Fazer um café

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         IMAGINEM que só agora me dei conta de que nunca, nem uma vez sequer, me levantei de manhã e disse “Vou fazer um café”. É uma frase tão prosaica, tão trivial, tão comum… Mas só agora (não sei por quê) percebo, um tanto admirado, que nunca, jamais pronunciei essa frase. E assim foi porque jamais fiz ou “passei um café”; na verdade não sei fazer café.

         Estou me referindo, obviamente, àquele cafezinho tradicional, passado no coador, que depois de coado vai pro bule ou pra garrafa térmica. Nunca fiz esse ritual tão corriqueiro: ferver a água, adicionar o açúcar, armar a cafeteira, pôr o coador no lugar, depositar ali a quantidade adequada de pó, depois entornar a água quente e, enfim, saborear meu próprio café.

          Nunca fiz isso – sempre houve quem fizesse por mim. E quando não houve, fiquei sem tomar café. Mas agora me parece incrível (ou imperdoável) que uma pessoa possa atravessar a vida toda sem ter feito, uma vez que fosse, um prosaico cafezinho – desses que despertam a gente de manhã, que nos dão alguma energia, e que permitem aqueles dois ou três minutos de prazer e repouso, distanciamento…

       É verdade que nunca fui o que se poderia chamar de um “tomador de café”; um cafezeiro. E talvez o fato de nunca ter fumado, de não sentir aquele desejo de fazer a tal da “boca de pito”, tenha favorecido esse meu consumo moderado de café. Dificilmente me tornaria um viciado em cafeína, mas eu gosto do cafezinho – geralmente uma xícara pela manhã, depois do leite com pão, e outra após o almoço, só.

         Minha avó materna, uma portuguesa forte lá de Felgueiras e Panchorra, fazia um café famoso. Seu aroma se espalhava pela vizinhança e era uma verdadeira tentação – às tardes, muita gente corria pra lá só pra tomar o cafezinho da dona Emerenciana, naquela mesa grande da cozinha, perto do fogão a lenha e, claro, acompanhado de um bom papo que eu sei que ela tinha.

         (E detalhe: esse café da minha avó era plantado e colhido pelo meu avô Alberto, torrado e moído lá em casa – me lembro até hoje do torrador de bola vermelho, do fogãozinho de tijolos improvisado no quintal só pra torrar o café, e também do moinho Progresso, que ainda conservo aqui na sala de casa.)

      Imagine que fui praticamente criado por essa avó – numa espécie de criação compartilhada com meu pai e minha mãe; meu avô Alberto não me criou: esse só me paparicou! – e, mesmo invadido diariamente pelo aroma do café da minha avó, mesmo tomando todo santo dia o cafezinho concorrido da dona Emerenciana, mesmo assim, nunca fui homem de “passar um café”.

         E acho tão generoso esse gesto! Porque raramente alguém faz um café só pra si. “Passar um café” é como fazer um convite; um gesto de delicadeza. E é também uma trégua. Sossego. Refúgio. É repousante parar tudo só pra fazer um café – e depois saboreá-lo devagarinho, vendo a fumacinha bailar, segurando a asa da xícara com a pontinha dos dedos, olhando pro nada – tudo suspenso; tudo parado…

             É ou não é?

         Mas eu vinha dizendo que, de súbito, percebi nunca ter pronunciado a frase “Vou fazer um café”. Mas percebi também que ela não é só uma frase trivial, corriqueira; dessas que todo mundo já pronunciou alguma vez – ela tem um quê de poesia (seria um verso haikai?). E tem – sim, senhor – algo de altruísta e afetuoso; porque fazer e oferecer um café é um gesto muito mais amável do que simplesmente polido.

      Não estou me referindo, por óbvio, àqueles cafés tirados, ou prensados, nas maquininhas de café expresso (ou espresso). Esses cafés eu até faço. São saborosos, eu gosto também, mas é um ato individualista – uma xícara só. O “passar o café” a que me refiro é aquele da cafeteira tradicional, do coador de pano ou de papel, do pó e do açúcar tirados da lata, da água fervente no canecão… você sabe do que eu tô falando!

         E falando agora no café da minha avó, a primeira coisa que me veio foi o cheiro. Depois, claro, o sabor. Mas, além disso, me lembro da disposição com que ela passava um café – a qualquer hora do dia ou da noite: isso só podia ser prazer, não era trabalho – portanto, chego a pensar que deve haver algum deleite não só em tomar, mas também em fazer, em “passar um café”.

            Por uma ou por outra razão – sei lá por quê -, nunca parei para aprender como se faz e fazer eu mesmo um cafezinho. Deve ter sido a correria da vida, os tais planos e objetivos que a gente põe na cabeça e sai correndo atrás deles sem descanso; deve ser por causa dessas coisas que eu nunca me permiti a placidez de parar e fazer um café – senão apenas bebê-lo, e mesmo assim, de passagem, rapidamente, sem perder muito tempo.

           O engraçado é que agora tenho a sensação de que perdi tempo. Perdi aquele tempo precioso que se ganha quando se para tudo, aguardando sair o café. Esperando a água ferver, e depois atravessar lentamente o pó e o coador; esperando o aroma que explodirá em seguida e, enfim, esperando por aquele gostinho na boca que parece dizer: “Pronto, isso era tudo o que tinha de ser feito”.

            Vou arranjar uma receita de café!…

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Uma tarde azul

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            É SEMPRE a mesma coisa: logística e disciplina de aeroporto me dá nos nervos. E já começa no check-in: “Um documento com foto, por favor”. Entrego meu RG. “Sua bagagem de mão tem algum instrumento cortante, perfurante ou aerossol?”. Não, eu digo. “Um telefone pra contato, parente ou amigo”. Dou o número. “Qual o vínculo?”. Digo qual. Recebo o bilhete com a primeira recomendação: “Observe o local e o horário de embarque constante do cartão, boa viagem!”.

