Posta-restante

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             UMA única vez entrei na casa dos nossos vizinhos. Ficava bem na frente da praça, no rumo da igreja. Era uma casa com varanda. E isso, naquela época, devia dizer alguma coisa. Algo como aquilo que antigamente diziam as casas com “eira e beira”. Não era uma casa grande, não chegava a ser um daqueles casarões antigos – estava longe de ser um palacete. Não era sequer um sobrado… Mas tinha varanda. E tinha também uns adornos em formato de abacaxi no alto da parede da frente, um pouco acima do beiral, o que talvez fosse (teria sido no passado) algum indício de status.

        Os moradores eram reservados. Raramente saíam de casa. Parece-me que não visitavam ninguém nem recebiam visitas – exceto alguns poucos parentes mais chegados. Ele, um senhor de meia-idade, era funcionário, encarregado dos correios; um homem que talvez lesse jornais – e isso provavelmente também dissesse alguma coisa naquele tempo. Ela, a esposa, uma senhora discreta, vivia praticamente reclusa, cuidando da casa, do marido e das filhas – talvez andasse já um pouco adoentada. Eram reservados, os nossos vizinhos. Mas eram cordiais.

           Tinham duas filhas, que na ocasião cursavam o normal, o clássico ou o científico. Ou seriam já as licenciaturas?… Viriam a ser professoras. Eram muito educadas, discretas, contidas – aliás, como convinha à época; e como exigiam as regras da boa educação formal. Me lembro que eram estudiosas. Algumas vezes, eu próprio as ouvia estudando em voz alta enquanto andavam pelo quintal de sua casa; como naquele famoso método de Sócrates, que também ensinava (e dizia aprender) andando… e falando… pelas ruas de Atenas ou pelos jardins da Academia.

            O quintal onde elas por vezes estudavam – a exemplo do nosso -, era um quintal grande. (Naquele tempo os quintais eram grandes; para a minha imaginação de menino então, eram imensos.) Havia lá uns canteiros de flores, cercados por tijolos que já contavam com a decoração de um lodo esverdeado. Isso eu via pelas frestas da cerca de madeira bem-feita, bem juntinha, quase inexpugnável. Tinha a recomendação especial, por parte de meus avós, de nunca incomodar aqueles nossos vizinhos – portanto, a cerca do quintal deles era mais do que uma cerca: era uma fronteira.

              Isso aguçava minha curiosidade. Quando ouvia as moças lendo do lado de lá, dava um jeito de me aproximar da divisa e ficava prestando atenção, tentando entender o que diziam. Não entendia nada. Mas me pareciam coisas importantes. Muitos anos depois – décadas -, vim a saber pela minha mãe que uma delas, a mais velha, havia confeccionado o bolo do meu primeiro aniversário – da festa do meu primeiro ano de vida (ainda há uma fotografia dessa festa lá em casa: com o bolo, comigo e meu avô). Quando soube desse pequeno(?) detalhe – experimentei (experimento ainda) uma espécie de gratidão tardia, extemporânea… terna.

             Além da entrada principal pela varanda, a casa dos nossos vizinhos tinha uma porta onde funcionavam os serviços do correio, cujo movimento era então bastante escasso. Ao lado dessa porta, havia outra que ficava sempre fechada. Ela tinha um degrau mais alto, de uns quarenta centímetros mais ou menos, com acabamento em granito. Era ali que o cego da cidade vinha sentar-se diariamente, tateando o tempo; empurrando as horas como se quisesse fazê-las passar mais depressa – foi o primeiro cego que conheci.

       Quando lhe dava na telha, trazia seu acordeom para tocar com dedos ágeis, suavemente, discretamente – olhando para o nada. Isso acontecia vez ou outra, quase sempre ao cair das tardes, durante a semana; ou nos domingos de manhã, após a missa. Me lembro que ele tinha o globo dos olhos impressionantemente esbranquiçados; ficava balançando o corpo em ligeiros movimentos para a frente e para trás, sem parar. Mesmo quando não estava tocando o acordeom, balançava o corpo. Era um vaivém interminável, obstinado… como o do mar.

           Tinha também a mania de ficar batendo a unha de um polegar na unha do outro. Amarelecidas pelo cigarro, essas unhas andavam até meio desgastadas por causa daquele tique. Gostávamos dele; sentíamos dó: era sociável, mas era solitário. Diziam que a mãe, por engano, havia pingado ácido nos seus olhos quando criança – imaginávamos logo a dor, o desespero, a claridade se apagando… e depois a escuridão irreversível. Paciente e atencioso com todo o mundo – inclusive com a criançada -, o cego conhecia as pessoas pela voz. Além do cumprimento – do bom-dia e do boa-tarde – dizia o nome da pessoa que passava, e tinha sempre uma brincadeira inofensiva… um comentário qualquer.

            Ao lado dessa porta – onde quase toda tarde se sentava o cego Laerte -, ficava a caixa do correio, fixada na parede. Era de ferro-fundido, pintada de verde, com aquela conhecida fresta por onde as pessoas enfiavam correspondências já seladas, para que o funcionário as recolhesse depois. A caixa avançava um pouco sobre o passeio público e nós, os moleques, que frequentemente brincávamos por ali, na correria quantas vezes não demos com a cabeça naquela caixa postal. Ela tinha um brasão do governo – indicando que lá funcionava uma repartição pública.

           Assim era a casa dos nossos vizinhos. E fosse porque o estilo dela – sem ser suntuoso -, era mesmo diferenciado. Fosse porque a casa nunca estava aberta; nunca estava acessível. Fosse porque os moradores eram discretos. Ou porque meus avós tinham uma relação bastante formal com eles. Fosse ainda por causa do brasão oficial na caixa do correio. Ou porque eu tinha aquela recomendação – constantemente reforçada -, de nunca molestar nossos vizinhos comedidos e cordiais, enfim, fosse lá por que fosse, eu olhava para aquela casa com certo distanciamento; com alguma reverência.

            Por isso, no dia em que entrei na casa dos nossos vizinhos, pela primeira e única vez, entrei curioso. Não me lembro o motivo. Soube ali que era uma casa bem-arrumada por dentro. Tudo brilhava. O chão impecavelmente limpo; encerado com esmero. Havia certa dignidade no mobiliário. A cristaleira na sala era de um mogno escuro, imponente. Mas, o que mais me marcou – não sei por quê -, foi o cheiro. Era um cheiro indefinível. De limpeza. Agradável. Porém, um cheiro agridoce que eu nunca havia sentido. Se tivesse que descrevê-lo, diria que era uma mistura de cera (certamente Parquetina – porque era a mais usada na época) com amendoim verde – uma coisa assim.

           Fato é que, depois daquela brevíssima incursão – que fiz circunstancialmente pela casa dos nossos vizinhos reservados -, nunca mais entrei ali. Continuava vendo a casa apenas por fora. Respeitava-a. Era uma casa com varanda; com aquele detalhe arquitetônico dos abacaxis sobre o beiral; com o brasão do governo… E agora, até seus eflúvios eu já sabia que eram diferentes, incomuns. Vai saber por quê, mas trago aquele cheiro na memória até hoje; seria capaz de identificá-lo, ainda – não dizem que nossa memória olfativa é mesmo muito poderosa?

            Pois bem… A casa dos nossos vizinhos já não existe mais – há tempos que foi demolida: deu lugar a uma mansão moderna, avarandada. Junto com ela, desapareceu também a caixa verde dos correios, forjada em ferro-fundido, com aquele respeitável brasão. Desapareceram, naturalmente, os abacaxis que ficavam em cima do beiral. Não sei que fim levou o cego da cidade, que se sentava no degrau de uma das portas da casa para tocar o tempo e o acordeom. Nossos velhos vizinhos, há muito que se foram… Nunca mais senti (mas também nunca mais esqueci!) aquele cheiro único: de cera Parquetina… com amendoim verde.

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O ódio é uma cagada

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              PERDOEM o novo clichê, mas “o país está mesmo politicamente (ideologicamente) rachado pelo ódio”. É o que dizem os entendidos e os desentendidos. E ódio de morte – coisa braba. Fui aos livros: primeiro, aos dicionários; depois, a um livrinho famoso do Emilio Mira y Lopes, que li quando era adolescente, cujo título é Os quatro gigantes da alma – um deles é a ira; e, finalmente, ao livro do ensaísta francês André Glucksmann, O discurso do ódio, que li há não muito tempo, porque tive de orientar uma dissertação de mestrado (excelente, por sinal!) sobre o ódio contemporâneo.

              Saí desanimado: os dicionários (Aurelião, Aulete e Houaiss) me dizem que ódio é ira, repugnância, aversão, antipatia, execração, rancor, desejo do mal etc., etc., etc. O Mira y Lopes vem me lembrar que “Não há mundo sem ódio; pois o ódio existe desde que a Terra começou a girar”; e as conclusões do André Glucksmann então… nem se fala; essas me desanimaram de vez: segundo ele, “O ódio existe, se camufla com ternuras, é insaciável, promete o paraíso, deseja ser o Deus criador, ama até a morte, e se nutre de sua devoração”. Como diria o João Tenente lá na minha terra: “Tá bão pro cê?”.

