, computador é assim  mesmo”.

          Alguém comparou uma vez o computador ao gato e a máquina de escrever, ao cachorro. O argumento era que o computador – como o gato -, tinha muitos mistérios e caprichos: o usuário dava um comando e ele não obedecia – fazia outra coisa. Já a máquina era mais fiel, como o cão: a gente batia na tecla e ela imprimia no papel exatamente o que tínhamos batido – obedecia; se errávamos, ela errava, se acertávamos, ela acertava.

           Impressora então… era um problema à parte. Eu mesmo andei dando muito peteleco nas que eu tive. Vez em quando (ou “vez em sempre”) saía um cruzado de direita na testa da HP. Não adiantava nada. Ela emburrava. Uma hora não imprimia; outra hora imprimia fora das margens; quando não, era o papel atolado, sujeira no rolo impressor, cabo incompatível… um inferno.

         Noto que hoje já não tem mais tanta briga com computador. A tecnologia deve ter facilitado o uso deles, a informação melhorou e as pessoas foram perdendo o medo – ou se renderam.

         Depois veio a novidade dos smartphones e iphones da vida. (Ainda não sei qual a diferença – se é que há – entre um e outro; já já dou um google e pronto!) Mas esses vieram também pra ficar – chegaram chegando, como se diz. Hoje é tudo no celular: internet, troca de mensagem, informação, fotografia, leitura de jornal, leitura de blog, filme, namoro… sexo, droga e rock and roll.

          Não encontro mais um cristo que não tenha um smarthphone pra chamar de seu (dei um google e já sei a diferença entre smartphone e iphone: o primeiro é a tecnologia, o segundo é uma marca; confere?).

        Os entendidos e desentendidos dizem que a revolução digital é algo que divide a humanidade em “antes” e “depois”. Deve ser verdade, porque vira e mexe vejo alguém contando alguma história e dizendo: “Naquele tempo ainda não tinha internet, celular, computador…”. O “naquele tempo”, nesse caso, parece uma coisa paleozoica.

        Hoje não; hoje digitalizou geral. Mudaram o mundo e as pessoas: são novas realidades, novos comportamentos, sociabilidades diferentes – para o bem ou para o mal. Ou para os dois. A internet é um fato consumado e acabou: não adianta ficar dizendo que é o demônio. Que tem muita coisa ruim na internet. Que ela informa e desinforma. Que precisa separar o joio do trigo e coisa e tal.

         Até tem muita porcaria na internet – claro que tem. Mas no mundo analógio (concreto, físico) tem também. Costumam dizer que na web as pessoas ficaram mais corajosas, mais agressivas, e que o ódio se propagou. Pode até ter se propagado mais rapidamente, admito, mas o ódio é humano, né, demasiado humano – aliás, é bíblico, amigão.

         Não estou entre esses que ficam anatematizando a internet. Ela mudou o mundo, mudou as pessoas e não está de passagem. Querendo ou não, temos de lidar com ela. Agora que aprendemos a mexer no computador e no smartphone é bom ir aprendendo a lidar também com os conteúdos, com as coisas que dizemos, que postamos e repassamos na rede.

         Esse cuidado precisa ter, sim. É prudente. Porque pode ser que a nossa visão de mundo, nossos valores e comportamentos – e até o nosso córtex -, estejam sendo “reprogramados” na web; a revolução digital pode ser uma “revolução neocortical”, comportamental – que mexe com o jeitão de todo mundo.

      Por isso, termino aqui parafraseando um existencialista famoso (sempre os existencialistas; não me livro deles!). Pois bem… É importante sabermos o que fazer com as ferramentas do mundo digital – já não vivemos sem elas -; mas é superimportante saber também o que fazer com o que as ferramentas do mundo digital fizeram conosco – aí é que está o busílis da coisa.

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Agora, tudo é Harvard

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           NÃO sei de quem é a culpa – nem se há culpado -, mas depois que adotaram os novos critérios para avaliar a produção dos professores nas universidades, com a criação da onisciente Plataforma Lattes do CNPq, virou um deus nos acuda: todo mundo deu de inflar (e enfeitar) o próprio currículo acadêmico – que antes chamávamos de curriculum vitae.