       Sigo para a sala de embarque e na porta já me pedem de novo o documento de identidade com foto e o bilhete do check-in. Exibo os dois. “Boa viagem!”. Tenho de passar, eu e a bagagem de mão, pelo raio-x. Me oferecem um tupperware sem tampa e determinam que eu ponha ali a carteira, o relógio, o cinto, as moedas, o celular e tudo o que for de metal. Obedeço.

          Com gestos mecânicos e uma linguagem gasta, perguntam se na minha bagagem – uma mochila que vai passar pelo raio-x – tem algum computador. Digo que sim. Determinam então que eu tire o notebook da mochila. Eu tiro. A inspeção eletromagnética descobre que há um objeto suspeito na minha nécessaire. Abro a nécessaire – era o barbeador sem lâmina; sou liberado imediatamente e deixo de ser suspeito.

           Passo pela inspeção eletrônica e recebo meus pertences do outro lado da esteira. Começo então a pôr a carteira e as moedas no bolso, o celular no outro bolso, o relógio no braço e o cinto nos passantes da calça – fazendo um  esforço danado pra não deixar aparecer a barriga. Ponho o notebook na mochila e vou me certificar se o voo está no horário, se o portão não mudou, e a que horas começa o embarque – sempre ligado nos avisos do sistema de som do aeroporto; o que me deixa tenso.

           Antes de embarcar, leio um pouco. Pego o caderno de turismo da Folha de S. Paulo, só pra relaxar. Fico sabendo que Zagreb, a pequena capital da Croácia, é uma cidadezinha simpática. Tranquila. Uma “miniatura completa de metrópoles europeias”; onde se tomam os melhores cafés do mundo e onde se come uma truta com crosta de amêndoas, brócolis e batatas salteadas por apenas 165 kunas – ou R$ 104,00.

            Já ouço o serviço de som despejando regras: “Senhores passageiros, vamos iniciar o embarque pelo portão três”. “Mantenham seus cartões de embarque e documento de identidade em mãos”. “Primeiro os passageiros da seção 1, pessoas com necessidades especiais e clientes-diamante”. Não sou cliente-diamante mas poderia assegurar que tenho muitas “necessidades especiais”.

         Em seguida, diz o serviço de som, serão embarcados os passageiros da seção 2, com assentos de 1 a 9; finalmente, os passageiros da seção 3, com assento de 10 a não sei o quê. “Queiram observar suas respectivas seções”, determina a voz metálica.

           Me enquadro na fila da “respectiva seção”. Ao passar pelo controle final, tenho de exibir (de novo) meu cartão de embarque e meu documento de identidade, com foto recente. Recebo então a ordem de caminhar até a aeronave seguindo a faixa azul. No interior da aeronave sou avisado de que tenho de pôr meus pertences de mão no bagageiro acima ou embaixo do assento – isso se eu não estiver sentado na saída de emergência.

              Antes de decolar, a aeromoça avisa que tenho de ler as instruções de segurança que se encontram no bolsão da poltrona a minha frente. E mesmo tendo lido, ela diz que preciso prestar atenção na demonstração que fará em seguida. Então, se posta de pé no corredor e informa: “Esta aeronave possui isto, aquilo e aquilo outro”. Em caso de emergência, você deverá usar uma das duas portas laterais, quebrando o lacre para abri-las”.

            Me diz ainda que, se houver despressurização da cabine, máscaras cairão à minha frente e que, havendo alguma criança ao meu lado, devo primeiro pôr a máscara em mim e depois na criança. Se houver um pouso forçado na água, preciso arrancar meu assento flutuante e usá-lo como boia.

        Em seguida, recebo ordens para desligar tudo quanto for aparelho eletrônico, inclusive o celular. Devo também travar a mesinha à minha frente e manter o encosto da cadeira na posição vertical, observando sempre os sinais luminosos de atar e desatar cintos. O avião decola e daí a pouco recebo permissão para usar aparelhos eletrônicos e celular, mas apenas no “modo avião”.

            O tempo tá nublado (chuvisqueiro leve) e o ATR 42 ou 72 sobe tremelicando, dá uns trancos, ameaça investir de um lado, do outro, mas estabiliza logo. Meu santo fica arisco, de plantão. O voo dura 50 minutos até Campinas e então me avisam que vamos iniciar a descida. determinam que eu desligue tudo, que eu trave a mesinha à minha frente e que eu volte a poltrona para a posição inicial. Obedeço – sob a fiscalização rigorosa, banco a banco, dos comissários.

             O avião aterrissa rangendo pneus e freios; eu torcendo pra que aquelas toneladas de lata e de gente parem logo e não descambem pela pista afora. Quando sinto que os freios deram conta do recado, e que o avião começa a taxiar lentamente na pista, respiro aliviado e já recebo ordens para me manter sentado, quietinho, com os cintos afivelados até a completa imobilização da aeronave.

            Estou me preparando pra sair, mas a aeromoça dá ainda uma última ordem: diz que os passageiros em trânsito – como era o meu caso – devem seguir todas as instruções do pessoal em solo, para fazer as respectivas conexões. Minha paciência já está pelas tampas; já fico imaginando o que me espera em terra.

         Espremido e curvado, com um pé no chão, um joelho no banco e a cabeça roçando o bagageiro acima de mim, vejo aquele monte de gente acotovelada no corredor, esperando a porta do avião abrir. Ouço mais uma vez a aeromoça; agora ela agradece a preferência, diz que gostaria de me reencontrar em breve a bordo de uma de suas aeronaves e me deseja uma belíssima “tarde azul”.