             E o culpado de tudo isso entre nós é o Lula, viu? Não é a corrupção não. É o Lula. Pode esquecer a corrupção. Porque já arquivaram duas denúncias criminais contra o Michel Temer por corrupção política; pegaram o Aécio Neves no grampo telefônico confessando a prática de corrupção; agora tiraram o Alckmin da Lava Jato e nada. Nem um tiquinho sequer de revolta, de panela e… de ódio. A coisa é mesmo com o Lula. Começou contra ele – e faz tempo, velhão.

             Quando Lula teve um câncer, desses perigosos, agressivos, lembra?, as redes sociais ficaram infestadas de gente festejando sua doença, mandando ele se tratar no SUS, desejando até que a metástase fosse mais competente do que normalmente é. Depois, festejaram a morte da mulher dele. Aliás, não só festejaram como houve até quem, sendo médico, sugerisse na internet quais os procedimentos a serem tomados na UTI para apressar a morte da mulher; a mulher do sapo barbudo.

               Cansei de ver piadinhas nas redes sociais (tá certo que são piadinhas!, mas ainda tem gente que acha que o exercício da cidadania se resume a elas) com o Lula encontrando sua mulher lá no céu, ou seja, morto. Com desenho do Lula dentro de um caixão, escrito embaixo: “Lugar de bandido bom é aqui”. E olha que essas piadinhas (essa pulsão inconsciente de morte) vem até da parte de gente que jura “temer a Deus”. De gente que não perde uma missa, um culto, sequer. Que está sempre lá a bater no peito: “Minha culpa, minha máxima culpa…”.

              Agora há pouco, uns grupelhos destemperados receberam o Lula à bala lá no Sul do país. Acertaram os ônibus de sua caravana, mas o alvo – o motivo -, era o Lula.  Logo após sua prisão na semana retrasada, transferiram o ex-presidente de São Bernardo para Curitiba. E dentro do avião, durante o voo, algum membro iluminado da tripulação sugeriu que se jogasse o Lula lá de cima. Há uma gravação em que se ouve alguém dizendo: “Joga esse lixo pra baixo”. Veja que é ódio de morte mesmo; morte física, eliminação (desejo do mal) – não dá pra brincar com esse ódio não, velho.

            Cruz-credo! Dá até medo, não dá? Mas, inspirado talvez naquele ditado popular que manda fazer uma limonada quando a vida nos oferecer um limão, procurei encontrar alguma coisa boa nisso tudo – nesse “racha”, nesse “ódio” que vem sacudindo o país há bem uns dez anos. Por incrível que pareça (vocês podem até não concordar!), mas eu acho que é possível encontrar, sim, alguma utilidade no ódio – tá certo que o preço é muito caro, mas já que a vida nos ofereceu um limão…

              Por exemplo, eu acho que o ódio, no mínimo, é didático. Vejam o nosso caso. Esse “racha” que dividiu os brasileiros em duas “raças” – embora amargo e perigoso -, serviu pra revelar o que as pessoas realmente sentem, não apenas por fora, mas também por dentro – da cabeça e do coração. Além de revelar isso, o ódio social e político que se espalhou por aí tem revelado a face conservadora – e até mesmo fascistoide -, de muita gente boa. Que se autoconsiderava light, moderninha, prafrentex… e nem suspeitava que tinha traços ou tendências conservadoras e fascistas.

              Como o ódio e o preconceito andam de par – um implica o outro e vice-versa -, esse ódio que explodiu agora no país serviu também para escancarar o preconceito odiento (e odioso) da elite brasileira e da classe média elitista contra o ex-presidente Lula. Os que se sentem “herdeiros” da Casa-grande se sentiam também no direito de chamar o representante da Senzala de analfabeto, ignorante, estúpido… (Mas aí, já é o macaco sentado no próprio rabo a falar do rabo dos outros.) Como se vê, o ódio acaba revelando muita coisa mesmo; é didático, sim.

         E como disse o Glucksmann, ele também é insaciável. Pois imaginem que, não bastasse arranjar um processo inquisitorial pro Lula, e uma condenação pra lá de suspeita, meteram-no na cadeia e ainda tem gente que anda implicada com o fato de a cela dele ter banheiro privativo – não querem nem deixá-lo cagar sossegado. Imagino que uma boa cagada é um direito fundamental, garantido pela nossa Constituição-cidadã: sentar-se no vaso, com tempo suficiente para o serviço (muitos até fumam um cigarrinho), lendo o jornal, sentindo os próprios eflúvios… não tem dinheiro que pague isso. É um direito fundamental mesmo. Vai dizer que não.

             Pois até esse direito básico querem tirar do Lula – o ódio, de fato, não tem limites. Os europeus que o digam; eles, que já passaram por isso tantas vezes até amadurecerem suas democracias, bem o sabem. O nazismo na Alemanha e o fascismo na Itália foram apoiados pelo ódio de muita gente boa; gente da classe média, gente bem-formada, bem-intencionada; com os valores, a vida e a família certinhos – tudo no lugar. Foi isso o que intrigou e fez a filósofa alemã Hannah Arendt investigar a fundo a origem e a “banalização do mal” – ela concluiu (com outras palavras, claro!) que o ódio é comum, é banal, e termina sempre numa bela cagada.

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A lição do vento

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          TEM coisas que marcam. Mesmo coisas banais; ou aparentemente banais. Eu era ainda bem moleque: aí, à volta dos dez anos – ou nem isso. Cheguei em casa carregando um traste inútil. Era o encosto e os pés parcialmente queimados de uma cadeira de pau; dessas cadeiras muito simples, que havia antigamente – não me lembro o nome delas -, cujo assento era uma tábua fina de madeira compensada. Mas o que eu trazia era apenas o encosto da cadeira, que achei entre as cinzas de uma fogueira onde haviam queimado o lixo doméstico.

           Aquele encosto, enegrecido pelo fogo, lembrava uma escadinha – de apenas três degraus. Devo ter imaginado que poderia fazer alguma coisa com aquilo. Sabe-se lá o quê. Naquele tempo não havia tantos brinquedos como hoje. Tínhamos de improvisá-los. Três pedaços de madeira unidos por uma coisa qualquer já serviam para estimular a nossa imaginação ávida de tudo – e a gente criava mesmo: era obrigado a ser criativo. Inventávamos o que só mais tarde o mercado iria inventar.

           Mas quando minha avó me viu carregando aquela sucata quis logo saber onde é que eu tinha arranjado aquilo. O tom era claramente inquisidor. Pressenti que teria problemas. E tive mesmo. Disse que havia encontrado o pedaço de cadeira no meio de uns restos de lixo; queimado na frente da casa do seu Evaristo. (Naquela época, sobretudo em cidades pequenas, costumava-se varrer e queimar o lixo na porta das casas – junto ao meio-fio das ruas, que ainda não tinham asfalto.)

         Minha avó foi peremptória, no seu português imperativo: “Vais levar isto de volta; vais pô-lo no lugar onde o encontrou”. Argumentei que aquilo era uma sucata. Que já não valia mais nada, e fora até descartada pelo dono: era coisa rejeitada, coisa de ninguém. Não adiantou nada. Ela disse que não era meu; que as coisas dos outros são coisas dos outros; e que não se deve mexer, muito menos carregar aquilo que não nos pertence – mesmo que seja um traste sem serventia nenhuma, como aquele pedaço de pau queimado e abandonado pelo dono.

      Eu sabia que não adiantava continuar argumentando. Minha avó era daquelas portuguesas bravas, assertivas, categóricas. Não digo que fosse intransigente, porque ela sabia e gostava de ouvir as pessoas. E tinha muito bom senso. Mas algumas coisas eram inegociáveis pra ela. Aparecer em casa com qualquer objeto da rua que não fosse meu era uma das coisas com as quais ela não transigia. De jeito nenhum. Eu sabia que estava condenado a devolver aquele treco imprestável às cinzas de onde o tirei.

         Para quem não conheceu minha avó – que compartilhava a criação do neto com meus pais – digo que era uma portuguesa das mais enérgicas, lá da Panchorra, norte de Portugal. Pertinho de Trás-os-Montes; lugar de gente brava. Era dura na queda. Severa. Não me lembro de nenhum gesto seu de carinho, ou de qualquer expansão amorosa, para com ninguém. Mas eu sentia que me amava. Demonstrava-o de várias formas, menos por carícias e dengos. Um eu-te-amo então, nem pensar. Acho que para ela – que já demonstrava seu amor de tantas outras maneiras – uma declaração expressa, um beijo, um afago seriam desnecessários; quase uma redundância – um pleonasmo.

           Conhecendo-a como eu a conhecia, resolvi ceder. E fui levar o pedaço de cadeira até o lugar onde o havia encontrado. Foi uma humilhação. Atravessei a praça arrastando aquele traste velho encolhido de vergonha. Como se toda a cidade já soubesse do meu crime; como se todos os olhares me fulminassem; como se eu fosse o mais baixo dos criminosos. Deixei aquela porcaria daquele resto de cadeira no lugar dele e voltei pra casa humilhado, porém, mais leve – era como se houvesse purgado minha culpa, meu pecado.