     Uma chatice! Por dever (e ossos) do ofício temos que ficar constantemente “alimentando” essa plataforma. Faz uma palestra: põe no Lattes. Vai num congresso: Lattes. Escreve um artigo: Lattes também. Publicou livro: põe correndo no Lattes, antes mesmo de a obra chegar às livrarias; um sufoco.

         Eu, por exemplo, nesta altura da vida virei “curriculeiro”: participo de qualquer coisinha na universidade e já peço um certificado – conta ponto na produção. Nem quando era estudante, e precisava fazer uma moralzinha, eu dava tanta bola pra isso. Regredi. E tem gente obcecada com essa coisa de currículo e produção acadêmica – ou seria mero “produtivismo”?

            Imagino até que haja muito acadêmico por aí encantado, perdidamente apaixonado pelo próprio currículo docente; “Narciso acha feio o que não é currículo”.

         Agora deram pra estudar ou pra dizer que estudaram em Harvard. É chique. Dá status. O selo dessa universidade é como se fosse uma garantia de alta cultura e aptidão acadêmica; até mesmo de talento. Estudou em Harvard? Fala inglês? É fera! Não é mais um reles e simples mortal.

          A última foi desse governador do Rio de Janeiro, o espalha-brasas Witzel: pôs no Lattes que havia feito uma parte de seu doutorado na Universidade Harvard, contemplado inclusive com uma bolsa-sanduíche, quando, na verdade, não tinha feito coisa nenhuma – nunca nem sequer fez inscrição para concorrer à bolsa naquela universidade norte-americana.

           Que que é isso? picaretagem? Modismo? Complexo de jeca-tatu? Tenho medo de dizer que é coisa de vira-lata porque o vira-lata que eu tive, o Preto, era de uma integridade e uma inteligência únicas – não enganava ninguém. Seu currículo era de fazer inveja; não estudou em Harvard, mas era um catedrático da vida.

            Flagrado pela imprensa nessa trampolinice, o governador fluminense disse que não estudou em Harvard, porém, pôs no currículo Lattes porque tinha a intenção de estudar lá. Eu digo ou você diz que de boas intenções o inferno está cheio? Que mau exemplo, hein governador. E além de tudo um digno (ou mais ainda: meritíssimo) ex-juiz de direito.

        Outro ex-juiz que andou em Harvard lustrando o currículo é o atual ministro da Justiça. O mesmo que agora acaba de dizer que seu pacote anticrime copiou um artigo do código penal alemão. E diz isso como se fosse vantagem. Só que o ministro esqueceu de copiar também a Justiça, a Polícia, os níveis de bem-estar e de violência da Alemanha – é uma figura esse Sérgio Moro.

          Se não me engano, aquele procurador da Lava Jato, o Dallagnol, também passou pela prestigiada escola particular onde estudou Barack Obama, Mark Zuckerber e Bill Gates. Vai estudar numa escola dessas e depois me apresenta aquele fajuto Power-Point que dá até vergonha alheia – estudar tanto pra quê? E ainda corre o boato na internet de que o mestrado do Dallagnol em Harvard era só lenda. A confirmar.

          Há pouco, os jornais noticiaram também o caso de uma professora de Franca-SP, química formada pela Unicamp, que adicionou ao Lattes um pós-doutorado em Harvard sem ter feito os estudos naquela universidade. E parece até que a professora é muito competente; tem um bom trabalho realizado no ensino médio público. Mas, segundo ela própria, caiu nesse raio dessa tentação de dizer que estudou em Harvard.

           Fiquei sabendo que quatro ministros do Bolsonaro mentiram sobre seus currículos na Plataforma Lattes – Vélez, Weintraub, Ricardo Salles e Damares. Disseram que eram o que não eram; que fizeram o que não fizeram; que estudaram o que não estudaram – querem ser o que não são só para acrisolar o diabo do currículo – complexo de Harvard?

           Nestes tempos bolsonários, de anti-intelectualismo grosseiro, é arriscado dizer que títulos acadêmicos, e prestigiadas instituições universitárias, nem sempre garantem o melhor conhecimento. Nem fazem as pessoas melhores. Às vezes até as pioram um pouco. Porque o saber está nos livros, mas a sabedoria está na vida.