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Contradições

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        COMPREI uma cartela de Dipirona, 500 mg, na farmácia de humanos para a nossa cachorrinha Maia, que tem dores decorrentes de uma malformação óssea no quadril (displasia) – e talvez tenha de se submeter a duas cirurgias delicadas, para corrigir de vez o problema e se livrar das dores.

            Saí da farmácia pensando duas coisas. Primeiro: se a Dipirona de humanos serve pra cachorros, isso prova, por a mais bê, que cachorros e humanos têm uma mesma composição celular, têm reações químicas semelhantes, têm, enfim, uma estrutura orgânica (e por que não psicológica?) que pode provir de algum tronco ou “antepassado” comum – têm, por assim dizer, um certo “parentesco”.

           No caminho de casa, continuei pensando: se esse raio dessa Dipirona age no meu organismo do mesmo jeito que no organismo da Maia – ou seja, se o medicamento tira tanto a minha quanto a dor da Maia -, então é porque ambas as dores, a minha e a dela, são idênticas; senão o remédio seria diferente.

            Isso tudo aconteceu uma semana depois de eu ter lido um artigo (ou uma entrevista, não lembro mais) em que o articulista ou entrevistado (cujo nome também não guardei, mas é alguém importante) dizia que nós, os seres humanos, temos o “dever ético” de evitar e combater a dor dos animais – pois eles são, como nós, “seres sencientes” – e talvez “sensíveis” também.

           Não há dúvida: os animais sentem. Têm sentidos, ora bolas! E não sentem só dores físicas; padecem também daquelas, digamos, “dores da alma”, como, por exemplo, o medo, o pânico – vejo quando a Maia e o Paco se escondem com medo dos foguetes ou das minhas broncas; e, por outro lado, vejo também quando eles balançam o rabo e pulam de alegria na hora de passear.

             Mas tudo isso me deixa aturdido. Porque daqui a pouco vou me refestelar sobre um bife que a Ana tá fritando e que só veio parar aqui na minha mesa porque algum boi, em algum lugar, sentiu dor. Fico então pensando se será ético comer aquele bife; sentir prazer por cima da dor que o boi sentiu. Eu comerei o bife, mas cheio de culpa – e vivo cogitando a hipótese de me tornar vegetariano; vegano, nem tanto.

           Pra ser sincero, nunca cogitei isso seriamente, concretamente: é sempre uma ideia longínqua, dessas que passam bem rápido pela cabeça e logo desaparecem, passam de maneira fluida, sem consequência prática; enfim, uma ideia sem força que termina sempre num desabafo ou numa rendição: “Ah, como seria bom se eu não comesse carne, se fosse vegetariano!”.

          O máximo que consegui nesse campo foi diminuir o consumo de carne vermelha, ou carne de mamíferos, muito embora ainda coma mais do que eu gostaria – ou deveria. Dizem que os mamíferos, como o boi, o carneiro e o porco têm o córtex desenvolvido, à semelhança do nosso, e, por isso, sentem quando vão morrer; vivenciam, portanto, a angústia da morte – como nós.

            Alguém me disse (pra me aterrorizar ainda mais!) que se eu vir a expressão de pavor do boi quando é levado pro abate; o choro do cordeiro na hora da morte; e o desespero dos suínos, nunca mais comerei uma picanha, uma costelinha de porco ou um carrezinho de cordeiro – como o sofrimento deles é algo que acontece longe da gente, fora das nossas vistas, fica fácil comer a carne depois da carnificina.

           Acabo de dar um comprimido de Dipirona pra Maia e vou comer o bife que a Ana preparou, com batata frita. Por algum truque do meu cérebro, consigo eliminar a dor da Maia e comer o bife sem me importar com a dor do boi.

          Minha fome, o hábito talvez ancestral do meu organismo – que ingere carne quase que desde o berço -, transformam o sofrimento do boi numa abstração; numa metáfora. Devoro o bife e ainda sou capaz de lamber os beiços, esquecendo momentaneamente a culpa, que se esvai junto com a fumaça do filé bem-passado que a Ana prepara.

           Mas essa é só mais uma das minhas tantas contradições. A própria Ana é outra delas. Ela que frita o bife, que põe a mesa, que tira a mesa, que arruma a cozinha, que arruma minha cama e ainda lava meu banheiro é, sim, outra das minhas muitas (e muitas) contradições.

           Eu sei que é difícil pro boi. Pro carneiro. Pro porco. E é difícil também pra Ana, que tem de preparar o bife do boi, o carrê do carneiro e a costelinha do porco. Eu sei disso. Mas tá difícil pra mim também, que me sinto cada vez mais um estrangeiro no mundo – e ainda por cima um estrangeiro culpado.

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O celular e o rolimã

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           UMA das coisas que tenho ouvido com bastante frequência nos últimos tempos é que as crianças de agora são mais inteligentes que as de antes, das gerações passadas. A toda hora tem alguém dizendo que hoje as crianças são tão espertas e tão desenvolvidas que parece até que já nascem sabendo tudo!…

           Nunca discordo. Nem concordo. Não tenho notícia de que a inteligência do homo sapiens esteja mudando de escala, e para cima, e para melhor. Não sei, portanto, se as crianças de hoje são mais inteligentes e mais desenvolvidas que as de ontem. Pode até ser, mas eu não percebo, empiricamente, essa diferença toda.

           É certo que hoje as crianças têm muito mais estímulos (verbal e visual) do que antigamente. São estimuladas por meio da televisão, do computador, do celular… Entram mais cedo na escola – ou em creches disfarçadas de “escolinha” -, e são levadas ao contato com pessoas diferentes (professores e outras crianças), com outros ambientes e possibilidades.

            Creio que tudo isso estimule mesmo o desenvolvimento cognitivo da criança, sua adaptação a novas situações, sua capacidade de comunicação – sei lá, estimula talvez a inteligência como capacidade de interpretar e se adaptar à realidade a sua volta. Mas, bem entendido: eu não entendo nada disso, estou dizendo essas coisas todas de “orelhada” – não me levem a sério, por favor.