          Volta e meia me lembro dessa história. Ainda hoje me lembrei dela. Vai ouvindo. Já faz dias, enquanto brincava com o caçula na frente de casa, lá vem uma bola azul muito leve, de plástico ordinário, toda manchada de ferrugem. Vem descendo devagar, quicando pelo declive sutil da rua, trazida mais pelo vento do que pela gravidade – tão leve era a bola. Resolvi interromper seu percurso e guardá-la. Imaginei até que pudesse ser do neto do vizinho (o simpático Arthur, de apenas três anos), que não sai da casa dos avós (também simpáticos) – quatro casas acima da minha; ou talvez fosse de alguma outra criança aqui do condomínio.

           Guardei a bola para devolvê-la (o Antonio nem se interessou por ela!) e a esqueci. Ela deve ter ficado perdida em algum canto do quintal; ignorada. Ninguém a reclamou. Hoje pela manhã, domingo nublado, preguiçoso, deparei-me com a bola na porta da varanda interna. Abri o portão e resolvi devolvê-la a seu destino: a rua – a fim de que o dono a recolhesse. Voltei pra dentro de casa, troquei a roupa e em poucos minutos saí de carro, pra pegar charutos com folha de uva e de repolho, um galeto assado, pão sírio e coalhada seca – ali no árabe do Irajá.

            Eis que vejo a bola exatamente defronte a casa dos avós do Arthur. Fiquei intrigado: como é que esse raio dessa bola havia subido a rua? Que ela descesse até minha casa, rolando rua abaixo, eu até entendo. Que o vento a tenha impulsionado na descida, eu também entendo – porque morro abaixo todo santo ajuda. Mas subir a rua num dia quase sem vento; e parar em frente a casa do seu provável dono – aí já é coincidência demais. Na volta do Irajá, lá estava a bola, no mesmíssimo lugar – parada na frente da casa dos avós do Arthur.

           Quase inexplicável, concorda? Não chegava a ser inquietante, mas era engraçado. Eu, pelo menos, achei engraçado. Era como se o vento estivesse devolvendo aquela bola ordinária, meio oval e toda manchada, a seu verdadeiro dono – que muito provavelmente a havia descartado. Por pouco não enxerguei nela o encosto carbonizado da cadeira do seu Evaristo. Sim, confesso que cheguei a rir sozinho. Só podia ser um recado, uma lição do vento: “As coisas precisam permanecer onde e com quem elas devem permanecer” – mas isso eu já sabia.

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O artista

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           PAREI no semáforo da Rui Barbosa com a avenida Independência, e bem à minha frente, sobre aquela faixa de pedestres, um rapaz cuja idade não pude calcular fazia malabarismo com cinco bolinhas vermelhas. Enquanto o sinal permanecia fechado, ele fazia as bolinhas girar com mãos ágeis, como se elas flutuassem à sua frente, desafiando a lei da gravidade. Terminou seu “número” antes que o sinal abrisse e passou a ziguezaguear por entre os carros, recolhendo rapidamente algumas poucas moedas – tinha um sorriso explícito no rosto; um sorriso que queria ser feliz.

             Impressionou-me sua habilidade. E mais ainda quando, em dado momento, ele foi recolhendo uma a uma as bolinhas e amorteceu a última na cabeça, equilibrando-a no topo por alguns segundos. Inclinou então a cabeça para trás e deixou a bolinha cair paralelamente a suas costas. Quando ela atingiu a altura da dobra da perna, num toque preciso com a sola do tênis velho, ele fez a bolinha voltar para suas mãos, passando por cima de sua cabeça. Retomou então o malabarismo com as outras quatro. Repetiu essa manobra umas duas ou três vezes; com absoluto domínio de seu métier; impecável, sem falhanço.

         Há muitos desses artistas mambembes espalhados pelos cruzamentos, ruas e avenidas da cidade. Alguns me parecem até talentosos: com suas bolinhas, bastões, tochas, pernas de pau e bambolês. Às vezes até se exibem com trajes exóticos e roupas de palhaço. São os herdeiros ou remanescentes do circo – que me parece ameaçado de extinção. Sempre tive curiosidade em saber como é que esses saltimbancos ganham a vida; de onde vêm; como são treinados; onde aprenderam suas habilidades; e por que escolheram trabalhar na rua, enfrentando a agitação do trânsito – como se estivessem a humanizar um pouco o tráfego estressante da cidade.

               Estacionei o carro logo após o cruzamento, numa vaga junto ao meio-fio, e resolvi “entrevistar” o malabarista. Ele me recebeu com um sorriso – foi receptivo, disfarçando a surpresa pela minha abordagem. Sem saber direito o que lhe perguntar, indaguei quando e onde ele havia aprendido aquela arte do equilibrismo. Foi com um amigo; ele me ensinou e eu treinei bastante – só isso. Disse-lhe que além do treino achava que ele já deveria ter alguma habilidade prévia, inata. Ele foi modesto. Sim, é preciso ter alguma capacidade de concentração, uma razoável coordenação motora, mas o decisivo mesmo é o treino – tem que treinar muito.

                Perguntei se ele já tinha trabalhado em algum circo. Disse que não; disse que até havia tentado, mas, mesmo num cirquinho qualquer de periferia, era difícil se encaixar. Indaguei se se considerava um artista. Ele vacilou. Eu insisti: um artista de rua, pelo menos. Aí ele concordou, disse que de certa forma era, sim, um artista. Quis saber se ele achava que sua arte, de alguma maneira, “humanizava o trânsito”. Ele sorriu, pensou, pensou… e concluiu: acho que sim, pode ser; nunca tinha pensado uma coisa dessas – a gente sempre acaba alegrando alguém, sim.

           Me parecia ansioso; meio loquaz. Falando às pressas, quase atropelava as palavras. Tinha tatuagem nos braços. Desculpei-me pela indiscrição e quis saber quanto é que ele faturava no fim do dia. Muito pouco, amigão. Não estou aqui por causa de dinheiro – eu cago pra dinheiro. Escolhi essa vida porque foi a vida que me escolheu – só isso. Mas eu tenho que levantar algum trocado, consentiu. Pra pagar a pensão de 25 reais, senão acabo dormindo na rua; depois tem a comida também que tenho de comprar, se bem que às vezes eu peço e eles me dão alguma sobra aí na conveniência.

             Insisti na pergunta. Mas, em média, quanto é que você acha que tira por dia. Ele não queria falar em dinheiro. Não sei, não tô preocupado. Quero fazer o que eu gosto. Quando canso, me deito um pouco ali debaixo daquela árvore; fumo um baseado – e leio também. Mostrou-me uma mochila de pano, meio encardida, que estava no chão, dentro da qual havia um livro. Esse livro aqui me foi emprestado por uma amiga, explicou. Muito legal, tô gostando bastante. Eu quis saber qual era o livro. Era o Rota 66 do jornalista Caco Barcellos; tinha um pedaço de papel rasgado, feito marca-página, indicando que ele havia lido umas trinta, trinta e poucas páginas da obra.

            Perguntei se ele, e também seus colegas que trabalham “humanizando o trânsito” nos cruzamentos, recebia alguma ajuda da prefeitura. Que nada! O que os fiscais da prefeitura fazem, vez em quando, é apreender o material da gente. Somos tratados que nem marginais. Gesticulava bastante. Mas eu gostei dessa sua pergunta, dessa ideia de que a gente “humaniza o trânsito” – nunca tinha pensado nisso. Porque tem muita gente que aplaude, as crianças principalmente. Só que a maioria não tá preocupada com a situação da gente, não. Não querem nem saber quem a gente é, de onde vem, se tem família… Tenho que me virar, amigão: se eu não morrer hoje, amanhã tô fodido de novo.

             Disse que era de Fernandópolis, onde ainda reside sua mãe. Aliás, estou precisando visitar a velhinha; faz tempo que não vejo ela. Ela se preocupa muito comigo. Então, vez em quando, preciso “fazer uma presença” lá, né? (Ficou com a voz embargada.) Mas eu tenho de correr o mundo, velho; se eu não equilibrar, a casa cai. A gente passa muita dificuldade, muito perrengue nessa vida – mas até que é divertido. Eu ainda gosto do que faço. Sempre gostei de jogar um “malabaris”. Deixou escapar que, em média, acabava tirando de 30 a 40 reais por dia – às vezes menos, raramente mais. Só que eu trabalho pra chuchu, de segunda a segunda; nem quando era empregado com carteira assinada eu trabalhava tanto – e caiu na risada.

             Perguntei se ele já havia passado por algum episódio desagradável nos cruzamentos por onde andou. Já andei por muitas cidades, muitos cruzamentos. Às vezes as pessoas aplaudem, sorriem, mas às vezes xingam também. O pior foi um senhor de meia-idade, com cara de ex-combatente de guerra, que um dia baixou o vidro fumê do carro, me mostrou um revólver e me chamou de vagabundo – mandou eu procurar emprego. Respirou fundo e disse que nesse dia sentiu muito ódio – foi a primeira vez que teve vontade de matar alguém. A voz ficou embargada de novo; quis chorar, mas disfarçou novamente com o riso.