           Defendo a tese de que a pessoa não é o que ela sabe; é o que ela faz com aquilo que ela sabe. Sabedoria não é só “saber”; é sobretudo “fazer”. Não sei se ensinam isso lá em Harvard – ou em qualquer outra universidade do mundo. Não sei também se isso conta pra pôr no Lattes. Se contar, vou fazer o curriculum post mortem do Preto; o vira-lata que tentou me ensinar a grande arte da vida: não ser senão aquilo que se é – ninguém.

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É a vitamina D, estúpido

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          O CARA se aproximou da estante de lançamentos, deixou o carrinho do bebê ao lado, e foi direto no livro “Fodeu geral”. Começou a folhear o exemplar. Distraí-me procurando “Meus começos e meu fim” do jornalista Nirlando Beirão, que dizem ser um bom livro – vamos ver… ainda não li. Assim, esqueci-me do rapaz e não vi se ele comprou o livro que folheava.

       O “Fodeu geral” é do mesmo autor de “A sutil arte de ligar o foda-se”, o norte-americano Mark Manson, que, segundo o Google, é autor de autoajuda, blogueiro e empreendedor.

          Não li nenhum desses dois livros – tampouco há sinais de que vá lê-los. Tenho aqui uma lista imensa na fila da leitura (já me convenci de que não vai dar pra ler tudo!); nessa fila não há espaço para autoajuda tipo Augusto Cury, que é um campeão de vendas ao lado do Paulo Coelho – se bem que os best-sellers do Mago não sei se são de autoajuda; parece que não.

         Fico me perguntando o que é que faz uma pessoa – um jovem como aquele pai; suponho que o rapaz era pai do bebê que estava no carrinho – se interessar por um livro com esse título “Fodeu geral”, e também o outro, “A sutil arte de ligar o foda-se”. Não estou criticando; estou apenas pensando no que é que leva alguém a ler essas coisas – só pensando.

            Mas, pensando bem, nunca se sabe ao certo o que nos leva a interessar por uma coisa e não por outra. Esses processos internos de escolha são complexos – e depois de Freud, com a descoberta do subconsciente, aí é que a coisa ficou mais complicada ainda. Não dou conta de entender nem as minhas escolhas – literárias ou não -, quanto mais as dos outros.

          Tenho um monte de argumentos sobre por que não ler livros de autoajuda. Mas a gente também não sabe por que escolhe uns e não outros argumentos. E livro é muito pessoal. Não sei se foi o Walter Benjamin que, certa vez, adaptando o ditado popular, disse: “Dize-me o que lês e eu te direi quem és”; ou, num português menos imperativo e mais usual: “Diga-me o que você lê e eu lhe direi quem você é”.

         Fora das minhas relações pessoais (muito pessoais), não costumo indicar livros. (Quem sou eu, algum literato, por acaso?) Me parece algo meio arrogante dizer o que os outros devem ou não devem ler. Então, fico na minha. Mas às vezes os alunos me pedem. E só quando me apertam muito é que sugiro um ou outro livro – e mesmo assim, a contragosto.

             Por isso, em tema de literatura prefiro manter a velha e prudente neutralidade – se é que ela existe. Já, quanto aos livros de autoajuda, não tem neutralidade: esses não leio mesmo. É preconceito, eu sei. Assumo e pronto. Foda-se (geral). Não será esse o primeiro preconceito que me aprisiona. Tenho outros, quem não tem?

           Vou confessar mais um: já andei implicado com aqueles sujeitos que passavam (e ainda passam) na rua fazendo caminhada, de short e sem camisa, com o dorso todo à mostra – achava que não era só calor; devia ter também qualquer coisa de exibicionismo narcisista; ou alguma outra motivação ligada à virilidade – afirmação falocêntrica?

           Minha implicância aumentava ainda mais quando o sujeito era madurão – desses de meia-idade, que vinham lá com passos largos e decididos, balançando os braços que nem soldado em quartel, carregando a camiseta numa das mãos e o dorso de fora, mostrando os pelos embranquecendo e a barriguinha proeminente – às vezes, uma barrigona mesmo.