          Canso de ouvir pais e avós se dizendo impressionados com o filho (ou neto) de apenas dois aninhos (ou menos) que já pega o celular, passa o dedo sobre a tela pra desbloquear o aparelho e fica teclando, como se fosse gente grande. E, logo em seguida, vem a frase deslumbrada: “Parece que agora eles já nascem sabendo tudo; a gente era burro, não sabia nada!”.

        Tudo bem que é impressionante (acho mais engraçado que impressionante!) o garotinho ou garotinha manuseando o celular, tentando usá-lo etcétera e tal. Mas eles não veem isso a toda hora, em todo lugar, na mão de todo mundo? Impressionante mesmo (e até preocupante) seria o contrário, se eles ignorassem a geringonça.

             Além do mais, se o pai (ou avô) desses pirralhos já soubessem manusear um celular quando eram crianças, quando não existia nada disso, ou seriam gênios ou seriam videntes. A esta hora já estariam podres de rico. Não seria apenas um caso de “inteligência” ou “desenvolvimento” precoce – seria um fenômeno sobrenatural.

             Por outro lado, paradoxalmente, ouço dizerem também que hoje as crianças já têm tudo pronto, e que no “nosso” tempo, se a gente quisesse alguma coisa, algum brinquedo por exemplo, teria que inventar. Isso é contraditório. Pois se éramos assim criativos e “pequenos inventores”, então alguma inteligência havia – como hoje.

          Não costumo dar muita bola a esse papo de que a molecada de agora é mais inteligente que a molecadinha de outros tempos. Acho injusto dizer isso. Ontem, tínhamos nossa realidade e nossas soluções; hoje, idem: as crianças têm novos desafios e novas respostas. Cada com seus problemas; cada um no seu quadrado.

       Andei lendo em algum lugar que o conceito de inteligência é muito relativo. Inventaram até o tal do “quociente de inteligência” (QI) para medi-la. Mas já o desinventaram  – não sei se tem essa palavra, “desinventar”: nos dicionários não vi, nem no VOLP – pois o tal QI é um critério que anda meio “desmoralizado”.

           Ouço falar numa inteligência matemática, inteligência lógica, inteligência verbal, inteligência mnemônica (capacidade de armazenar e articular informações) e até numa inteligência emocional ouço falar – coisa complexa.

           Agora, querem encontrar também o “ponto g” da inteligência (não confundir com aquele outro “ponto g”), que seria uma “inteligência geral”, capaz de reunir várias habilidades num mesmo cérebro. Enfim, não sei se é possível apurar essas coisas todas nem se vale a pena perder tempo com isso.

            Só espero que a petizada de hoje, a tal “geração Z”, nascida no novo milênio, tenha inteligência (e humildade) suficiente pra reconhecer que teclar num smartphone ou num computador sofisticado da Apple pode ser tão impressionante quanto construir um carrinho de rolimã – com freio e tudo.

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O mundo não tomba

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           ACHO que aquele ditado – “O mundo não tomba!” -, vale apenas para o tempo em que a gente achava que o planeta Terra tinha o formato de uma pizza: redondo e plano. Logo, se todos corrêssemos para um único lado do “disco da pizza”, o mundo tombaria; mas acontece que as pessoas são diferentes, pensam de maneira diferente, e nunca correm para o mesmo lado – ainda bem.

        Agora que a gente já sabe que a Terra é redonda, que ela é um globo e não uma superfície plana, as pessoas podem correr para onde quiserem que o mundo rola mas não tomba. Depois que Copérnico e sua turma corrigiram mais esse erro de Aristóteles, temos certeza de que nosso planeta não é plano como um queijo; não tem perigo de tombar.

        Minha avó usava e abusava desse ditado. Com isso, me ensinava que o mundo é plural; as pessoas não são iguais. Cada um tem sua maneira de ver as coisas, de enxergar o mundo, de se manifestar sobre mundo… Ou seja, as pessoas não veem a realidade da mesma maneira, da mesma forma, do mesmo jeito: elas veem as coisas do jeito delas – e nem por isso o  mundo alguma vez tombou ou deixou de girar.

            Ideologia é um negócio complexo. A gente forma a visão de mundo sem saber como. Sem controle nenhum sobre esse processo. Tem influência da família, da classe social, da escola, da igreja, dos nossos medos, das nossas ilusões, do nosso inconsciente… e ouvi dizer até que a ideologia (política) depende inclusive de fatores biológicos. É um troço complicado.

         Veja agora nas eleições presidenciais: você pode até achar que o Jair Bolsonaro é doido, fascista, misógino, homofóbico, ditador e apologista da tortura. Mas tem gente que não acha; que não o vê assim – quer dizer: tem gente que pensa exatamente como ele. E a julgar pelas pesquisas de intenção de voto – ele é o segundo colocado -, eu acho até que não é pouca gente, não.

         E não vá você pensar que o Bolsonaro conquistou esse tanto de simpatizantes apenas por causa de algum poder especial de persuasão, ou por causa do seu discurso, ou dos seus belos olhos verdes (não sei se ele tem olhos verdes, parece que sim!) – muita gente é Bolsonaro antes mesmo do Bolsonaro, velho!

         Posso até achar que ele é meio amalucado (e acho!). Posso achar que, além de maluco, é incompetente (e acho!). (Ele mesmo já disse que não entende nada de economia. De política então nem se fala: ninguém sabe o que ele fez até hoje na política.) Posso achar que ele é um demagogo de quinta categoria – mas tem quem não ache; há quem entenda que os valores defendidos por ele são realmente defensáveis… e que ele seria a grande solução para os grandes problemas do país.