       Diga agora um episódio legal, uma coisa bacana, que lhe aconteceu nesses cruzamentos da vida, pedi-lhe. Ele disse que foram muitos. Por exemplo, bater um papo; conhecer pessoas; e alguém se interessar pela gente, como você está fazendo agora, é uma coisa maravilhosa. E uma das coisas mais bacanas que eu me lembro, que me aconteceu lá em Santos, foi o dia que um ônibus passou bem devagarinho, cheio de crianças, e elas me aplaudiram na maior empolgação. Um ônibus inteiro me aplaudindo! Esse dia foi emocionante demais. Não esqueço. E não tem dinheiro que pague essas coisas. É muito forte, sabe?

            Dei-lhe uma nota de 20 reais – pelo tempo que ele havia perdido conversando comigo. Ele não queria aceitar. Afinal, aceitou. Continuava falando bastante, muito ansioso. Perguntou então o meu nome. Eu disse-lhe, e ele se apresentou como Luís Paulo. Muito prazer. Apertamo-nos as mãos e nos despedimos. Fui para o carro e, na saída, olhei pelo retrovisor. Vi sua figura magra, macérrima, ainda na calçada, junto da mochila com o livro do Caco Barcellos. Ele olhava na direção do meu carro – notei que limpava os olhos com a manga da camisa.

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O papa e o inferno

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             O PAPA Francisco é o “cara”! Ele fala cada uma; dá cada declaração que deve deixar muita gente de cabelo em pé. Não faz muito, disse que “o capitalismo é insuportável”. E que o dinheiro, símbolo máximo do sistema capitalista, é o “cocô do diabo”. Depois, pra completar suas diatribes ideológicas, disse que “são os comunistas que pensam como cristãos”. Aí, perguntaram-lhe se ele era socialista, e o irrequieto bispo de Roma não titubeou um segundo sequer: “Se eu sou socialista, então Jesus Cristo também é”. E disse ainda que não se importava que o chamassem de revolucionário. É pouco ou quer mais?

            E o problema é que tem mais, sim. O papa não só foi acusado de ser comunista como também foi chamado de herético. Imaginem, um papa herético! Depois de cada declaração polêmica dele, os porta-vozes do Vaticano sempre saem pondo panos quentes na machucadura – pra contornar os mal-estares. Saem dizendo que não foi bem isso o que papa disse; que ele queria dizer isso, e não aquilo; que as declarações verbais dele não expressam fielmente suas posições oficiais, nem muito menos as do Vaticano… Enfim, saem remendando os “estragos” do pontífice.

                Particularmente, me divirto pra valer com essas tiradas espirituosas do papa. Não sei como é que os católicos o veem, em geral. Mas ele, escreveu não leu, põe o dedo em alguma ferida delicada, sobretudo para os conservadores: já condenou o capitalismo como sistema gerador de miséria; já cutucou a indiferença dos ricos; já proscreveu o dinheiro; já acolheu os gays; já recebeu transexual no Vaticano; já pôs em xeque o criacionismo de Deus… Já aprontou pra valer – e sempre com aquela cara bonachona, de quem sabe que tá fazendo arte.

           Imaginem que agora, às vésperas da Páscoa, Francisco me vem dizendo que o inferno não existe. Isso é um puta problema. Porque se não existe inferno também não existe diabo. E sem o diabo, Deus é que fica em maus lençóis. Pois, como disse José Saramago, Deus precisa do diabo – até para justificar-se, e para explicar as tentações e os pecados do mundo. A maldade do diabo é o que explica a bondade de Deus. Um precisa do outro, assim como o céu precisa do inferno – sem inferno o céu fica meio que ocioso, quase perde o sentido e a razão de ser.

              Se não tem inferno, não tem punição; se não tem punição, não tem pecado (nem abaixo nem acima da linha do equador); e se não tem pecado, tudo não passa de um mal-entendido. Com essa declaração sobre a inexistência do inferno, o papa Francisco quase “desmonta” a Bíblia – ou boa parte dela. Pois a moral judaico-cristã está assentada sobre as ideias de culpa, castigo e arrependimento. Já nascemos culpados – com aquele conceito estranho de “pecado original”. Aliás, a culpa é um dos mais, senão o mais poderoso mecanismo de controle dos fiéis e de coesão das igrejas; de manutenção das doutrinas e dos dogmas que às vezes só podem ser assegurados pelo medo, pela ameaça.

              Foi, por exemplo, em nome da culpa que a igreja católica no Brasil justificou, por séculos, a escravidão e a dizimação de negros e índios – todos eles culpados, e tratados como “coisa” por não acreditarem no mesmo Deus nem no mesmo Evangelho dos colonizadores. O Tribunal do Santo Ofício da Inquisição na Idade Média idem. Foi em nome da expiação da culpa que esse Tribunal combateu – com os horrores do calabouço e até com a morte na fogueira – os ciganos, os judeus, os cristãos-novos, os homossexuais, as bruxas, os heréticos e todos os que eram considerados ou que pensavam diferente.

           Sempre achei um exagero as religiões se apoderarem e explorarem a culpa de maneira tão explícita – cristianismo inclusive. Vivemos culpados demais – o tempo inteiro. Quem passou pelas páginas de Dostoiévski (Crime e castigo) sabe muito bem que é difícil viver uma vida comum – ter uma existência ordinária -, sem se sentir culpado; mesmo que não se tenha cometido um grande crime. É impossível viver sem culpa. Penso que ninguém consegue viver sem magoar – e sem ser magoado. Pra quem já tem de lidar com a culpa intrínseca, com a ameaça do castigo e com o arrependimento, nem precisa de inferno. O papa tem razão: o inferno não existe; ele é desnecessário, é supérfluo.

                A declaração do papa (feita a um amigo particular) não é uma declaração herética de jeito nenhum – é generosa. Acho que o objetivo dele era libertar um pouco os fiéis do medo e da ameaça. Claro que não é um “liberou geral” – continuamos responsáveis pelo que fazemos ou deixamos de fazer. Mas a gente vive muito oprimido com essas ideias de expiação dos pecados, de castigo divino e purificação da alma. Não dá pra passar pelo mundo e sair ileso, puro, depurado… Existir já é uma contaminação – do corpo e da alma (seja lá o que for que se entenda por “alma”).

               Há quem acredite que esse papa, com seu jeito bonachão, ainda vai “revolucionar” muita coisa na igreja católica – que parou no tempo. Talvez esteja vindo por aí um Concílio Vaticano 3º, como aquele do João 23, um papa prafrentex e simpático que mudou profundamente as práticas do catolicismo nos anos 60 (uma das poucas biografias que li na vida foi a do cardeal Angelo Roncalli). Depois do papado conservador de João Paulo 2º, e do ultraconservador Bento 16, bem que os católicos estavam merecendo um líder mais progressista, mais descontraído… Um desses que nos livre do fogo do inferno.

              Desejo vida longa e um longo papado ao cardeal Jorge Bergoglio. Quem sabe se não tinha de ser mesmo um papa latino-americano, que conhece bem nossas mazelas (inclusive nosso atraso) para nos libertar de certos dogmas, e de certas crendices, tão típicas das religiões terceiro-mundistas, que ainda são exageradamente místicas. Tenho certeza que esse papa é leitor de Dostoiévski – um dos grandes precursores do existencialismo na literatura russa e mundial. Por isso, se continuarem chamando o papa Francisco de comunista e herético, não vou estranhar nada nada se ele vier, daqui a pouco, com aquela famosa frase do Sartre – L’enfer c’est les autres.

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A putinha e o santo

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          VEJO-OS todos os dias. Já fazem parte da paisagem. Passo diariamente entre os dois. É meu caminho. Estão sempre lá: cumprindo seus dias aparentemente tão opostos. Nunca falo com eles – por absoluta falta de assunto… Não sei seus nomes nem de onde vêm. Não sei, enfim, quem são. Posso supor apenas os papéis que cumprem. Ambos. E pergunto-me: seriam “papéis”?, seriam destinos? Não sei. Percebo que os cumprem – papéis ou destinos -, com determinação. Talvez resignação… Nem sei se eles próprios o saberiam dizer: se é destino, se é papel, se é determinação, se é resignação… Os papéis que cumprem são, claro, muito diferentes – talvez opostos -, mas os destinos já não sei.

           Meu caminho passa por entre o caminho deles. Dos dois. E são três caminhos (ou destinos?): o meu e os deles. Caminhos que não se tocam, não se cruzam; apenas se adejam. Eu os vejo, eles me vêm – e só. Não nos cumprimentamos sei lá por quê – nem sequer nos olhamos diretamente. Nos olhos. Às vezes sou eu que desvio o olhar; às vezes quem desvia são eles. Seriam mundos e códigos diferentes? Ou simplesmente pressa – minha. Porque eles estão sempre ali, parados, frente a frente; ocupados cada um com suas coisas e objetivos, sobre os quais parecem não ter dúvidas; eu, com minhas coisas e minhas dúvidas, passo correndo, mas imobilizado pelos tentáculos do cotidiano. Para eles, devo ser (certamente sou!) apenas mais um; para mim, eles são sempre a putinha e o monge – apenas.

