Baixo esplendor

LANÇADO agora em abril de 2021 pela Companhia das Letras, o romance policial de Marçal Aquino, Baixo esplendor, é uma obra que vale a pena ser lida – e não somente pelos amantes do gênero policial. Ela marca o retorno – aliás, em alto estilo – de um dos mais importantes escritores brasileiros à obra de ficção, depois de 16 anos de jejum.

O enredo – com perdão do clichê – é de fato eletrizante; da primeira à última página. Trata-se da história de um policial civil que se infiltra numa quadrilha especializada em roubo de carga, tendo como missão mapear e desbaratar o bando; só que ele acaba se apaixonando pela irmã do chefe da quadrilha.

Tudo se passa nos anos de 1973/74, tendo como pano de fundo um dos períodos mais difíceis da ditadura militar. O romance tem um final de dar vertigem, que, engenhosamente, convida o leitor a participar do fecho da história.

Não é uma história convencional. Aborda o submundo do crime de uma maneira – não sei se seria esse o termo correto! – “genuinamente humana”, posto que mexe em questões fundamentais como amizade, família, fidelidade, amor e erotismo – e sem cair na armadilha da banalidade ou no suspense sensacionalista.

Há uma dose muito bem calibrada de realismo no romance. O erotismo, por exemplo, está longe de ser vulgar ou sexista – é tratado como deve ser: uma emoção humana natural. A linguagem é apropriada, trata de crime, traição, amor e erotismo como quem está mesmo disposto a espreitar a alma humana. Os protagonistas da história, diz o autor a certa altura, eram “dois sujos que se amavam com pureza”.

A fluidez, a estrutura, os diálogos bem construídos e enxutos, e a riqueza dos personagens, constituem já uma marca registrada do autor de Eu receberia as piores notícias dos seus lindos lábios (Companhia das Letras). Não é à toa que Marçal Aquino por vezes é considerado um legítimo sucessor de Rubem Fonseca – esse gigante do romance policial na literatura brasileira.

Enfim, nada é preciso dizer sobre a indiscutível qualidade literária de Baixo esplendor. Que acabou de sair quentinho do forno – lançado em 9 de abril último. Sério candidato ao Jabuti deste ano. É leitura para quem sabe que o crime, até mesmo se o quisermos combater, precisa ser encarado como algo “demasiadamente humano” (Nietzsche); e nada do que é humano nos deveria ser indiferente (Terêncio). Indicadíssimo!

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Um sonho real

faz tempo, meu amigo Roberto Abdul me convidou, gentilmente, para participar de um debate sobre pena de morte na sua cidade. Aceitei o convite e fui com prazer. A sala estava cheia e a mesa fora elegantemente presidida por um jornalista famoso, que também é da região.

A atividade fazia parte de uma semana cultural de muita tradição na cidade, promovida por uma associação igualmente tradicional, a AIA – Associação Itápolis Acadêmica, que existe há não sei quantas décadas.

O caso (prosaico) que vou contar talvez se tenha dado num mês de julho, em meados dos anos 90. Apelo aqui para a memória do Roberto, que é uma memória de fazer inveja a qualquer computador – ele saberá dizer dia, mês e ano desse debate, naquela edição da AIA em que tive o privilégio de participar.

Antes do debate, como parte também das atividades culturais da semana, exibiram na praça da cidade, a céu aberto, o filme (autobiográfico?) “Cinema Paradiso”, do italiano Giuseppe Tornatore.

Na praça, havia um grande telão e muitas cadeiras dispostas diante dessa tela improvisada, para uso da plateia, tal como na cena de “Cinema Paradiso”, em que o personagem Alfredo projetava os filmes ao ar livre, usando a parede de uma casa, para os moradores de uma pequena cidade da Sicília – nos anos da guerra.

E agora, estávamos ali reproduzindo exatamente a cena do filme: o povo da pequena cidade siciliana na praça deles, vendo a fita projetada na parede de uma casa, e nós, vendo a mesma fita, também na nossa praça, como se fôssemos uma extensão daquela pequena cidade do sul da Itália, numa fusão inspiradíssima – tanto por parte do Tornatore quanto dos idealizadores da AIA – entre ficção e realidade; ou, como se diz, a arte imitando a vida e a vida imitando a arte.

Fiquei por ali assistindo ao filme (a que eu já havia assistido) até chegar a hora do debate – que atrasou (ou atrasaram) um pouco.

Lá pelas tantas, quase na metade do filme, a lua cheia inventou de sair por detrás do telão e intrometeu-se no cenário. Espetáculo à parte. Poesia. Parece que foi de propósito. Naquela noite, encerradas as atividades, voltei para casa repassando na cabeça os flashs do debate, do jantar num restaurante, do filme na praça e, claro, daquela lua intrometida. Inesquecível!

Tanto que outro dia sonhei com tudo isso. Estava numa praça, vendo Cinema Paradiso, quando a lua, inesperadamente, deu as caras no céu. Me vi também num restaurante acolhedor com alguns amigos e acordei fazendo um debate, numa simbiose meio esfumaçada entre ficção, realidade e sonho.