          Ouço tudo isso, respiro fundo, mas fico na minha; respeito essas opiniões. Acho que elas são equivocadas – mas respeito-as. Na democracia tem de ser assim: é preciso respeitar, e até aceitar, a opinião dos outros; por mais abstrusa que ela seja, mesmo que a opinião vá contra a própria democracia – como é o caso do Bolsonaro que anda tecendo loas à ditadura militar e à tortura de adversários políticos.

         Dizem que o Winston Churchill disse que a democracia é o pior dos regimes; com exceção de todos os outros – que seriam ainda piores. Candidatos como o Jair Bolsonaro me fazem pensar que a democracia é, realmente, o pior dos regimes. Mas o que fazer, se os outros regimes são ainda piores que ela? Tem que aguentar mesmo o Bolsonaro, e a sua turma, que parece cada vez mais entusiasmada.

           Particularmente, acho difícil alguém se entusiasmar com o Bolsonaro. Que em quase trinta anos como deputado não aprovou nem um projeto de lei que prestasse. Que diz que “bandido bom é bandido morto”. Que mulher feia não merece nem ser estuprada. Que não conseguiria amar um filho homossexual. Que negro quilombola é vagabundo. E que o famoso torturador “Brilhante Ustra” é um herói da nação.

         Cá entre nós: não dá pra levar a sério um cara desses. Ou dá? Mas então eu me lembro do Winston Churchill e da minha avó: na democracia, que é o pior dos regimes, a gente tem de tolerar isso tudo porque os outros regimes conseguem ser ainda piores; e, dizia a mãe da minha mãe, o mundo não tomba, tem gosto pra tudo – existe muito “bolsonaro” por aí; tem muita gente que defende o que ele defende.

          Se minha avó fosse viva, eu certamente tomaria um belo puxão de orelhas por escrever essas coisas aqui criticando o candidato. Porque, muito embora fosse ela uma mulher durona e autoritária, era também muito inteligente, perspicaz, e sabia conviver com as diferenças… e com os tais diferentes. Estou absolutamente certo de que ela defenderia, até o último instante, o direito de alguém votar no Bolsonaro; mas duvido que ela mesma votasse no cara.

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Um ano depois…

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          ONTEM fez exatamente um ano que a Mel nos deixou. (E parece até que tudo foi ontem!) Seu coraçãozinho vulcânico, que tanto gostava de bater, não pôde seguir batendo… tamanhas e tão insistentes foram as arritmias! Foi de madrugada. Dormindo. Naquele dia faria um belo domingo de sol.

         Era lua crescente. Uma noite cálida, agradável. O jovem ipê-amarelo aqui de casa havia florido; foi sua primeira florada: era a primavera se avizinhando, querendo chegar antes da hora; pedindo passagem para espantar a indecisão do inverno… e também o frio, que não veio mas acabou ficando.

          Este ano a primavera ainda não se assanhou por aqui. O ipê não floriu. Nenhuma flor. Nem uma, sequer. Nada. Deve ter lá suas razões!

          Quando a Mel chegou em 2009, filhotinho de bóxer com quarenta e cinco dias de vida, me lembro de ter dito à veterinária que ela ficaria conosco, no apartamento, só por alguns meses; depois iria para a chácara da Canastra, viver na companhia do Preto, nosso cachorro vira-lata.

          A médica pensou, pensou, pensou… deu um sorrisinho desconfiado; perguntou se nós ficaríamos mesmo aqui e a cachorra lá, na serra; eu confirmei que sim, e ela então soltou uma frase que não poderia ter sido mais profética: “Eu tenho dó de vocês!”.

            Por causa da Mel (e do Preto) vendemos o apartamento onde morávamos na época. Mudamos para uma casa térrea. Construímos uma casa maior. Adaptamos tudo para que eles (e nós também, claro!) tivéssemos um espaço adequado e uma convivência que imaginávamos fosse longa. Não foi.

          E agora não há mais nada a dizer, a não ser repetir os velhos clichês: “É a vida!”, “Tudo passa!”, “Tudo acaba!”. Mas tudo muda também. Felizmente, até aquela angústia e aquela dor aguda da perda estão mudando: pouco a pouco vão se transformando numa saudade diáfana, que, essa sim, talvez não passe, talvez não acabe…

          Duas coisinhas, porém, gostaria ainda de dizer: aquela frase da médica-veterinária nunca saiu da minha cabeça; nunca deixou de martelar o meu cérebro. Ela tinha razão. Mudamos os planos, mudamos de casa, mudamos de vida… e, com isso, conseguimos até evitar a primeira separação da Mel; mas a segunda, não.

         A outra coisa é que os planos, feitos naturalmente para tecer o futuro, têm uma inquietante deficiência, uma quase inaptidão pra lidar com o próprio futuro. Estava tudo aí, tudo como planejado: a casa, o quintal, o canil, o sofá na sala de leitura… até o Antônio tinha acabado de chegar. Enfim, estava tudo aí!, não precisava ter sido tão já.

            Era cedo, menina!

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Jeito de ler jornais

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          JÁ notei que cada um tem seu jeito de ler jornais. Não sei bem por quê, mas os leitores de jornais costumam desenvolver algumas manias. Começa pelo lugar. Tem gente que só lê jornal na sala, instalado no sofá. Ou ainda na cama. Outros só leem na poltrona da varanda. Há quem adora ler sentado no “trono”. E com a vida corrida de hoje, notícias vazando na internet, muitos leem ou simplesmente folheiam os jornais à mesa do café da manhã, e pronto.

          Há aqueles que têm a mania de “limpar” o jornal antes de começar a ler. Retiram do meio dele os classificados, os encartes de propaganda, e tudo o que não é notícia – deixando só os cadernos mesmo. Tudo certinho: um caderno dentro do outro. Uns, mais sistemáticos, dão até aquela batidinha na mesa, com o conjunto do jornal em pé, pra alinhar bem as páginas. Tem gente que não lê jornal amassado nem a pau!