             De um lado, encostada ao muro, a putinha faz seu trottoir. Do outro, em frente mas numa posição perpendicular, o monge franciscano – com suas certezas -, faz pregações. Eles nem se olham. Ou, se se olham, não se veem; ignoram-se; respeitam-se. Cada um com sua existência, seu mundo. Eu os vejo de longe; observo-os apenas à distância. No instante em que passo por entre eles, já não posso (não devo!) observá-los para não ser indiscreto, invasivo. Não sei se conseguiria decifrá-los – e pra quê? Vejo-os apenas de relance, pelo canto dos olhos, disfarçando o quanto posso a minha presença… e a deles – como se não existíssemos; ou, como se eles fossem invisíveis, e eu, cego.

             Às vezes disfarço e olho rapidamente um e outro, como quem não quer olhar; como quem o faz tão somente por acaso; só porque estão no meu caminho. A bem dizer, não sei se devo, se posso cumprimentá-los. A quem cumprimentaria primeiro?, com que expressão?, com que mesura? Tampouco saberia o tom e o texto. Talvez um simples bom-dia, um boa-tarde, um boa-noite  formais e protocolares – sem nenhum sorriso, nenhuma expressividade, nada além do cumprimento asséptico. Aperto o passo e sigo hesitante, dividido, ligeiramente culpado.

             Não sei se conversam entre si. Ou se já conversaram alguma vez durante a noite, na madrugada. Tampouco conseguiria imaginar o que conversariam. Quase posso garantir que a putinha jamais tentaria seduzir o monge – seria despropositado, sobretudo, para quem compartilha o mesmo espaço, como os irmãos. Garanto também que o monge seria incapaz de se dar ao trabalho de converter a putinha; suas pregações são internas, implícitas, como se para convencer-se a si mesmo – o mundo (e também as pessoas do mundo) para ele parece ser um caso à parte; um erro que deve ser evitado, esquecido, jamais consertado.

             Porque não os encaro de frente, o semblante da putinha está sempre meio borrado, como numa pintura impressionista. Por isso, não consigo ver claramente seus traços nem calcular sua idade. Contudo, me parece jovem; mal saída da adolescência. Tenho a impressão de que está sempre com a mesma roupa, ou com roupa parecida. Um vestido simples, de tecido ordinário, pouco acima do joelho. É um vestido bege; discreto. Não tem nada de provocante, sensual. Um sapatinho baixo, sem salto. O ambiente a seu redor é meio sépia. Noto que faz um trottoir passivo, nunca se oferece aos clientes potenciais. Tem um tique: frequentemente a vejo com os braços cruzados sobre a cabeça. Então, seu corpo fica mais delgado; mais magro; ela parece ainda mais menina – é uma posição infantil.

           O monge a ignora: parece olhar sempre para o infinito; ou para dentro de si; das suas crenças internas – longe do ambiente mundano. Por isso, tem um ar meio alienígena/alienado. Ele também parece jovem. Tem um rosto expressionista. Permanece num lugar à contraluz. Seu corpo é frágil; delicado; angelical. Usa uma túnica marrom, bastante surrada, com um cordão preto e um crucifixo na ponta, pendente até abaixo do joelho. Suas sandálias são velhas. Às vezes, ele alimenta os pombos que aparecem na praça, bem ao lado da capela simples onde permanece diariamente. Os pombos o rodeiam, parecem querer comer na sua mão; e a cena evoca em mim a imagem de São Francisco, o de Assis.

             Nas poucas vezes em que os pude observar mais de perto, quando ainda, inseguro, tentava um cumprimento qualquer, vi que a putinha tem um pouco de malícia e um pouco de ingenuidade. A malícia tem qualquer coisa de ensaiada – talvez fosse exigência da profissão; já a ingenuidade é naturalmente espontânea, mas inoportuna; porque incompatível com o universo, o clima e os códigos do trottoir. Que exige insinuação em lugar de curiosidade; dissimulação em vez de candura; experiência, e não pureza. Penso que só a malícia poderá salvá-la; e à sua profissão; a ingenuidade deitará por terra seus planos… e o resto; o trottoir exige malícia… A vida também.

            O monge tem um ar meio acriançado, de santo barroco. Recebe mais a luz do sol. Seu rosto é mais explícito. Mas é um rosto comum. Um rosto de multidão. Estilizado; indecifrável. Cabelos e barba crespos, bem-aparados. A capela atrás de si tem um azul bem suave na cavidade gótica que emoldura a pequena porta de entrada. Ali, há um pequeno pinheiro, do lado esquerdo, visivelmente sufocado pela poluição da cidade grande que não o permite crescer, senão apenas lentamente. A expressão do monge é, sim, meio alienada – no sentido de afastada, distante… Não diria que é uma expressão ingênua; casta ou cândida; parece mais uma loucura; uma loucura santa, talvez.

           Tenho que passar diariamente entre eles. É meu caminho. Inevitável. Passo vacilante e pensando nessas coisas: no destino, na malícia, na ingenuidade, na loucura, na sorte e no azar de um e de outro – e de todos. Penso nas contradições. E me lembro que o Omar Pellegatta (com esse sobrenome de pintor renascentista), com sua vida profana (laica), foi pintar logo um “São Francisco”; e Ezio Monari (outro sobrenome a lembrar o renascentismo italiano), que teve vida sacra (chegou a ser padre!), foi pintar logo “A putinha”; agora reunidos, não sem contradição – e talvez nem por acaso -, frente a frente, cara a cara, na sala de casa, por onde passa meu caminho – todos os dias.

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Meu tio arrogante

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              TIVE poucos tios – naquele sentido de “tios legítimos”: irmãos e irmãs de nossos pais. Minha mãe é filha única e meu pai teve três irmãos, homens. De modo que tive apenas três tios e nenhuma tia. Não bastasse essa escassez, eles sempre foram muito distantes. Moravam em outras cidades, sempre longe. Meu pai e eles não tinham o hábito de se visitarem; senão apenas muito, muito raramente. E muito rapidamente. Eram tios bissextos, portanto. A visita deles era um acontecimento, como a visita dos cometas: raras e rápidas; nunca vi meu pai de papo com eles, sentados a uma mesa: as conversas eram monossilábicas – só o necessário, e olhe lá.

            Nenhum dos quatro irmãos era de muita prosa; minha avó paterna, mãe deles, também não jogava conversa fora; me lembro que gostava de dizer: “Quem muito fala dá bom-dia a cavalo”. Parecia que meu pai e seus irmãos – se é que conversaram algum dia -, já haviam conversado tudo; e não tinham mais nada a dizer um ao outro. Ou então, era como se fossem pessoas que viviam em mundos tão diferentes – com dia a dia, planos e problemas tão distintos, tão distantes – que já não tinham mais qualquer coisa em comum, nem o quê conversar entre si. Mas acho que era, enfim, o jeito deles; o temperamento fechado – nunca soube de qualquer conflito, nem mesmo uma rusga sequer, que os pudesse ter afastado tanto assim um do outro.

            Devo admitir, porém, que apesar do défice e da distância dos tios legítimos, tive muitos “tios postiços”. Tios-avôs e avós, e até primos e primas de meus pais (mais do lado da minha mãe), desempenharam esse papel. E o fizeram – pra ser justo – de maneira muito bem-feita; com sobras. Não posso reclamar. Nunca senti, portanto, falta de tios. Muito embora os “tios legítimos” fossem só três e estivessem tão distantes, os outros, sobretudo tios e tias da minha mãe (meus tios e tias-avós) sempre estiveram por perto. Conheci até os que viviam mais longe, geograficamente: umas tias-avós solteironas em Portugal e um tio-avô que era padre por lá, em Lamego, perto da cidade do Porto.

            Porém, meus três “tios legítimos”, irmãos do meu pai, sempre estiveram afastados de nós – por contingências da vida. E havia um que era o mais afastado. Era também o mais velho. Passou a viver em São Paulo desde moço e eu poucas vezes o vi. Creio que durante a vida toda o terei visto, que me lembre, não mais que uma dúzia de vezes. E que eu tenha conversado com ele; ou que ele tenha dirigido a palavra diretamente a mim, depois que me tornei adulto, foram, por aí, três ou quatro vezes – se tanto. Sempre achei estranha essa distância, esse alheamento: ele era filho da minha avó, filho do meu avô, irmão do meu pai, carregávamos o mesmo sobrenome, éramos tão próximos e, no entanto, tão distantes – pouco menos que estranhos.

               O que sei desse meu tio, soube pela minha mãe. Na época em que ele se separou da esposa – eu era ainda menino -, ouvia minha mãe dizer, com certo ar de censura, que o tio havia arranjado outra mulher. Que era mulherengo. Que ele tinha uma amante. (E o termo “amante”, naquele tempo, tinha um sentido carregado, desabonador; era um estigma, um anátema.) Mais de uma vez ouvi o desabafo da minha mãe: “Feio daquele jeito e com tanta mulher atrás dele”. Meu tio realmente não era bonito – mas não acho que chegasse a ser um homem feio. Nem sei se havia tanta mulher assim no pé dele. Acho que minha mãe dizia aquilo mais por reação de defesa; com aquele sentido de família, de proteção dos laços conjugais, da moral… essas coisas.