        O preconceito corria me dizer que aquilo não passava de uma necessidade meio infantil de afetar vitalidade, resquícios de beleza ou força, sei lá; mostrar que, apesar de tudo, apesar do tempo, o cara ainda era saradão – invejavelmente saudável. Eu não tinha, como não tenho, nada com isso, é evidente, mas sempre achei aquilo muito esnobe, sem necessidade.

          Pra falar um português bem claro, achava ridículo. De fato. Mesmo aqueles que, como eu, tinham mais coisa pra esconder que pra mostrar, andavam (e continuam andando) com abdome e tórax ao léu, sem pudores, pra quem quiser ver; ostentando, quem sabe, restos de uma extemporânea ilusão apolínea.

         Aposto que o virtual leitor – não sem razão -, vai dizer que se trata apenas de autoestima, e que não tem aí nada de exibicionismo. Tudo bem, não discordo. Nem concordo. Porque autoestima é uma coisa só pra gente; é quando a pessoa está satisfeita consigo mesma e se basta – não precisa ficar mostrando corpo e alma pra ninguém.

              Como se vê (e eu admito), preconceito é coisa forte, resistente, resiliente. Não é à toa que o Einstein dizia que é mais fácil fissurar o átomo do que romper um preconceito.

            Certa vez, cruzei na rua um senhor bem-apessoado, boa estampa, usando um short cavado muito curtinho e sem camisa. Andava em marcha, com passinhos também curtos (o calcanhar de um pé quase pisando no dedão do outro), meio que rebolando. Achei o cúmulo – o traje e aquela démarche, que então me pareceu desnecessariamente afetada, imprópria.

           É lógico que cada um anda, corre e se veste do jeito que quer, e ninguém tem nada com isso. Mas preconceito é assim mesmo: a gente acaba se metendo aonde não é chamado. Estupidez!

           Só que agora esse preconceito besta (todo preconceito é besta; pelo menos é o que dizem os que têm pré-conceito em relação aos preconceitos) foi pras cucuias: acabei de realizar exames de rotina, desses que visam flagrar doenças metabólicas, e o médico disse que preciso fazer caminhada exposto ao sol, de short curto e sem camisa – estou com carência de vitamina D.

              Mas era só o que faltava!

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Bando de malucos

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             REFERINDO-SE ao governo Bolsonaro e sua trupe, o ex-presidente Lula disse que o Brasil passou a ser “governado por um bando de malucos”. Nem o próprio Bolsonaro contestou isso – aliás, ele o admitiu -, disse apenas que, pelo menos, os governantes atuais não são cachaceiros.

           Tem muita gente concordando com essa afirmação do Lula (até eleitor do Bolsonaro já vi concordando!), mas o escritor Luis Fernando Verissimo, numa crônica desta semana – publicada no jornal Estadão e acho que também no O Globo – disse (e mostrou) que o Lula estava errado.

           Para o escritor, o Lula erra quando diz que o Brasil está sendo “governado” porque o país na verdade está “desgovernado”; erra quando se refere a bando porque bando, ao contrário desse “governo”, tem um mínimo de organização; e Lula erra ainda quando fala em “maluco”, pois, segundo o escritor, maluco não sabe o que faz, e esse governo sabe muito bem o que está fazendo.

         Não é possível que o governo não saiba o que faz quando congela investimento na educação, corta bolsa de pesquisa, deixa de investir na ciência e tecnologia, abre guerra contra a universidade cortando verba, tira dinheiro do ensino médio e, não contente, ainda põe no Ministério da Educação um homem que diz que 30% de 100% são 3,5.

           (Quem viu o vídeo  – live – do ministro com 100 barrinhas de chocolate, separando 3,5 delas para dizer que representavam 30%, e ainda viu o Bolsonaro do lado comendo a metade do chocolate que o ministro partiu ao meio, tenho certeza, sentiu a tal da vergonha alheia.)

           Como se diz no Centro-oeste, e até aqui no Sudeste: “É pra acabar com o pequi do Goiás”.

            E haja pequi! O mesmo ministro da Educação foi escrever outro dia, salvo engano no Twitter, a palavra “incidir” e incidiu num grotesco erro de ortografia: pespegou um “insidir” insidioso. Mas eu dou um desconto pro ministro, porque essas palavras homófonas são traiçoeiras demais da conta.