       A maioria dá uma vista d’olhos nas manchetes de capa e já corre direto para os cadernos de seu interesse específico – muitas vezes ficam só por aí mesmo. Os esportistas correm para os cadernos de esportes. Os cults – ligados em música, teatro, cinema, literatura, etc. -, não abrem mão de começar pelos folhetins de cultura. Nessa turma cult, paradoxalmente, tem também os que não perdem as últimas fofocas das colunas sociais.

      Já a turma do dinheiro, que sempre me pareceu (talvez sejam!) mais séria e compenetrada, mergulha direto nos áridos cadernos de economia, mercado & negócios. Sempre em busca das tais “Oportunidades!”. Os politiqueiros não começam a leitura senão pelo caderno de Poder. A “tropa de elite” se esbalda nas páginas policiais… e tem ainda o pessoal do horóscopo e do necrológio. Tem de tudo. É uma fauna bem variada.

          Quando comecei a ler jornais, no início da adolescência, só lia esportes. O jornaleiro era nosso vizinho e me franqueava a leitura em primeira mão, antes mesmo de distribuir os jornais aos poucos assinantes da cidade. Eu devorava as páginas de esportes da Folha e do Estadão; por último, dava uma lida no Jornal da Tarde, ou Notícias Populares, não lembro bem, mas o caderno de esportes desses jornais era fraco.

          Mais tarde um pouquinho, lá em casa passamos a assinar a Folha de S. Paulo e eu comecei a me interessar também pelas matérias da Ilustrada. Me sentia atraído por algumas questões culturais. Uma leitura bem light. Mas o que me interessava mesmo era literatura, principalmente crônicas – meu “primeiro cronista” foi o Lourenço Diaféria, que acabou sendo preso durante o regime militar porque, numa crônica que li à época, teria desrespeitado o Duque de Caxias, patrono do Exército.

            (Os jornais sempre foram o ambiente natural das crônicas. Discute-se até hoje se ela é de fato um gênero literário, porque o cronista é aquele que escreve com liberdade e leveza, sem compromisso, sobre qualquer coisa, sobre as pequenas (e grandes) coisas da vida, flanando pela cidade e pelo cotidiano. Mas é indiscutível que o habitat das crônicas sempre foi mesmo os jornais – os feuilletons dos franceses.)

         Depois da adolescência, supostamente mais politizado, pulei para os cadernos de política, mas evitava economia. Não entendia nada. E não entendo até hoje. (E os economistas, com seu “economês” e suas previsões furadas, nunca colaboraram.) Agora, acabei descobrindo, talvez tardiamente, que também não entendo nada de política, ou da “política” que esses jornais publicam (ou deixam de publicar), quando e como querem.

             Deve ser por essas e outras que, em matéria de leitura de jornais, ando voltando aos meus tempos e manias de adolescente. Tenho preferido coisas mais leves… até cadernos de turismo servem.

       Como o São Paulo Futebol Clube – que andava numa draga danada – deu uma melhoradinha e está até liderando o Brasileirão, notei que venho bisbilhotando cada vez mais o caderno de esportes; os folhetins (Ilustrada da Folha e Caderno 2 do Estadão) nunca deixei de ler – mais por causa das crônicas, ou de alguns cronistas. Alguns, hem?! Porque tem cada cronista nesses jornais que dá até medo, sobretudo quando deixam de flanar e se metem a falar de política.

         E já que tenho evitado política, economia, editoriais e muitos articulistas nesses jornalões de São Paulo, e considerando ainda que a internet vai me abastecendo de notícias, pensei até em cortar as assinaturas dos grandes jornais impressos. Mas são assinaturas de décadas. E eu sou meio conservantista. Meio saudosista. E não tenho mais aquele vizinho camarada que me deixava ler os jornais de graça. Então vou deixando a coisa rolar…

          Porém, percebo que estou voltando realmente à leitura quase que exclusiva dos cadernos de esportes e folhetins. Como antigamente. Como na adolescência. Quando o mundo era um oceano de esperanças e possibilidades; um universo luminoso que cabia dentro das quatro linhas de um campo de futebol ou no cantinho do jornal – onde sempre havia a linguagem poética e comovente de um grande cronista… ou de um cronista qualquer.

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Um beijo…

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Um beijo… só isso.

Um simples beijo.

E era tudo!

*

Um domingo perfeito.

O sol.

Os amigos e o futebol.

*

Um dia inteiro,

só pra nós.

Os dois, a sós.

*

Era só mais uma viagem.

Normal.

Na saída, nenhum sinal.

*

A despedida,

sob o olhar dos amigos,

os pudores inimigos.

*

Um adolescente imberbe.

O rosto ofertado.

O beijo negado.

*

Estupidez:

“homem, que é homem,

não beijaria homem”.

*

A partida;

a viagem fatal.

Sem volta, a final.

*

Era só um beijo.

Nada mais.

E foi o beijo que eu não dei.

***

(Ao meu pai, finalmente, neste Dia dos Pais)

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Palavrório

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        A CRER nos especialistas, a língua portuguesa tem cerca de 400 mil palavras. O dicionário Houaiss traz apenas 230 mil delas – pouco mais da metade. E dizem que as pessoas, no geral, utilizam tão somente umas 3 mil para se comunicarem no dia a dia; portanto, menos de 1% de todo o léxico português, e em torno de míseros 1,5% das palavras dicionarizadas no país.