              Me lembro de ouvir dizerem, na família, que ele também era emproado; no sentido de melindroso, exigente. Para exemplificar os tais melindres, imagine!, diziam que não comia coxa de frango ao molho porque às vezes tinha que segurar o osso com as mãos e ele não gostava de sujá-las – tinha nojo. Daí a conclusão de que meu tio era mesmo enjoado. Minha mãe endossava essa impressão, mas apenas num tom de galhofa. “Era enjoado, mas nunca pôs uma gota de álcool na boca”, enfatizava ela. No final das contas, ressaltavam-lhe as qualidades, a inteligência, a queda para os negócios, mas não abriam mão de dizer que ele era sim cheio de empáfia, talvez um pouco ranzinza… e, claro, mulherengo.

              Faziam-lhe também outra “acusação” (inclusive minha mãe): acusavam-no de ser um tanto arrogante; que havia certa soberba no seu jeito e no seu modo de falar – certo pedantismo. Chegavam a dizer que era metido e orgulhoso. Minha mãe suavizava. Não fazia essas acusações de forma explícita: dizia apenas que ele tinha um certo “ar de superioridade”, o “nariz em pé”, que às vezes poderia parecer arrogância, prepotência. Acrescentavam ainda que era um homem frio; não acreditava em Deus. Cresci ouvindo essas coisas todas a respeito do meu tio; vinculava sua imagem a esses conceitos: ateu, amante, orgulhoso, bem-sucedido, arrogante… Isso tudo aguçava minha curiosidade de menino.

              Pouca coisa mais eu sei a seu respeito, para além dessas corriqueiras especulações de família. Nunca fui à casa dele; não sei como vivia. Não conheci seu cotidiano, suas posições políticas, suas ideias, visões de mundo, ambições… Sei apenas que foi fazer a vida na capital e distanciou-se completamente da família e dos amigos de então. Virou a página e começou vida nova, longe de tudo; inclusive dos pais. Soube também que no começo teve uma profissão modesta (parece-me que era alfaiate ou barbeiro, não sei ao certo), mas acabou se dando bem na vida como empresário, talvez médio empresário, fabricante de diversos componentes eletroeletrônicos como transformadores, plugues, tomadas, interruptores etc.

              Nas pouquíssimas vezes em que nos encontramos, depois que me tornei adulto, era natural que eu o observasse e tentasse flagrar nele algum vestígio daquele passado, daqueles traços de personalidade com que o distinguiam no meu tempo de infância, e que tanto me deixavam curioso. Numa das vezes em que o encontrei – nem me lembro onde -, eu já homem-feito, com profissão definida, percebi que ele me olhou de alto a baixo, pensativo (devia estar se lembrando do menino acabrunhado e franzino que eu era!), olhou para o lado, balançou positivamente a cabeça num jeito de aprovação e, quase sussurrando, disse apenas “É!…”. Em seguida, mudou a expressão do rosto e passou logo para outro assunto; alguma coisa prática do cotidiano.

             Notei que tinha de fato um jeito categórico de falar. Seco. Cortante. Parecia um homem decidido; desses homens pragmáticos ao extremo. Autossuficientes. Desses que não têm dúvidas nem se perdem em divagações. Era um jeitão que talvez passasse mesmo por soberba, arrogância. Seu modo de falar, com todos os “esses” e “erres” bem articulados, seria um tanto pernóstico, quem sabe? Me lembro que havia nele certa altivez, é verdade. Mas era algo meio que natural, sem afetação; nenhuma vanglória. Quis me parecer que ele simplesmente era daquele jeito. Não me pareceu jactancioso, esnobe – senão apenas um homem seguro de si; muito embora parecesse também um pouco inquieto; sempre com pressa.

            E um detalhe me chamou a atenção nas poucas (e rápidas) vezes em que nos encontramos – eu já adulto. Apesar do ar imponente e do tom imperativo na voz, no final de cada frase dele havia sempre um quase imperceptível “hã”, interrogativo; meio disfarçado, meio sussurrado. Dava a impressão de que fazia afirmações categóricas, não para impor arrogantemente suas “verdades” e opiniões, e sim para provocar e tirar a opinião do outro. Era um “hã?” desconfiado, de quem quer saber mais; incompatível, portanto, com a prepotência dos que acham que já sabem tudo. Eu percebia, então, que ele se mantinha sutilmente atento, disfarçadamente interessado na resposta do seu interlocutor.

             Logo após aquele discreto “hã?”, percebia também que ele ficava olhando de soslaio, de esguelha, como se desejasse flagrar, por trás da conversa, alguma outra “verdade”, além da sua; ou constatar quais teriam sido as impressões que suas palavras, sempre assertivas e contundentes, deixaram no outro – no caso, em mim. Era como se, desconfiado, quisesse certificar-se de que suas próprias afirmações tinham fundamento. Que elas estavam corretas. Que ele estava certo. Assim, apesar do tom categórico, do jeito aparentemente autoritário, não me convenci de que aquilo era arrogância, presunção ou mesmo prepotência.

                Pouco antes de morrer, já meio adoentado do coração, soube que telefonou a minha mãe e quis saber da vida de todo mundo: pediu notícia dos velhos amigos; das famílias conhecidas; da parentalha toda, e, naturalmente, dos sobrinhos. Até dos sobrinhos-netos ele quis saber. Morreu com oitenta e poucos anos sem que eu sequer tivesse notícia de sua morte – tamanha era a distância entre nós. Ficou-me a impressão de que se tratava de uma personalidade realmente singular; enfim, ficou-me a antiga curiosidade de menino…

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Aberta ou arreganhada?

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            … COMEÇA que o carro que me trouxe até aqui (meu próprio carro) é fabricado no Brasil mas não é brasileiro: produção de uma multinacional italiana. Nem que eu tivesse algum acesso tosco de nacionalismo – como estou tendo agora -, não teria como comprar um carro genuinamente nacional. Simplesmente porque não existe indústria automobilística brasileira. Até agora há pouco tinha um jipinho bacana, que foi inventado por um brasileiro e fabricado no Brasil, parece-me que no Ceará – o Troller. Mas já foi comprado pela Ford, multinacional norte-americana, que agora é sua fabricante e dona dos direitos sobre a marca que era (Já era!…) brasileira.

          Chego aqui onde estou hospedado, Ibis Hotel, tudo bem arrumadinho, quartinho pequeno sem muito luxo, mas suficiente; banheiro apertadinho, daqueles que você senta no vaso e fica com o nariz quase encostado na parede da frente. E quando vai tomar banho fica batendo o corpo na torneira do chuveiro: ora empurrando a alavanca pra direita e tomando água fria na cabeça, ora levando-a para a esquerda e pulando com a água quente no lombo, ora desligando o chuveiro sem querer e achando que isso só acontece no Brasil. Mas me lembro que o hotel não é brasileiro – pertence à Accor, uma empresa multinacional francesa.

            Abro a janela do Ibis e eis que vejo à minha frente, do outro lado da avenida, uma loja enorme do Walmart, com aquele letreiro WALMART azul em fundo branco, ou vice-versa, e aquela estrelinha amarela e estilizada do lado – que mais parece uma margarida. Daí lembro que o supermercado é uma multinacional norte-americana. Penso então que poderia comprar no Pão de Açúcar, que é um supermercado genuinamente brasileiro, com aquela logomarca dos dois morros cariocas, mas me lembro imediatamente que ele foi vendido para o Grupo Casino da França. Sobrou o Carrefour: mas é também um supermercado dos franceses.

            Se eu esticar o pescoço pela janela do Ibis consigo ver, do outro lado da avenida, ao pé de um túnel, a ponta iluminada daquele eme amarelo em fundo vermelho do McDonald’s; então lembro do McChiken com aquelas pontinhas de alface lambuzadas de maionese (Hellmann’s alemã) saindo pra fora do pão, e o pacotinho de batata frita, uma Coca-Cola bem gelada, e me dá água na boca. Mas daí lembro que se trata de uma rede de fast food estrangeira, outra multinacional norte-americana, que saiu lá da Califórnia pra empanturrar o mundo inteiro com seus lanches irresistíveis – exportando delícias e obesidade.

           Súbito, vejo minha camisa tipo polo, azul-marinho, estendida sobre a cama e lembro que ela foi inventada e comercializada pelo francês René Lacoste; e que depois os americanos criaram a camisa Ralph Lauren com o mesmo design e ambos, americanos e franceses, infestaram o mundo com essas camisas iguaizinhas à minha. Uma camisa que antes eu usava por dentro da calça, mas depois que a barriguinha cresceu passei a adotar aquele lance casual, sabe?, da calça jeans (ops!, outra invenção norte-americana) com a camisa polo por fora e um sapatinho mocassin básico – só falta mesmo aquela blusa de lã estendida nas costas pra ficar igual ao tiozinho da Sukita, lembra?

             Essa camisa polo é exatamente a que vou vestir daqui a pouco, logo depois do meu banho apertado no Ibis francês; pra chamar um táxi Voyage da Volkswagen alemã; comer um lanche bem rapidinho no americano McDonald’s do shopping; assistir ao filme A forma da água, mais uma produção norte-americana, vencedor do Oscar 2018; e depois tomar um Honda City japonês por meio do aplicativo Uber, que é outra multinacional estadunidense; consultar meu novo modelo Ipod da americana Apple no trajeto; pagar a corrida com o Visa norte-americano, numa maquininha espanhola Getnet, e finalmente descansar no econômico Ibis francês – tudo isso sem sair do Brasil.