        Ocorre que, com esse erro ortográfico, acabei descobrindo que o ministro de Bolsonaro votou no PT – é petista. Não acredita? Pois foi ele mesmo quem disse, numa entrevista. Afirmou que “uma pessoa que sabe ler e escrever e tem acesso à internet não vota no PT” – portanto, os que escrevem errado votam no PT.

            E tem mais pequi. Numa explanação feita no Senado, o ministro da “Deseducação” disse que já foi processado administrativamente por uma universidade pública (compreende-se sua raiva da Universidade!) por meio de um processo inquisitivo, como só no “livro do Cafta”. Céus! O homem confundiu o escritor Franz Kafka, autor do clássico O processo, com a iguaria árabe, o espetinho de cafta.

          Isso acontece. Não é sempre que a gente fica fazendo referência a um autor tão complexo como Kafka. Todo mundo fala em “processo e universo kafkiano”, mas nem todo mundo leu O processo do escritor tcheco – se tivesse que apostar, diria que o ministro também não leu; ou leu correndo demais; ou só leu o resumo; ou a orelha do livro e, portanto, citou o autor de “orelhada”.

          Por falar em orelha, quando a gente quer chamar alguém de burro, sem inteligência, chama de “orelhudo”. É mais uma das incontáveis injustiças que se fazem com os animais. O burro – que também é asno, jegue, jerico, jumento, dizem, é um animal inteligente. Ficou estigmatizado porque usam-no apenas para serviços físicos ou braçais, no caso, “patais” – transportar carga; daí o apelido burro-de-carga.

           Que não se faça aqui, por favor, nenhuma associação ou inferência: o ministro da Educação não é burro, nem maluco – como disse o Lula. Ele é até muito esperto. Mais que o ex. Pode não ser um cérebro com muita leitura; nem um homem culto; e pelo visto também não daria para as matemáticas, mas burro ele não é – como disse o Luis Fernando Verissimo: essa turma sabe muito bem o que está fazendo.

           Quem não sabe somos nós. Que não sabemos o que virou este país, nem pra onde ele está indo. A única coisa que dá pra perceber é que estamos ladeira abaixo. Trocando livro por arma. A continuar nessa toada, o mais certo é que acabaremos é dando com os burros n’água – aqui, de novo, qualquer associação ou inferência é por sua conta, prezado e virtual leitor.

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Livro em baixa

           UMA das invenções mais antigas da humanidade, inventado pelos sumérios (junto com a escrita) há mais de cinco mil anos – portanto, na transição da pré-história para a história -, o livro vive seus dias de aperto no Brasil – em 2018, vendeu-se aqui 94 milhões de livros a menos que em 2017; e nossas editoras, nesse mesmo período, deixaram de produzir 43 milhões de livro.

            Má notícia.

         Soma-se a isso o fato – igualmente lamentável – de que duas das maiores redes de livraria do país – Saraiva e Cultura – entraram em concordata. (Hoje não se diz mais “concordata”, mas “recuperação judicial” – lá vai o “juridiquês” atropelando a língua natural; concordata já era um termo assimilado e reconhecido pelos falantes – pra que mudar?)

           Mas o assunto é o livro; não a língua.

          Os primeiros livros, já sabemos, surgiram no Oriente Próximo, no Egito e na antiga Mesopotâmia, em meados do terceiro milênio antes de Cristo. Eram tabuletas de argila onde se lançava a escrita de então.

      A biblioteca mais antiga de que se tem notícia nessa época era a de Nínive, na Assíria do imperador Assurbanípal – onde hoje é o Iraque. Aí pelo século VII a.C. ela reunia para mais de – vou “chutar” de cabeça, confiando só na memória do colégio – 27.000 tabuinhas, que na verdade eram placas de argila em escrita cuneiforme – letras em forma de cunha.

         Depois da argila, veio o livro em formato de rolo – feito de papiro. Papiro era uma planta abundante no Egito, espécie de junco, do qual se faziam as folhas de papel que eram enroladas e viravam livros.

          A maior biblioteca da Antiguidade, a de Alexandria no Egito, fundada em 300 a.C., continha muitos e muitos nichos com esses rolos de papiro – que eram os livros escritos a mão, pelos escribas. Hoje não há nem vestígio do local onde existiu essa biblioteca; todinha ela queimada a mando de César no século I a.C.