       Se a gente olhar para esses números, acaba concluindo que uma língua com 400 mil palavras é um exagero. Até os dicionaristas já cortaram isso pela metade. O “Aurelião” que é o “Aurelião” (assim, no aumentativo), talvez o mais famoso dicionário da praça, com quase cinquenta anos, começou com 115 mil verbetes e hoje (me corrijam se eu estiver errado!) anda em torno de 200 mil – exatamente a metade do léxico.

         E pra piorar (ou melhorar) um pouco as coisas, os linguistas dão como certo que as línguas são organismos vivos, logo, com tendência para o crescimento. O português se desgarrou do latim, agregou muita coisa do árabe, e por onde passou foi crescendo sem parar: chegou na África e incorporou um tanto de palavras africanas; chegou em Macau e deve ter recolhido outro tanto de vocábulos chineses; desembarcou no Brasil e ajuntou um punhado de termos do tupi-guarani.

        Agora, na era digital – era do “internetês” -, a língua de Camões vai adicionando termos novíssimos, como, por exemplo, “delete”, “site”, “internauta”, “email”, “loguin”, “blogue”, “blogueiro”, “blogado”… tudo coisa que vai acabar engordando mais ainda o vocabulário português e, consequentemente, os nossos dicionários. Com tantas palavras, velhas e novas, não é de estranhar que a gente acabe desconhecendo e deixando de usar muitas delas.

         Não sei se a língua vai crescendo sem parar ou se ela vai só mudando: surgem novas palavras hoje, mas algumas vão se extinguindo, ou ficando no passado. Dia desses dei com a palavra “inconsútil”, que vez ou outra encontro em algum texto mais formal. Não me lembro de ter usado essa palavra – nem na fala nem na escrita. E pra ser sincero, até bem pouco tempo eu nem sabia o que ela significava. E é uma coisa simples: “inconsútil” quer dizer “sem costura”, “sem emenda”, “maciço”.

          Fala a verdade, não é mais fácil (e mais compreensível) dizer “inteiriço”, ou “maciço”, em vez de “inconsútil”? Pois é… você tem aí duas ou três palavras – “inconsútil”, “inteiriço”, “maciço” – pra dizer a mesma coisa. Será que precisa tanto? Se um engenheiro disser que a laje da minha casa é “inconsútil”, imediatamente vou perguntar-lhe se ela é “inteiriça”, ou “maciça” – não confio nesse “inconsútil”; não durmo sossegado debaixo de uma laje dessas nem a pau… Só se for maciça.

         Por alguma razão (ou, como tudo na vida), algumas palavras vão ficando de lado, vão ficando para trás… até desaparecerem. Há muitas em vias de extinção. Quem é que ainda usa, por exemplo, “sorrelfa” em lugar de “dissimuladamente”, “silenciosamente”, “enganosamente”? Ninguém. “Sorrelfa” e “socapa”, que querem dizer a mesma coisa, não aparecem nem na língua falada nem na escrita – a não ser raramente, nos textos mais eruditos, ou com pretensão de.

     Tem outra palavra que também sumiu do mapa – não sei se era gíria, mas está dicionarizada: “bolinar”. Significava (ou significa ainda) o ato de apalpar o corpo do outro; era a tal da “esfregação” ou “malho” dos namorados, que hoje chamam de “pegação”, “ralação” – ou sei lá o quê. Só sei que já não ouço mais ninguém dizer que fulano ou fulana está “bolinando” beltrano ou beltrana – se bem que naqueles tempos o mais comum era mesmo só o “fulano” tentando bolinar a “fulana”.

         Como não era ainda o tempo dos motéis – e pouca gente tinha carro -, a “bolinação” geralmente acontecia nos escurinhos: do cinema e noutros escurinhos igualmente providenciais. Ainda moleque, me lembro que havia um lugar mal iluminado num canto da praça, que era o preferido dos namorados. O cantinho ficou conhecido como a “bolina”. Nós, os moleques, ficávamos olhando de longe, curiosos, vendo apenas o vulto dos casais atracados e imaginando coisas… A libido talvez já estivesse a caminho.

          Mas, falando em palavra que sai de moda, como a “bolina”, outro dia presenciei um bate-boca meio bizarro (os bate-bocas quase sempre são bizarros!). O vigia do bairro (que antigamente era chamado de guarda-noturno: outra palavra que vai desaparecendo!) estava discutindo com um jovem morador. O garoto, cuja bicicleta havia sido furtada, acusava o vigia de fazer uma patrulha deficiente, de andar pouco pelas ruas e ficar muito tempo parado na guarita instalada na esquina.

        O guarda se defendia dizendo que não; que fazia a ronda regularmente, conforme havia aprendido no treinamento dado pela firma de vigilância. Ele é um senhor aí dos seus quase setenta. É muito gentil, cerimonioso no trato com as pessoas: moradores e transeuntes. Muito embora de escolarização aparentemente mínima, básica, é desses indivíduos formais, bem-educados, que procuram falar corretamente – sem pedantismo; só por educação mesmo.

         No meio da contenda (contenda também é uma palavra que não tem muito futuro não!), o rapaz achou de dizer que o vigia deixava de fazer as rondas porque estava gordo demais. O homem ficou indignado. Ofendido. Disse que não se podia falar assim com os mais velhos. Que era falta de educação. O rapaz insistiu, dizendo que seu oponente estava mesmo fora de forma.

          Eu ouvia essa coisa toda a meia distância, meio tenso, parado na porta do consultório médico de onde acabara de sair – estava só vendo a hora em que o homem perderia a paciência; mas ele se segurava.

        A discussão esquentou, atingiu o auge e o garoto teve a infelicidade (grosseria, claro!) de chamar o guarda de velho barrigudo. O homem ficou apoplético (“apoplético” também não vai longe, não!). Se sentiu insultado; injuriado. Fiquei esperando – e tinha quase certeza – que ele iria retrucar no mesmo tom. Que chamaria o moleque de atrevido, ou malcriado; mas o guarda, para minha surpresa, lascou um enérgico: “Insolente!” – fazia tempo que eu não ouvia essa.