Acordo e vejo que, de fato, estava sonhando; mas era tudo realidade. Se a vida imita a arte e vice-versa, vejo que o sonho pode imitar as duas – e por que a vida e a arte também não poderiam, por sua vez, imitar o sonho? É exatamente essa a impressão que me ficou daquele dia: vida, ficção, realidade e sonho por vezes se fundem, se confundem.

Não lembro exatamente o que eu falava no debate sonhado, talvez fosse – como era bem merecido que fosse – um caloroso agradecimento ao Roberto e à AIA, que me proporcionaram aquele coquetel de arte e cultura, temperado com algum lirismo da lua; coisas aparentemente prosaicas, mas que certamente frequentarão por muito tempo ainda a minha memória, e, pelo visto, também os meus sonhos.

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A voz suprema do blues, o filme

NÃO é à toa que o filme A voz suprema do blues, cujo título original é Ma Rainey’s Black Bottom, direção de George Wolfe, concorre ao Oscar 2021 nas modalidades de melhor ator, melhor atriz, figurino e maquiagem. E, embora não esteja formalmente indicado para a estatueta de melhor filme do ano, acabou recebendo cinco ou seis votos nesse sentido.

A história é a adaptação de uma peça teatral e se passa no ano de 1927, em Chicago. Narra os tumultuados acontecimentos do dia em que cantora negra Ma Rainey (1886-1939), irreverente (e imponente) pioneira do blues, foi a Chicago com sua banda para gravar um disco solicitado pela indústria fonográfica da época.

Durante a gravação, Ma Rainey – vivida no filme por Viola Davis -, consciente da opressão que os negros sofriam sob as leis de Jim Crow, fez todas as exigências possíveis, e alguns caprichos pessoais, para cantar no território da indústria da música, então controlado pelos brancos supremacistas, numa atitude claramente política de quem pretendia resistir e até afrontar o racismo – e isso, lembremos, muito antes das lutas de Malcom X e Martin Luther King Jr.

As famosas (e famigeradas) leis de Jim Crow (ou Jim Corvo), como sabemos, eram as leis estaduais que estabeleciam a discriminação e a segregação racial nos Estados Unidos; vigeram até a batalha pelos direitos civis nos anos de 1960.

Além de se impor estrondosamente contra o racismo, o filme deixa ver uma Ma Rainey que já levantava, ali nos anos 20, as bandeiras do feminismo (pois era uma mulher se afirmando no campo da indústria cultural machista) e também da liberdade sexual – Ma Rainey tinha uma namorada. O filme sugere que a pioneira do blues foi também uma pioneira do feminismo e da luta pela diversidade sexual.

O encontro com o talentoso trompetista Levee, também negro – encarnado por Chadwich Boseman – é tumultuado. Além de querer impor seu estilo e seus arranjos criativos, tocando circunstancialmente na banda de Ma Rainey, o irrequieto Levee inventa de dar em cima da namorada da cantora; não deu certo, viu.

Esse foi o último trabalho de Chadwich Boseman, que morreria de câncer alguns meses depois, em 2020, aos 44 anos de idade. Ele está brilhante como o atormentado trompetista do filme. Indicado para o Oscar de melhor ator, é muito provável que neste domingo (25) Boseman se transforme no primeiro ator negro a levar um Oscar póstumo – e, diga-se, merecidamente.

A atriz e cantora Viola Davis não deixa por menos. No papel da audaciosa “mãe do blues”, arrasou. Se vencer, a estatueta estará, como se diz, em boas mãos. O mesmo se diga quanto à premiação de melhor figurino de época e maquiagem – simplesmente impressionantes. Como se vê, há sobradas razões para ver A voz suprema do blues, disponível na Netflix. Ah, ia me esquecendo: imperdível também o documentário dos bastidores do filme, no final.

Nestes tempos, assim, tão conturbados. De ameaça à democracia e à diversidade em geral – de gênero, raça e sexo -, tempos de resistência, é fundamental o papel libertador da arte e da cultura. Creio que esse filme, de alguma maneira, resgata a importância política da rebeldia e da insubmissão.

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Paixões mitológicas

POR encomenda feita pelo rei de Espanha Felipe II, o grande pintor renascentista, Ticiano, maior expoente da Escola Veneziana, pintou e enviou ao monarca um conjunto de seis quadros, executados ao longo de dez anos, entre 1552 e 1562, aos quais ele, Ticiano, deu o nome de “Poesias” – o pintor considerava que suas pinturas eram verdadeiras “poesias visuais”.

Esses quadros, baseados na mitologia clássica, compunham, segundo o próprio Ticiano, um todo harmônico, e, portanto, deveriam ser apreciados conjuntamente – ao mesmo tempo. Os críticos de arte consideram esse conjunto uma das obras mais representativas do renascentismo italiano, e, por conseguinte, de toda a história da pintura ocidental.