           Por essa mesma época, rivalizando com a maravilhosa biblioteca de Alexandria, existiu uma outra biblioteca pública muito importante, a de Pérgamo, localizada em território que hoje pertence à Turquia. Os livros eram basicamente rolos de pergaminho ou de papiro – as tabuletas de argila haviam ficado definitivamente para trás.

            Depois do rolo, veio o Codex ou Códice – a partir do século II d.C.; e até o ano 400 da nossa era o códice já havia substituído completamente os rolos de pergaminho – livro desde então passou a ter lombada.

             Aí já eram livros mais ou menos no formato dos livros de hoje, lembrando muito um caderno, com as folhas costuradas em uma das laterais. Os códices, inicialmente, foram feitos de tábua (uns poucos), de papiro ou de pergaminho. Mas este último, o pergaminho, um tecido de pele animal, acabou prevalecendo, pois era mais resistente que o papiro e mais prático que a madeira.

         O códice foi uma revolução: já não era mais necessário usar as duas mãos para segurar e abrir o rolo de papiro ou pergaminho. Bastava pôr o Códice sobre uma mesa e folheá-lo com uma mão só, como se faz hoje; a outra ficava livre para o leitor espantar mosquito ou se coçar – uma revolução.

          E essa labuta com rolo, papiro, pergaminho e Códice foi longe, atravessou a Idade Média – uffa! – até chegar à imprensa de Gutenberg no Renascimento, século XV – coisa que os chineses, que inventaram o papel no século II d.C., já faziam então há quase 400 anos, mas não tinham os tipos móveis.

            Gutemberg publicou seu primeiro livro impresso, a Bíblia Sagrada, e, a partir daí, o livro moderno, como o conhecemos hoje, invadiu o mundo. Só que o tempo e a história não param: inventaram agora o livro digital, o e-book. E uma livraria como a Amazon – muito maior que a de Alexandria e Nínive juntas – disparou a vender esse tipo de livro, para desgraça dos livros e dos livreiros tradicionais.

           As pessoas ficam se perguntando qual o destino do livro impresso: desaparece ou não desaparece? Por enquanto, está desaparecendo é das prateleiras; pelo menos no Brasil, com mais de 100 milhões de livros a menos em 2018 – se se somar os que não foram vendidos e os que se deixaram de publicar.

             Momento crítico esse. Se o livro anda em baixa, a cultura também. Se o brasileiro já não lia, agora então… E pra amargar ainda mais parece que o país entrou nessa de “guerra cultural”, de anti-intelectualismo. Uns até andam orgulhosos do próprio conservadorismo, da própria ignorância e obscurantismo. E daqui a pouco, além de não publicar nem vender livros, podemos ter os livros proibidos – no índex medieval.

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Sobre malucos, cachaceiros e boçais

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          “EM festa de jacu inhambu não pia”. Você conhece esse dito popular. Conhece sim, que eu sei – é um ditado famoso. Aqui na nossa região, então… ele é famoso demais. É como aquele outro: “Em briga de marido e mulher não se põe a colher”.

        Mas, nessa briga entre malucos e cachaceiros não meto a minha colher não é por causa desses ditos populares, é porque eu, sinceramente, não sei de que lado estou. Se maluco for o cara fora do padrão, esquisito ou meio doidão, creio que já fui ou sou ainda maluco; se cachaceiro for aquele que, em média, manda mais de duas biritas por dia, então sou cachaceiro também – devo jogar nos dois times.

          E o melhor de tudo (ou pior) é que não tenho nenhum problema com isso. (Vamos ver quem é que pode atirar a primeira pedra.) Já fui chamado de maluco e cachaceiro e em nenhuma das vezes me senti ofendido, nem atingido. Como dizem os franceses: “ça m’est égal” – tanto faz.

           Desculpem se por acaso eu ofender a moral, os bons costumes, a sagrada família e os cidadãos de bem (não troco uma pinga por esses conceitos todos) – mas ser chamado de maluco ou então de cachaceiro (ou de outra coisa qualquer; ou de coisa nenhuma), sinceramente, pra mim tanto faz; ou, como diz um professor de francês que eu quase conheci: “Tantúfaz”.