            E ainda bem que eu não tô resfriado, nem com aquela merda daquela labirintite que de vez em quando ameaça me tirar do prumo e me obriga a tomar o japonês Dramin B6, porque senão teria que passar na farmácia e, aí sim, eu ia ver o que é bom pra tosse: as caixinhas da Johnson & Johnson, Pfizer, Merck e Shering norte-americanas; da Bayer e Boehringer alemãs; Glaxo e AstraZeneca britânicas; Roche e Novartis suíças; Sanofi-Aventis e Servier francesas; Takeda japonesa; Valeant canadense e por aí vai… Só sobram mesmo as Medleys e as Achés da vida, com seus genéricos; mas eu nem sei se essas indústrias ainda continuam totalmente brasileiras, ou se, como o jipinho da Troller, já foram parar também nas mãos (ou nos bolsos) dos gringos.

              Então, ligo a TV do hotel – uma Samsung sul-coreana -, e me deito na cama do Ibis francês, fico olhando pro teto e pensando no rio de dinheiro que essa negoceira toda manda lá pra fora – para os ricos dos países ricos -, na forma de lucros e dividendos. Fico lembrando então (como não lembrar?) daquele livro do uruguaio Eduardo Galeano: As veias abertas da América Latina. E lembro também daquela brasileirada que vai e volta da Europa e dos Estados Unidos deslumbrada; contando as maravilhas de lá; dizendo que “Lá, sim, as coisas funcionam”. “Lá é tudo de bom!”, dizem. E sempre acabam concluindo suas histórias e “análises” com aquele indefectível: “Primeiro mundo é outra coisa, né?”.

       Procuro não ficar deprê e tento me conformar com essa “invasão” e esse vampiresco “sangramento” da nossa economia pensando que, pelo menos, essas empresas estrangeiras vêm pra cá e geram muitos empregos; deixam aqui também o rico dinheirinho dos impostos. Mas logo me lembro que a nossa mão de obra não é das mais bem remuneradas do pedaço; e que os impostos sempre acabam escapulindo pra fora dos nossos cofres públicos por meio daquelas manjadas manobras jurídicas, dos incentivos e das anistias fiscais; então volto a pensar no Veias Abertas do Eduardo Galeano… Como não pensar?

        Vejo na televisão que o maluco do Trump – que é maluco mas não é burro -, sobretaxou o aço pra “fechar” e proteger a economia norte-americana; ferrando com o Brasil. Em seguida, aparece um daqueles economistas brasileiros com cara de nerd, desses protoliberais com cara de quem engoliu pilhas e pilhas de livros, falando em câmbio e mercado livre; dizendo que a economia brasileira precisa se abrir para o mercado mundial; que essa abertura econômica é o único caminho para a nossa modernização; que nossa economia tem que permanecer inteiramente aberta à globalização econômica e coisa e tal.

             Meio encabulado, meio deprê e meio revoltado, me pergunto: Abrir ainda mais a economia brasileira?, como?, no quê?, em que setor? Abrir, tudo bem. Creio que uma economia não consegue sobreviver fechada para o mundo, mas será que precisa arreganhar? Resolvo deixar esse assunto pra lá. Desligo a televisão sul-coreana e abro meu laptop Acer de Taiwan, dou uma passeada pelo Google norte-americano, e alguma coisa me diz que o melhor que tenho a fazer é tomar um Rivotril da Roche suíça e dormir bem relaxado – no Ibis francês.

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Pum

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         OBVIAMENTE que não tenho nada a ver com o ator George Clooney; não tenho o charme, nem a beleza nem o talento do cinquentão (ou sessentão, não sei!) por quem as mulheres (e não apenas as outoniças como ele) suspiram apaixonadamente. Confesso que o conheço como ator apenas pelo filme Os descendentes; mas sei que ele fez muito sucesso com outros filmes e telesséries – e ainda vou achar um tempinho pra ver o Onze homens e um segredo, de 2001, que parece ser o longa-metragem que o projetou definitivamente no mundo do cinema; sei também que é ganhador de Oscar como ator coadjuvante – se o Google não mentiu.

          Mas, como eu ia dizendo, não tenho nada a ver com o George Clooney. Ele é bonito, eu não sou; ele é charmoso, eu nunca fui; ele é talentoso, eu sou um fracasso; ele é famoso, eu sou apenas mais um na fila do pão… Todavia, apesar dessas diferenças todas, dessa distância, pelo menos uma coisa a gente tem em comum. E eu nem sei como dizê-la sem parecer, digamos assim, vulgar; ele o disse com muito charme. É que o George Clooney, numa entrevista, revelou que a coisa que ele acha mais engraçada no mundo (e eu também), que mais o diverte (e a mim também), é peido, histórias e piadas de peido. Isso mesmo que você leu: peido, pum, flatos…

           E o pior (ou melhor) é que uma das atrizes que já atuou com ele, justamente no filme a que eu assisti, Os descendentes, a bela Shailene Woodley, confirmou que George Clooney de fato se divertia muito no set de filmagem com as piadas e histórias de peido; e tinha sempre uma pra contar. Não sei (a atriz não revelou) se ele se divertia apenas com as piadas ou se partia também para a prática; isso só quem pode dizer é quem frequentou o set; ou o próprio George Clooney, que tem charme de sobra pra tratar de um assunto assim tão insignificante e chulo sem arranhar sua imagem de galã – na sociedade do espetáculo, diria Guy Debord, as celebridades podem tudo.

          Fato é que, não apenas pelo talento do ator, acabei ficando fã do moço também por esse seu lado picaresco. Que demonstra o quanto as celebridades e os mitos são feitos de carne e osso e acabam tendo as mesmas frivolidades dos plebeus. Confesso que também não resisto a uma piada de pum. Tive um primo (primo da minha mãe, na verdade), o Beguinha, que além de músico genial, era um exímio contador de piadas. E sempre que tinha uma nova sobre peido, ele corria ao telefone pra contar pra mim – dizia que nunca vira uma pessoa rir tanto: por mais que a piada fosse sem graça. Eu eu ria mesmo… Não sei por que, mas é uma das coisas que eu acho mais engraçada, e que mais me fazem rir.

         Tinha um professor antigo da Unesp, que dava aula de direito civil, o bem-humorado e saudoso professor Barreto Campello, família tradicional de Pernambuco – família quatrocentona mesmo -, que sabia desse meu, vá lá!, “gosto”, um tanto duvidoso, é verdade. Alguém lhe contou. Como ele era desses juristas das antigas, erudito, filho de um grande catedrático da Universidade do Recife, era chegado num latinório. E sempre que me encontrava na faculdade, ou em qualquer lugar – até em solenidade de formatura -, ele já vinha pro meu lado com a definição de peido na ponta da língua, em latim: Flatus ventus malignus est, facet pum et pum, pum, pum.

           O incrível é que ele contava sempre essa mesma piada e eu sempre rachava o bico de rir, toda vez. Ela ficava muito engraçada no sotaque pernambucano dele. Desconfio que o professor me repetia essa definição – com cara de quem tá fazendo coisa de moleque, apesar dos seus setenta anos -, apenas pra ouvir minha risada. E eu ria – à bandeiras despregadas (como dizem os portugueses). E rio até hoje. Sempre que a oportunidade se apresenta eu passo pra frente a definição clássica do professor Barreto Campello – figura tradicional na faculdade de direito quando o campus ainda era lá no centro de Franca, no antigo prédio (de mais de cem anos) do Colégio Nossa Senhora de Lourdes – bons tempos!

         Mas, voltando ao relevantíssimo tema destas linhas, eis que abro ontem um grande jornal de São Paulo e vejo lá um de seus mais badalados colunistas contando uma história do quê? De peido. Uma história que ele leu num livro publicado nos States. O sujeito, contou o colunista, era um ator de muito sucesso – como o George Clooney -, e por ocasião de sua apresentação numa pequena cidade dos Estados Unidos, durante a peça, foi agachar-se no palco e soltou um dos “mais altos peidos do mundo” – diz o jornalista. Envergonhado, o ator nunca mais voltou à cidade. Todavia, depois de muitos anos, resolveu voltar e hospedar-se num hotelzinho, usando nome falso – pra não ser reconhecido nem lembrado.

           A recepcionista, muito atenciosa, pergunta se ele já conhecia a cidade. Ele diz que sim. Diz que já havia estado ali há muitos anos atrás, mas que, naquela ocasião, fez uma coisa tão feia, tão vergonhosa, que nunca mais quis voltar. A moça, com toda polidez, diz que não havia razão para tanto. Que depois desse tempo todo ele não deveria se incomodar. E perguntou quando é que se dera o tal fato vergonhoso. Ele disse que já nem se lembrava mais – fazia tanto tempo! Ao que a jovem atendente perguntou: “Foi antes ou depois do grande peido daquele ator famoso?”. Dá pra imaginar como é que eu acabei de ler a coluna do jornalista, né?