A obra de Ticiano é identificada também pela presença de figuras eróticas, mulheres nuas ou seminuas, exibindo as famosas formas arredondadas semelhantes aos nus de Rubens. Por essa razão, nos conta o escritor peruano Mario Vargas Llosa, os seis quadros que Ticiano mandou a Felipe II no século XVI, onde Dânae e Vênus aparecem como vieram ao mundo (ou ao limbo), ficaram muito tempo encobertos por um pano, num dos aposentos da corte, para, imaginem!, não ruborizar as damas da nobreza – que passavam correndo pelas obras.

Pois bem, realizando a vontade de Ticiano – e talvez também a de Felipe II – o Museu do Prado está agora fazendo, de 2 de março a 24 de julho deste ano, uma exposição que reúne as seis obras do pintor renascentista, para serem, finalmente, apreciadas como um “todo orgânico”, coisa que não acontecia desde o século XVI. A curadoria do museu, juntando a poesia de Ticiano  e a inspiração na mitologia clássica, deu à exposição o nome de “Paixões mitológicas”.

Assim, quem tem o privilégio de estar em Madri, tomando os cuidados necessários que a pandemia exige, pode dar uma corridinha ao Museu do Prado e ver de perto os quadros de Ticiano, que não se reuniam há mais ou menos 4 séculos. Coisa rara! Enquanto isso, nestes tempos de confinamento, em que não podemos sequer sair de casa, resta-nos a internet.

A tão aguardada exposição madrilenha, “Paixões Mitológicas”, pode ser apreciada pelo site http://www.dasartes.com.br/materia/ticiano, onde há também uma resenha das obras expostas. Bem sei que pela internet não é a mesma coisa – mas é alguma coisa.

Nunca é demais lembrar que a arte é uma maneira de enxergar a vida e de nos enxergar nela. E talvez seja até uma forma criativa de superar os limites da vida. Pois a arte é perene, eterna. Ilumina e imortaliza, o que não é pouca coisa e talvez seja muito pertinente nestes tempos escuros de sombra, pandemia e morte.

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Não e não

POR incrível que pareça, uma das palavras mais usadas, ouvidas, faladas, escritas e postadas no Brasil e no mundo hoje não consta dos nossos dicionários. Como não a encontrei nem no Aurélio nem no Houaiss nem no Caldas Aulete, fui procurá-la no VOLP (Vocabulário Ortográfico da Língua Portuguesa) – também não conta.

É a palavra “negacionismo”. Tive que apelar para a Wikipedia: do francês, “négationnisme é a escolha de negar a realidade como forma de escapar a uma verdade desconfortável”. Trata-se, portanto, de um estrangeirismo que a nossa língua falada incorporou mas o nosso vernáculo ainda não dicionarizou – aguardemos para breve!

O engraçado é que encontrei nos dicionários a palavra “negacioanista”, mas não com o sentido em que é empregada hoje – como quem nega a realidade. E sim como “aquele que demonstra negativismo” (Houaiss). Ou seja: a pessoa “pra baixo”, pessimista, derrotista.

Enquanto os dicionários da língua portuguesa, publicados no Brasil, não se encarregam de definir o que é “negacionismo”, faço uma sugestão: “É a atitude doentia e pirracenta dos que dizem NÃO e NÃO em face das evidências factuais, históricas e científicas”. Quer dizer, é uma caturrice doentia. Não tem definição nos dicionários nem remédio que a cure.

O sintoma inequívoco dessa doença é dizer “não e não”, e pronto! Veja como são abundantes os exemplos.

NÃO é grave a doença causada pelo novo coronavírus e portanto NÃO devemos nos preocupar com ela, porque é uma simples “gripezinha”.

NÃO é preciso sair correndo para comprar vacina no exterior porque NÃO existe vacina com eficácia comprovada e algumas delas podem até transformar a pessoa num “jacaré”.

NÃO é o caso de usar máscaras para evitar a contaminação pelo vírus, pois isso NÃO é atitude de macho – é coisa de “maricas”.

NÃO vamos fazer isolamento, distanciamento social nem muito menos lockdown, porque isso NÃO funciona e pode até aumentar as contaminações aglomerando as pessoas em casa.

NÃO vamos ouvir a OMS nem a Ciência porque essa turma NÃO faz pesquisa e só faz balbúrdia fumando maconha na universidade.

NÃO vamos pagar o auxílio emergencial porque o Estado NÃO tem dinheiro e esse auxílio transforma a pessoa num vagabundo, sem vontade de trabalhar.

NÃO está morrendo tanta gente assim por covid-19, pois NÃO estão fazendo autópsia e todo mundo que morre os médicos põem na conta do coronavírus.

NÃO há o que fazer contra a pandemia e NÃO vai morrer gente saudável, só velho e “quem tiver que morrer”.

NÃO existe crise e essa pandemia NÃO é um fato da natureza – foi “fabricada” pelos comunistas que querem dominar a economia mundial.

Finalmente, NÃO devemos continuar com esse mimimi todo porque a covid-19 é uma doença curável e NÃO matará ninguém se fizermos o “tratamento precoce” – NÃO esqueçam da cloroquina, talkey?