          Não tô nem aí: não tô mais nessa, não – de rótulo. Isso é coisa de adolescente, que ainda precisa se afirmar no mundo. O importante não são os “malucos” e os “cachaceiros”; o importante são as “maluquices” – que tanto podem ser coisa de doido como coisa de bêbado.

         Por exemplo, dizer que os turistas estrangeiros podem vir aqui fazer sexo com as brasileiras – que tá liberado -, é coisa de maluco ou de bêbado? Não interessa. O que interessa é que isso é uma maluquice; dessas que tanto podem ser ditas pelos malucos quanto pelo cachaceiros.

            Outra: dizer que você prefere ter um filho morto a um filho gay é coisa de maluco ou de bêbado? Nem uma coisa nem outra. É uma maluquice que não honra nem os malucos nem os pingaiadas – é coisa de quem tá fora dessas duas classificações; talvez seja simplesmente coisa de boçal.

          E ser boçal não é ser maluco, nem bêbado; boçal é boçal. Pega o Houaiss: boçal é o estúpido, o besta, o tapado… sem inteligência. Eu conheço muito maluco inteligente e muito bêbado que não é tapado. Portanto, não é qualquer boçal que pode aspirar a ser maluco ou cachaceiro – tem que ter competência para tanto.

      Uma vez perguntaram ao Jânio Quadros por que é que ele bebia cachaça. E ele respondeu: “Bebo porque é líquida; se fosse sólida, comê-la-ia”. Resposta inteligente, não? Dessas que põem fim ao assunto. Coisa de bêbado?, coisa de maluco? Não sei. Só sei que não é resposta de boçal – isso não é.

         Boçal é uma coisa; bêbado é outra; e maluco é outra, ainda. Podem até ser parecidas, aparentadas, mas são coisas bem diferentes.

          Dizer que uma mulher – qualquer mulher – não merece nem ser estuprada é coisa de maluco, bêbado ou boçal? Isso é uma boçalidade, não há dúvida. Dessas que tanto podem ser ditas pelos bêbados, pelos malucos quanto pelos boçais. Se o cara que diz uma coisa dessas recusa a pecha de bêbado e maluco, então, ele só pode ser um boçal.

      Se um indivíduo acha que pode combater a criminalidade no país armando a população, esse indivíduo é um bêbado, um maluco ou um boçal? Tanto bêbados quanto malucos podem dizer e achar isso – mas isso é uma boçalidade. Ou seja; se o cara não for maluco nem bêbado, ao dizer uma coisa dessas não escapa de ser um boçal.

           E se o fulano impede a circulação de uma propaganda de tevê só pelo fato de que essa propaganda celebra a diversidade sexual e racial, esse indivíduo é o quê? Nunca vi ninguém fazer isso: nem maluco nem cachaceiro. Se uma coisa dessas não for estupidez, boçalidade, o que seria, então?

           Entre ser maluco, bêbado ou boçal o melhor ainda são as duas primeiras hipóteses; porque tem muito bêbado e maluco que, apesar de tudo, não são boçais; são inteligentes; podem até dizer besteiras, maluquices… mas não boçalidades. E não há boçal – sem pinga nem nada -, que não se comporte como (ou pior) que bêbado e maluco – logo, antes bebedeira e maluquice que boçalidade!

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Mon café

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            TAMBÉM já me sentei no famoso Café de Flore em Paris – localizado no igualmente famoso Boulevard de Saint-Germain -, pra tomar uma cervejinha, ou melhor, “une bière pression”; que é o chope deles lá. Caro pra dedéu. Comemos um tira-gosto qualquer, já nem me lembro o quê, tomamos um par de chopes e deixamos ali, nada nada, uns cinquenta euros – cento e cinquenta contos.

           Pra quem já andou (e talvez ainda ande) entusiasmado com o existencialismo, o Café de Flore é parada obrigatória. Dizem que é quase um “berço existencialista”. Afinal, era ali que Sartre, Simone de Beauvoir, Camus e outros bebuns bem-pensantes da época se reuniam para discutir política, filosofia, literatura, nouvelle vague e tudo o mais que a cultura francesa ditasse.