          Vou confidenciar que eu próprio, certa vez, protagonizei uma cena tão embaraçosa quanto. E não é piada não; aconteceu mesmo. Eu era coroinha de padre e estava ajudando a missa num domingo de manhã – a igreja cheia, lotada. Estávamos postados diante do altar: eu e o outro coroinha mais atrás, o sacristão e o padre mais à frente. Súbito, veio aquela vontade e acabei calculando mal o calibre ventoso. Saiu alto pra caramba. Não foi o maior peido do mundo, mas o sacristão virou-se pra mim espantado, com olhos arregalados de quem não estava acreditando; como se me perguntasse Que que cê tá fazendo, moleque?! Creio que as pessoas das primeiras filas tenham escutado.

             Entrei em desespero – vexame na certa; e logo ali naquele momento solene, diante do altar sagrado, na frente de todo mundo. O sacristão, que era mais experiente, não precisava ter dado aquela bandeira toda. Porque o outro coroinha e o padre seguraram a barra; não perceberam, não acreditaram, ou fizeram de conta que não ouviram nada. (Imagino que o padre também não iria interromper a missa por causa de uma coisa dessas!) Pra disfarçar, esfreguei o sapato no mármore do chão tentando produzir um ruído semelhante. Que nada. Aquele chão liso não produzia ruído nenhum. Mirei a porta da sacristia e saí voando; nunca mais voltei para o meu ofício de coroinha – pode ser que tenha terminado ali, com aquele simples pum, uma promissora carreira eclesiástica.

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O boteco e a porca-carunchinha

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          ELE chega quase arrastando uma perna, jogando o corpo para um lado e para o outro, como uma embarcação no balanço das ondas – tem muita dificuldade pra andar; vai bem devagarinho. É obeso e está ofegante. Tem setenta anos (me disse depois). Quando se aproxima e me dá um bom-dia meio mascado, vejo que tem os olhos azuis e é vesgo: um olho se fixa em mim, o outro gira dentro da órbita como se procurasse um foco onde se firmar. Entra no boteco e pede um rabo-de-galo: cachaça com vermute; pede outro, paga e sai. Noto que está ligeiramente embriagado.

           Ao sair do bar, vira-se pra mim e diz que vai embora pra casa tomar as cervejas que deixou no freezer – três ou quatro garrafas de Brahma. Prefere tomar em casa porque não gosta de ficar em boteco. Pressinto que vai espinafrar os botecos. Imagino que despejará um daqueles discursos moralistas contra os botequeiros. Assinto com ligeiro movimento de cabeça, mas fico calado. Ele me olha meio por cima, meio desajeitado, com dificuldade para equilibrar o peso do corpo. Tem dificuldade também para fixar os olhos na minha direção. Passa o dorso da mão calejada por sobre os lábios e insiste em dizer que não fica em boteco por dinheiro nenhum.

             Sem que eu pergunte por quê, ele dispara a falar, ofegando bastante e passando as mãos insistentemente pelo rosto. Me conta que quando era menino, com oito anos de idade, presenciou a morte de um homem dentro de um boteco, em Brodowsky, e nunca  mais pôde esquecer aquela cena porque o homem caiu no seu colo, esfaqueado por outro, e morreu instantaneamente, com os olhos arregalados, deixando-o coberto de sangue. Fala pausadamente, suando muito e passando a mão grossa, em movimentos circulares, pelo rosto bexigoso e avermelhado – tem o olho bom pregado em mim e o vesgo buscando o foco – como se buscasse a cena do passado.

            Afirma que acabou presenciando aquele crime no boteco por causa de uma porca-carunchinha que o pai, ele e os irmãos iriam matar naquele dia da tragédia. Me pergunta se eu sei qual é a porca-carunchinha. Respondo que não. Ele me explica que é uma porca redondinha (já imaginava!), tem bastante banha, mas tem muita carne também. É bem mansa e criadeira, com pouco pelo – muito boa pra se ter em casa; sua família sempre teve dessa porca no quintal: pra comer e pra encher as latas de banha onde se conservava a própria carne dela, porque naquele tempo eles não tinham geladeira em casa; não tinha fartura nem conforto – mas era um tempo bom.

            Insiste no caso da porca. Diz que estava tudo certo pra matá-la naquele dia. Era um dia de sábado. (Esclarece que quando tinha matança de porco em casa parecia uma festa; até a molecada participava ajudando a raspar o couro, lavar as tripas – que depois viravam linguiça -, recolher os miúdos etc.) E naquele sábado levantaram todos muito cedinho e bem-dispostos, estava tudo preparado. Mas a porca amanheceu morta. Como não sabiam de quê ela morreu, não puderam comê-la; fizeram sabão. Durante o retalhamento do animal, um de seus irmãos acertou-lhe a faca no dedo, bem na base do polegar direito (me mostrou a cicatriz). Diz que saiu muito sangue e que a mãe ficou bastante aflita, desesperada.

         Alguém lembrou de pôr açúcar no corte; fizeram então um emplastro de açúcar cristal, amarraram um pano bem apertado pra estancar o sangue e foram correndo até a farmácia, que ficava no canto da praça. O farmacêutico, que era considerado quase um médico na cidade, limpou bem o local, deu um par de pontos, e fez o curativo com algodão e esparadrapo. Em seguida, pediu que o pai o trouxesse de novo dali a dois dias, pra avaliar melhor o ferimento e a cicatrização; mas acreditava que não seria nada grave, não era caso de mandar pra Ribeirão Preto.

          Na volta pra casa, pararam no tal boteco do crime. O pai sentou-se numa cadeira e ele na outra, ao lado. Não costumava acompanhar o pai na rua. Bem em frente à mesa deles, havia um homem bêbado que reclamava do pastel vendido pelo dono do bar. O pastel, segundo o freguês, não tinha carne nenhuma – era só massa, cheia de vento. Por isso, não iria pagar nada. O dono do bar exigia o pagamento, dizendo que vendia o pastel do jeito que o havia comprado – não era ele quem fazia os pastéis. A discussão exasperou-se e nenhum dos dois arredava pé.

           Lembra que a discussão foi meio ríspida, mas durou pouco. Foi uma coisa muito rápida. Ainda menino, mal havia completado oito anos – tinha acabado de entrar na escola -, ele diz que nem percebeu o que se passava à sua volta. Acabara de chegar ali com o pai. Ninguém interveio naquela zanga porque ninguém tava entendendo nada. Não dava pra saber quem tinha razão. Era um bate-boca deles; parecia uma coisa à toa. De repente, sem essa nem aquela, o homem bêbado sacou de uma peixeira e a enterrou inteirinha, de baixo pra cima, na barriga do dono do bar.

          Este, conta ele, deu apenas um urro abafado e caiu de joelhos, com os olhos muito abertos. Se debruçou no seu colo e morreu na hora. Lembra-se de tudo como se fosse hoje; ainda vê seus braços e pernas ensanguentados e a poça de sangue no chão do bar. Me diz que aquilo nunca mais saiu da sua cabeça – que nem um filme. Desde então jamais frequentou um boteco, senão apenas de passagem, muito rapidamente, só pra tomar uma dose de pinga ou um rabo-de-galo. As cervejas ele compra no supermercado, põe pra gelar, e deixa pra tomar em casa – mais sossegado. Diz que não consegue ficar tranquilo num ambiente de bar; sempre parece que vai acontecer alguma desgraça.

          Sem dizer uma palavra sequer, me mostro impressionado com o fato. Ele então pergunta meu nome. Eu digo. Ele diz que se chama Hermínio. Diz também que ficou viúvo há três anos e que agora reside com a filha. Naquele domingo, vai fazer uma carne de panela com tomate e bastante azeite, pra comer com arroz branco – seu prato preferido. Depois das seis horas da tarde não comerá mais nada, porque no dia seguinte deve passar por uma endoscopia que o doutor pediu. Não gosta de médico, nem de remédio. Bate na barriga um tanto avolumada e, a contragosto, diz que já fez um tratamento malsucedido, que não resolveu nada – talvez tenha sido malfeito, ele admite.

             Mas agora, esclarece, a filha deu em pegar no pé dele e ele vai fazer tudo bem direitinho – do jeito que o médico mandar. Porque saúde é tudo. Despede-se de mim com um até-logo quase ininteligível e sai meio trôpego, escorando ligeiramente na parede – um pouco por causa da bebida, outro pouco por causa do problema que tem numa das pernas, excessivamente arqueada; além da obesidade que torna sua marcha bastante difícil, quase a ponto de obrigá-lo a arrastar os pés no chão.

            Quando está no meio da rua, ele para, volta-se e se lembra de dizer que nunca mais matou nenhuma porca-carunchinha; nem porco nenhum. Não resisto e pergunto por quê. Ele acena negativamente com as mãos e com a cabeça. Nunca mais. Perdeu a vontade, diz. Esclarece que não sabe bem o porquê. Assegura, no entanto, que uma coisa nada tinha a ver com a outra, e que deve ser bobagem da cabeça dele. Mas depois daquele dia no boteco de Brodowsky perdeu o gosto. Dá mais dois passos na direção da outra calçada, para de novo, reequilibra-se, volta lentamente o corpo pesado e diz que na verdade achava que tinha perdido era a coragem, a firmeza…

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