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Semana Santa

A paixão de cristo - Desenho de lucy_chan - Gartic

ERA no tempo da Páscoa. Eu não entendia por que falavam em “Paixão de Cristo” se naquela semana celebrava-se, na verdade, o martírio de Cristo. Nada a ver com paixão. É certo que haveria a ressurreição, a aleluia e a festa no domingo, mas ainda assim não encaixava bem com “paixão”. Só mais tarde vim a saber que esse termo vem do latim, passio, e quer dizer sofrimento.

Eu gostava das procissões. Me lembro de uma delas em que ameaçava chover – ouviam-se trovões e viam-se relâmpagos ao longe – o cortejo se formou na lateral da igreja e saiu, lentamente. Todos, ou quase todos, empunhavam suas velas, cujas chamas cambaleantes lutavam contra a brisa que prenunciava o mau tempo.

Seguiam em silêncio. Eram apenas homens. As mulheres haviam formado um outro cortejo que saíra do mesmo lugar, porém, em direção oposta – tratava-se da tradicional Procissão do Encontro, na Quinta-Feira Santa. Eu seguia ao lado do meu avô, observando seus passos – leves e vacilantes.

Observava também os passos dos outros. Eram diferentes, mas seguiam no mesmo ritmo. Alguns mal tiravam os pés do chão, com passos arrastados – caminhavam devagar. Outros, pisavam mais firme. Havia os que levavam os chapéus nas mãos, em sinal de respeito. Meu avô não usava chapéu. Imaginei-o carregando um; não me pareceu assentar-lhe bem – nunca o vira de chapéu.

Alguém iniciou uma reza monótona e os demais responderam sincronizadamente, no compasso do cortejo. Os semblantes, uns mais outros menos contritos, sugeriam respeito, reverência. Pareciam dispostos a suportar um pouco a dor do crucificado. Os penitentes cruzavam apenas os olhares; cumprimentavam-se com discreto movimento de cabeça, em silêncio; era um silêncio consensual, primitivo.

É certo que por vezes se podia ouvir algum murmúrio abafado, contido. Alguém que espantava um cachorro inoportuno, metido por entre os passantes; ou algum incidente com vela; ou adulto admoestando criança. Mas a regra era o silêncio. Cortado apenas pelas orações e pelo barulho murmurejante dos passos no chão. Alguns pronunciavam nitidamente o texto das orações; outros, apenas sussurravam, rezando para si… ou para Deus.

A casas estavam vazias – pareciam desertas. À exceção das pessoas muito idosas, com dificuldades pra se locomover, a pequena população (e também a população rural) comparecia em peso às procissões. Imprescindíveis. Ainda mais aquela da Semana Santa: haveria também o Lava-Pés e a procissão do Nosso Senhor Morto, a Paixão de Cristo (via crucis), na Quinta e na Sexta-Feira.

O trânsito jazia completamente parado. A uma, porque naquele tempo eram poucos os automóveis na cidade; a outra, porque a ocasião impunha penitência, jejum e quietude – uma quase suspensão dos afazeres e da rotina. As ruas por onde passava o séquito, antes tão profanas, adquiriam qualquer coisa de sagrado.

Eu carregava minha vela protegendo a chama com a mão em concha, cercando o vento. Segurava-a na extremidade, por baixo de um pedaço de papelão em formato de pires, com um furo no meio, por onde enfiávamos a vela a fim de evitar que a parafina derretida, ainda quente, pingasse na pele da mão – era uma providência simples e no entanto engenhosa – sempre me pareceu que fosse uma invenção do meu avô!

Havia os que empunhassem as velas meio inclinadas, para que elas pingassem no chão. A precária iluminação dos postes de rua realçava as chamas e o efeito delas, delineando a fileira de devotos – que decerto não era uma fila grande, mas então me parecia enorme. Alguns rostos (a maioria) conhecidos – novos e velhos – iluminados pela chama das velas. Uns, devotos assíduos; outros, nem tanto; seguíamos em comunhão, comungando espaços esperanças e crenças.

 Eu admirava o andor com a imagem de Cristo. Era um rosto sofrido. Ficava imaginando então seu calvário, sua dor. Diziam que o sofrimento dele foi o maior que existiu; ninguém havia sofrido tanto nem haveria de sofrer como ele. Eu concordava que morrer à míngua numa cruz era um suplício insuportável, talvez a pior das mortes – mas viria a saber, mais tarde, que há mortes tão cruéis quanto. Creio que o que me impressionava mais, além da morte excruciante, era a tortura.

Os homens carregavam o andor e eu, invejando-os, carregava a imaginação… que me carregava para longe.

Com pouco mais, no quarteirão abaixo da igreja, encontramos a procissão das mulheres, que haviam feito percurso equivalente, em sentido contrário, e se aproximavam com seus terços e véus – rezando. Na esquina do encontro, a Verônica subiu numa cadeira, desenrolou lentamente o Santo Sudário com a face de Cristo e entoou seu canto agudo, lírico – em latim.