         Peguei uma mesa do lado de fora, na lateral do Café, já na calçada que desce pela rua Saint-Benoît. Claro que imaginei se o Sartre não teria alguma vez se sentado àquela mesma mesa. Vai saber se não fora exatamente ali que lhe ocorreu aquela famosa frase L’enfern sont les autres.

      E bem que poderia ter sido. Porque ali é tudo muito chique, muito charmoso, requintado e coisa e tal – chiquê no urtimô -, mas tem pouco espaço. As mesas ficam pertinho uma da outra, quase encostando cadeira com cadeira e o povo meio que se acotovelando, apertado, sem um cantinho de seu pra esticar as pernas e falar sem ser ouvido pelo vizinho.

          Pra resolver isso, eles fazem que não veem a gente ao lado – se imaginam sozinhos. Dizem que são educados, que prezam e respeitam a individualidade de cada um, mas na verdade parece que eles se fecham e se defendem abstraindo a presença dos outros – amontoados nos cafés, comportados como se estivessem numa reunião de negócios, ficam curtindo a solidão em grupo; com seus elegantes cachecóis e sobretudos.

          Os garçons, idem; não riem por nada nem pra ninguém. É só bonjour quando chega, merci e au revoir quando sai, e acabou. Não tem lero-lero. Atendem a gente com a seriedade de quem está servindo um convescote lá no Palácio do Eliseu; não relaxam nem com o “Gardez la monnaie”; aí é que eles fecham a cara mesmo – gorjeta pouca é bobagem.

       Da minha mesa não dava pra ver o Les Deux Magots, outro café também famoso, frequentado pela turma do Sartre. Não cheguei a tomar une bière nesse Café, mas bem que poderia ter carimbado minha presença lá; limitei-me a passar em frente, com olhos compridos, de quem estivesse procurando algum vestígio da “existência que precede a essência”.

        O Les Deux Magots é mais simples, porém igualmente charmoso. Era frequentado, além de Sartre e madame Beauvoir, por gente famosa como Picasso, André Gide e Ernest Hemingway. Tem vista de frente para a singela abadia medieval de Saint-Germain-des-Prés (onde uma vez, por acaso, assistimos a um emocionante – e inesquecível – concerto de música barroca).

         E para completar o “circuito existencialista”, fiz questão de ir ao boteco preferido por Albert Camus – o Café de la Mairie -, em frente à praça da catedral românica de Saint-Sulpice. Mais bière pression. Mais euros. Ficava imaginando que algumas páginas de O estrangeiro houvessem sido, senão escritas, pelo menos concebidas por ali, por entre aquelas mesas – e dá-lhe bière pression.

         O formalismo do ambiente seguia o mesmo padrão do De Flore; talvez ligeiramente mais descontraído – só ligeiramente. A solenidade dos garçons era a mesma. E ninguém relaxa. Só lê, pensa e conversa com o comedimento e a polidez habitual dos franceses e dos turistas afrancesados – sem grandes expansões.

         Custava-me crer que algumas obras que devorei, como Caminhos da liberdade, A náusea, O ser e o nada, O mito de Sísifo, O homem Revoltado, A Peste e O estrangeiro houvessem sido pensadas, discutidas e em parte talvez até mesmo escritas por ali, nas mesas indiferentes daqueles botecos, onde eu agora me entupia de croque-monsieur, crepe e bière pression – muito surreal.

        Saímos do Café caminhando em direção ao hotel de Montparnasse – tudo grandioso, arquitetura inclusive -, e eu imaginando se não teria sido bem ali, ao pé daquelas colunas românicas de Saint-Sulpice, que Camus chegara à dramática conclusão de que a condição humana é mesmo absurda; o que, afinal, foi a pedra de toque de toda sua filosofia e produção literária.

          Seguindo a pé pelo Boulevard Saint-Germain, deixamos o La Mairie, o Deux Magots e o De Flore para trás – hora de volver ao mundo real; privativo; inarredável…

         A caminho do hotel, no coração da luminosa Paris, surpreendi-me pensando que, com tudo aquilo, com toda aquela exuberância a minha volta, ainda seria capaz de dar muitos euros só pra tomar uma skolzinha gelada no velho Bar do Lúcio – se esse bar, sua gente e sua filosofia ainda existissem por lá; ao pé da matriz de São José Carpinteiro e sua torre supostamente neogótica.

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