Estava ansioso por esse momento. Os adultos diziam que era o instante em que a Mãe encontraria o Filho supliciado, sofrendo, tal como ocorrera nas ruas de Jerusalém. As pessoas se ajeitaram – cada uma parecia saber o seu lugar – e as duas procissões se fundiram numa só, seguindo rumo à igreja. No percurso, a Verônica ainda cantaria mais duas ou três vezes.

Na frente da igreja, o padre recebeu os penitentes e os andores, com as imagens de Cristo e de Maria – que me pareciam alheios a tudo. Como a chuva prometia cair a qualquer momento, seguiu-se uma rápida homilia relativa à data; rezaram-se uns pais-nossos e umas ave-marias; recordei-me que no dia da crucificação verdadeira houve também uma tempestade sobre o Gólgota.

O padre encerrou logo a cerimônia e fez os lembretes de praxe, enfatizando os próximos compromissos da Semana Santa – até o domingo da Páscoa; por fim, recomendou jejum e oração.

Nem bem chegamos em casa e o aguaceiro desabou. Com seu sotaque português, falando calmamente, meu avô dizia que pelo jeito iria “chover a cântaros”. Minha avó, que não havia ido à procissão por causa de uma dificuldade de andar – claudicava um pouco – recebeu-nos à porta com algumas recomendações sobre janelas e goteiras.

Entre relâmpagos que iluminavam as molduras de portas e janelas, eu escutava a chuva lá fora. Muita água. Temporal. Meu avô chamou-me e fomos rezar nos quatro cantos da casa, com as velas acesas, pedindo que o tempo acalmasse. De outras vezes, também já havia rezado com ele nos cantos das paredes externas – meu avô devia ter lá a sua fé e os seus medos; os medos de adultos são maiores que os das crianças – viria a saber depois.

Num trovão mais forte, apagaram-se as luzes. A cidade ficou sem energia. Fomos dormir na escuridão, só com a luz das velas que projetavam nossas sombras na parede como se fôssemos seres irreais. Creio que chovera até de madrugada; não vi quando a chuva parou nem quando a energia voltou.

No dia seguinte, o céu amanheceu quase limpo, com poucas nuvens – fazia sol. À tarde, haveria a procissão e a cerimônia do Lava-Pés. Eu estava ansioso porque havia pedido a minha mãe uma túnica de apóstolo, para receber a água, o beijo no pé e o pão do padre – era a minha primeira vez; foi a única.

No dia da cerimônia, acompanhei a procissão por dentro de uma indumentária bem simples. Uma túnica feita às pressas. De alpaca ordinária, azul ou verde-claro, sem detalhe nenhum. Minha mãe justificou a simplicidade do traje dizendo que os apóstolos eram humildes. Me lembrei que a professora do catecismo havia dito que o padre beijava os pés dos moleques em sinal de humildade – conformei-me, mas havia túnicas bem mais bonitas.

Após a breve procissão, nós, os moleques, sentamo-nos lado a lado nos primeiros bancos da igreja, em perpendicular ao altar, e ficamos de risinho – à espera da água, do beijo do padre e do pão. Éramos os protagonistas; estávamos como na Bíblia. A professora do catecismo organizava tudo pedindo silêncio.

O padre chegou trazendo uma ânfora de louça cheia d’água e o sacristão, uma bacia e uma toalha; enquanto um derramava a água nos nossos pés, o outro os enxugava. Tudo muito rapidamente. Após beijar ou simular um beijo nos pés de cada um dos moleques-apóstolos, o padre nos entregava um pão caseiro. Pra mim, foi o auge!

Um pouco mais e estava encerrada aquela cerimônia do dia. Ficamos por ali algum tempo ainda, felizes, lampeiros, comparando túnicas e pães – numa tagarelice de escola. Quando finalmente cheguei em casa, meu avô elogiou-me o traje e disse que todo pão era sagrado; mas aquele era mais – uma dádiva. Deixei a túnica em algum lugar; à noite veio mais chuva…

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Os supridores: literatura marginal

Seis livros fundamentais de escritores negros lançados recentemente no  Brasil - Jornal O Globo

LANÇADO em 2020 pela Editora Todavia, o romance Os supridores, do gaúcho José Falero, entrou definitivamente para o catálogo da chamada “literatura marginal”, cuja temática é a dura realidade, o dia a dia dos oprimidos – aqueles que vivem e batalham a sobrevivência “à margem”, fora, portanto, do leito nem sempre acolhedor (e tantas vezes impermeável) da “inclusão social”.

A história contada no romance é envolvente. Desenrola-se em torno dos amigos Pedro e Marques, supridores de um supermercado (esses que fazem a reposição das mercadorias nas prateleiras) que resolvem se associar, juntamente com outras pessoas, para vender maconha em Porto Alegre. O negócio – imaginam – é rendoso; seria a grande chance de superarem as dificuldades de uma vida difícil, de privações, que segue monótona (e sem perspectivas) por entre as gôndolas do grande supermercado.

A trama é interessante, prende a atenção do começo ao fim. E tem um desfecho inesperado, que, por razões óbvias, não vou revelar aqui. Vale a pena ler o romance. Escrita leve, linguagem autêntica da rua, excelentes diálogos, história e personagens saídos da aspereza real da vida. Ficção com som, sabor e cheiro de realidade!

De fato, o livro tem uma impressionante aderência à realidade. Basta dizer que o autor, ele mesmo, já trabalhou como supridor de prateleiras num supermercado – conhece bem o ofício dos protagonistas. Nascido numa família pobre e numa casa onde não havia livros nem leitores, José Falero foi também auxiliar de cozinha e servente de pedreiro. Leu o primeiro livro (por inteiro) aos vinte anos de idade – e virou escritor.

Ao lado de três outros romances lançados recentemente – Marrom e amarelo (Paulo Scott), Torto arado (Itamar Vieira Júnior) e O avesso da pele (Jeferson Tenório), Os supridores de José Falero forma um quarteto primoroso da “literatura do oprimido”, ou “literatura marginal”, juntamente com as obras já consagradas (e “marginais”) de Ferréz (Capão pecado) e Paulo Lins (Cidade de Deus).

No último capítulo de Os supridores – vou destacar apenas uma das boas sacadas do livro: a metáfora da “sopa” -, o personagem Pedro, em conversa com um senhor mais velho – portanto mais experiente (e tão sofrido quanto ele) -, aprende que a vida pode ser comparada a uma “sopa”, e que devemos tomar cuidado para não salgá-la demais. Porque o tempero da vida (e da sopa) não depende só de nós, mas muitas vezes a gente salga demais a nossa própria sopa – essa que a vida nos serve.

É bom, muito bom, o romance de estreia de um escritor que já foi servente de pedreiro, ajudante de cozinha e supridor de supermercado. Que não nasceu em berço privilegiado nem recebeu qualquer herança cultural da família, que não era de letrados e leitores, e que leu seu primeiro livro aos vinte anos de idade. Se literatura é arte, José Falero – um escritor improvável – parece ser o típico “artista que nasceu pronto”. Bom romance, boa leitura!

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Conto sobre conto

Serrote - Desenho de esthunders - Gartic

QUEM contou essa história foi o Pedro Mairal; vou tentar reproduzi-la aqui sem tirar nem pôr. O Mairal é um bom contador de histórias e conhece a vida, e o dia a dia, de Buenos Aires como a palma da mão. Por isso, vou me limitar a reproduzir aqui o que ele contou tal como contou, sobre o casal Ádrian e Eva, ambos quase homônimos dos primeiros habitantes do Éden.

Os dois se conheceram num curso de desenho industrial e, durante um semestre desse curso, formaram um grupo de estudo com uma terceira pessoa que nunca apareceu. Assim, prosseguiram ambos realizando o trabalho exigido pelo professor; as reuniões eram feitas na casa de Ádrian, que morava com seu irmão, um sujeito, segundo Pedro Mairal, “ligeiramente mais bonito, ligeiramente mais alto, ligeiramente mais robusto”, que entrava e saía sem muita conversa com o casal.

Nesse entretanto, Ádrian e Eva se apaixonaram. A coisa ficou tão séria que, rindo da coincidência bíblica de seus nomes, chamavam-se reciprocamente de “minha metade da laranja”. Ao final do semestre já estavam morando juntos, numa casa alugada, guarnecida por móveis usados e algumas peças que o Ádrian customizou, exercendo suas habilidades de marceneiro em horas vagas.

Eva arranjou um emprego de secretária, Ádrian passou a dar aulas na faculdade e a vida seguia assim no seu leito seguro, ratificado agora por aquela paixão edênica que acabara de nascer. Foi indo até o dia em que o gato de ambos adoeceu e Ádrian precisou ligar para uma clínica veterinária e pedir a medicação do felino, que morreria logo depois.

Como o celular de Ádrian estava sem bateria, pediu emprestado o de Eva. Esta desbloqueou o aparelho e o passou às mãos do parceiro, que fez o pedido por meio de um aplicativo. Só que ao digitar seu novo endereço para a entrega, notou, registrados na memória do smartphone, os últimos pedidos feitos por Eva: sushi, champanhe e preservativos, entregues recentemente no antigo endereço de Ádrian, onde ainda morava seu irmão.

Ádrian pediu explicações e Eva não teve como explicar nada – tudo acabou ali. Eva foi embora chorando, o gato morreu e Ádrian ficou meio doido, trancafiado em casa por dias ou meses – não lembro bem – sem saber que rumo dar a sua vida, ou se sua vida teria ainda algum rumo.

Dias depois, Eva voltou à casa para pegar suas coisas. Ádrian não estava. Ela entrou, esbarrou na mesa da cozinha e a mesa desabou, estava serrada ao meio. As cadeiras, idem, partidas em duas metades pelo serrote do aprendiz de carpinteiro. O mesmo havia acontecido com a cama, o sofá, o violão, os livros, e até as frutas secas estavam serradas pela metade. Segundo Mairal, só sobrou a geladeira.

Ainda não tive oportunidade de perguntar ao Pedro Mairal como é que essa história acabou, e que fim levaram Ádrian e Eva. Mas o que impressionou foi a reação do Ádrian – partiu tudo ao meio, como a metade da laranja que eram um para o outro. Deve ter sido um surto, um momento de fúria; descontou sua raiva e desilusão nos objetos. E, pensando bem, foi melhor assim…

Em vez de se voltar contra as pessoas que o desiludiram, o que seria injustificável, canalizou seu ciúme ou desejo de vingança, sei lá, para os objetos da casa, partindo-os exatamente ao meio. Descarregou suas mágoas. Uma reação diferente. Não sei se teria sido um ato de loucura ou se foi sensatez. Mas que foi melhor assim, foi.

De quebra, Ádrian parece ter deixado um recadinho bem original: apesar da decepção, o seu mundo não caiu – estava apenas partido. Rachado. Mas essa é uma conclusão minha; o Mairal não contou nada disso e não vou aqui contar o conto e acrescentar um ponto.

Certo é que também o paraíso de Adão e Eva, depois daquela história mal explicada do fruto proibido, andou um tanto abalado, estremecido, rendeu até uma expulsão – mas os amantes bíblicos, pelo jeito, continuaram juntos e aqui estamos nós.

Creio que a coincidência gráfica e prosódica entre os nomes de Ádrian e Eva com os nomes dos personagens bíblicos, bem como a expressa menção que Mairal faz ao “famoso fruto proibido” (palavras dele), deve ter algum significado nessa história portenha de paixão e ruptura. Seria o paraíso uma impossibilidade – um mundo ao mesmo tempo perdido e partido?

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Bolsonaro é um estadista

A mentira por Santo Agostinho - A12.com

SABEMOS que Bolsonaro chegou à presidência da República pelo voto direto e democrático, em eleições limpas. Na sua campanha – também limpa – nunca fez uso de disparos ilegais pelo WhatsApp, não usou caixa dois para fazer esses disparos em massa e direcionados, não utilizou robôs nem trolls no WhatsApp, Twitter, Facebook ou Instagram – tampouco espalhou fake news ou difamou seus concorrentes.

Uma vez eleito, Bolsonaro pôs em prática seu plano econômico exaustivamente debatido durante a campanha, com o que conseguiu alavancar nossa economia, baixar o desemprego e o dólar, conter a inflação e elevar o PIB a patamares surpreendentes. Assim, neutralizou os efeitos da Grande Recessão de 2008.

No meio ambiente, Bolsonaro teve a sensibilidade de nomear um ministro que fortaleceu o Conama, o Ibama, o INPE e o ICMBIO; vem combatendo as queimadas e o desmatamento na Amazônia como nenhum outro governo havia feito até agora. Com seu ministro do Meio Ambiente, Bolsonaro ampliou as áreas de proteção da Mata Atlântica, adotando uma intransigente defesa dos nossos ecossistemas e do clima.

No âmbito das relações internacionais, Bolsonaro nomeou um chanceler com ampla experiência diplomática e política no exterior, que já havia chefiado muitas embaixadas pelo mundo. Implantou uma política externa soberana e multilateral, fortalecendo os laços com nossos parceiros comerciais sem nenhuma submissão às grandes potências do planeta, de modo que o país jamais poderá ser considerado um pária na ordem mundial.

Bolsonaro tem prestigiado muito a cultura, a educação e a ciência no país. Aumentou as verbas para as universidades federais e fomentou a pesquisa; fortaleceu a Ancine, a Casa de Rui Barbosa e patrocinou todo tipo de projeto cultural sem nenhum tipo de censura. A Secretaria de Cultura sempre foi ocupada por homens e mulheres de cultura e currículos notáveis; nunca passaram por lá neonazistas, atrizes coquetes e galãs da TV.

Na pandemia, Bolsonaro criou um “Gabinete de Crise” para coordenar as ações em nível nacional e unificou o combate ao novo coronavírus. Fez uma ampla campanha de informação sobre as medidas sanitárias recomendadas pela ciência; liderou junto ao Congresso a aprovação do auxílio emergencial; providenciou equipamentos de proteção aos profissionais do SUS e multiplicou os leitos de UTI no país; jamais defendeu tratamento fake para a covid ou atitudes que disseminassem o vírus.

Logo que começaram as pesquisas sobre a vacina anticovid, Bolsonaro correu e fez uma parceria com a China para fornecimento de insumos farmacêuticos e foi um dos primeiros governantes a comprar a Coronavac chinesa. Nunca recusou vacina de outros países. O presidente apresentou desde logo um plano nacional de vacinação, o que fez com que o Brasil iniciasse a imunização mais cedo e revertesse as curvas de contaminações e mortes até os baixíssimos patamares em que se encontram hoje.

Ao contrário do que dizem a oposição e os comunistas, Bolsonaro é um homem do diálogo. Tem evitado, habilidosamente, inúmeros atritos com outras instituições. Respeita os demais poderes (STF e Congresso), respeita as Forças Armadas e jamais atacou jornalistas e órgãos de imprensa – é um democrata que sabe respeitar os adversários e convive muito bem com a crítica.

Por ser um democrata, Bolsonaro jamais insinuou que um dia pudesse fechar o STF e o Congresso. Nunca afirmou que rejeitaria o resultado das eleições caso não fosse o vencedor. Como defensor da paz e dos direitos humanos, ele condena a violência e a tortura, tem verdadeira aversão por torturadores e não apoia milicianos nem matadores de aluguel; é veementemente contra grupos de extermínio.

Bolsonaro acabou também com a corrupção. Não interferiu na PF, no MPF, no Coaf nem na Receita Federal. Ao contrário, deu plena autonomia a essas instituições de modo que hoje não temos mais no país as famigeradas “rachadinhas”; a Val do Açaí está na cadeia; depósitos inexplicáveis nas contas de primeiras-damas são coisas do passado; o “centrão” está fora do governo e não tem mais “toma lá, dá cá” no Congresso.

Em termos de caráter, equilíbrio e bom senso, Bolsonaro é um modelo. Não mente, não espalha fake news nem ódio. Cortez, não diz palavrão e jamais quebrou o decoro de seu cargo. Não é racista nem homofóbico. Respeita as mulheres e as minorias. Sempre combateu as desigualdades e o preconceito de qualquer natureza.

Enfim, Bolsonaro é um mito; se não é o maior presidente que esta República jamais teve é porque a mídia comunista esconde suas realizações e quer derrubá-lo a qualquer custo. Há uma campanha orquestrada nesse sentido. Portanto, as coisas horríveis que dizem por aí sobre o Bolsonaro saibam que é pura mentira – é 1º de abril!

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O tigre branco: livro e filme

Livro: O Tigre Branco - Aravind Adiga | Estante Virtual

AS DICAS de hoje são o livro e o filme homônimos “O tigre branco”. O filme é dirigido por Ramin Bahrani, disponível no streaming (Netflix). Trata-se de mais uma excelente produção do cinema ou da chamada “Bollywood” indiana, que dessa vez retrata a Índia atual sem as cores do exótico e do místico; um país de muita pobreza, violento e injusto. Suas desigualdades estruturais constituem o saldo que restou da longa colonização inglesa e depois norte-americana.

O filme mostra (e denuncia) que as castas ainda sobrevivem de fato. A formação social indiana, além de submetida aos efeitos degradantes da colonização estrangeira, é uma formação estruturalmente condicionada pelo regime de castas que designa, historicamente, os papéis de ricos e pobres, senhores e servos – sem qualquer possibilidade de ascensão ou mobilidade social.

Esse regime, culturalmente, induz a aceitação dos papéis designados aos pobres como algo natural; os serviçais admitem com naturalidade a supremacia e os privilégios dos senhorios, bem como sua própria condição de criados. É uma subserviência, digamos, ancestral, que inviabiliza a revolta ou qualquer tentativa de sair da “prisão” socioeconômica – da “Gaiola dos Galos”.

O filme denuncia tudo isso. E acusa também a grande corrupção e os pequenos subornos, os grandes e os pequenos golpes, que contaminam a estrutura político-administrativa da Índia e mantêm seu povo pobre e subjugado – sem chance de escapar ao destino de miséria e opressão.

Os pobres explorados que conseguem escapar a esse destino são como os tigres brancos, que nascem “um a cada geração”. A história do filme se desenrola em torno dessa metáfora. História e roteiro envolventes – merece destaque também, a meu ver, o desempenho do jovem ator “bollywoodiano” Adarsh Gourav, no papel principal de Balram – um pobre serviçal que resolve romper os grilhões da pobreza – um raro tigre branco que busca sair da “gaiola dos galos”.

O elenco conta ainda (não vamos esquecer!) com a beleza exótica de Priyanka Chopra, a atriz indiana que foi também miss universo e está ótima no papel de Pinky – a inconformada mulher do indiano privilegiado Ashok, vivido pelo ator Rajkummar Rao.

Houve quem comparasse o filme indiano ao sul-coreano Parasita, do diretor Bong Joon-Ho: a meu ver, nada a ver. São filmes que tratam da exploração e opressão às classes subalternas, mas cada um à sua maneira, com sua própria estética e mensagem.

A dica de O tigre branco foi sugestão da amiga Suraya, da escola Bonjour Paris – “merci”, professora! Aproveitei o filme e fui ler também o livro homônimo que o inspirou, do jornalista e escritor indiano Aravind Adiga, publicado no Brasil neste ano pela Harper Collins – excelente!, e ficou muito bem adaptado à tela; a obra é um verdadeiro livro-libelo. Denuncia e ajuda a desmistificar o misticismo que até hoje encobre a pobreza e a violência institucional na Índia. Recomendadíssimos: filme e livro!

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