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O berra-vento

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         ERAM tempos austeros, aqueles. Em tudo. E também, naturalmente, no campo da moral e da religião. A tão propalada revolução dos costumes, a liberação sexual, e a tal da contracultura, com suas promessas de autonomia individual e liberdade, ainda estavam por vir – só chegariam na década seguinte. As inovações da igreja católica também: só viriam em 1965, após a conclusão do Concílio Vaticano II, convocado pelo simpático e vanguardista João 23.

         As datas religiosas, portanto, ainda eram guardadas (e cultuadas) com certo rigor – e até com certo fervor -, de acordo com a simbologia e importância de cada uma delas. Por exemplo, se fossem datas festivas, como o Natal e a Páscoa, os ritos, cultos e festanças eram realmente pra valer: ceias fartas, troca de presentes e Missa do Galo no Natal; aleluias, mais ceias, coelhos e chocolate na Páscoa.

         Mas se fossem datas, digamos, martirizantes, como, por exemplo, a paixão e morte de Jesus Cristo, celebrada na Semana Santa, o recolhimento era quase absoluto. Dias de reflexão e silêncio. Penitência. Jejum. Nada de extravagância, música, festa e outras expansões. Nem o sino da igreja tocava – era substituído pelas matracas. Na Sexta-Feira Santa então… respeito e silêncio rigorosos, inflexíveis: havia até os que nem conversavam nesse dia.

         Porém, um costume daquela época (hoje inteiramente abandonado) contrariava todo esse comedimento, essa quietude e reverência: era a tradição popular de “cantar para as almas”. Um grupo de pessoas, mesmo na Semana Santa, mesmo na sisuda e tristonha Sexta-Feira da Paixão, saía por volta da meia-noite em direção ao cemitério da cidade, com violões, zabumba e pandeiros, e lá ficavam por algum tempo entoando cânticos religiosos… e outros nem tanto.

          Era já uma tradição. Porque ninguém se opunha nem condenava tal prática, que, por óbvio, contrariava a moderação e parcimônia exigidas por aquela data católica – que requeria sisudez em vez de música. Mas era uma prática até coerente: afinal, eles reverenciavam (embora cantando) os mortos na semana em que se reverenciava também a morte de Jesus Cristo! E parecia que a igreja católica consentia naquilo; quem sabe até aprovasse; ou fizesse vistas grossas.

       Todavia, na pequena cidade do Sul de Minas – região onde esse costume era bem comum -, uma coisa chamava a atenção: o cântico para as almas, que às vezes entrava pela madrugada, era sempre feito por um pequeno número de pessoas; e eram na sua maioria negros. Por isso, na cidade pacata e provinciana, a tradição de “cantar pras almas” ficou sendo uma “coisa dos pretos” – algo talvez muito folclórico ou muito excêntrico para os católicos tradicionais.

        Os adeptos da cantoria residiam no bairro pobre da cidade; um bairro carente de tudo, ou quase tudo – até casas com paredes de bambu e barro, sem nenhum saneamento básico, existiam por lá naquela época. O lugar ficava numa baixada. A maioria (quase a totalidade) dos habitantes era de negros, trabalhadores braçais. Havia ali muita pobreza e até o nome do bairro era pejorativo – Carrascal: lugar onde nascem carrascos.

        Ninguém sabia – nem nunca se soube – a origem ou motivo desse nome. Mas a segregação (geográfica e étnica) era óbvia. No entanto, havia uma grande cordialidade entre os moradores desse bairro de baixo, os negros, e os habitantes do bairro de cima, os brancos – talvez fosse uma manifestação daquele traço do “brasileiro cordial” de que tanto falam (e tanto discutem) os historiadores.

         Pois bem… Nos dias de Semana Santa, e até na sexta-feira da morte de Cristo – que muitos chamavam então de Sexta-Feira Maior – quem cantava pras almas eram os pretos. De longe, ouvia-se a cantoria deles no cemitério, que ficava meio retirado, nos arredores da cidade. Uma espécie de serenata fúnebre. Porque, lá pelas tantas, alguns cânticos sagrados ganhavam até ritmo de música profana, ou popular; talvez um suave e respeitoso samba-canção, um sambinha de leve, um chorinho… nada exagerado.

        Diziam na cidade que os cantadores – que por sinal eram bem afinados! – além de tocar uma ou outra modinha que não era lá tão religiosa (mas nem era tão profana), gostavam de tomar uma cachacinha durante a cantarola – que era pra espantar o frio e o medo. Tudo isso tornava aquela prática um pouco mais folclórica; talvez popularesca demais para o gosto dos católicos-padrão.

          Mas, em meio à cantoria um som destoava. Era o som do berra-vento. Diziam ser um instrumento simples, com uma hélice de madeira amarrada à ponta de um cordão que, girado rapidamente em elipses, produzia o som semelhante ao mugido de um boi. Mas um boi sobrenatural. Na madrugada, soava longínquo, porém, assustador. Muitos não aprovavam. Alguns temiam. A cantoria no cemitério, vá lá, era tolerada; mas o berra-vento já parecia um exagero.

        Todavia, ninguém ousava opor-se a ele – nem os paroquianos nem o padre. Havia um certo mistério em torno do berra-vento. Seu som amedrontava crianças e até adultos na noite de Sexta-Feira Santa. Arrepiava. O instrumento permaneceu sempre envolto numa névoa de misticismo e superstição – alguns diziam que ele poderia ser de origem africana; e havia até os que achavam que o berra-vento era utilizado em rituais de macumba, candomblé e outros cultos não católicos.

          Ele era acionado espaçadamente: tocava uma vez por volta da meia-noite; depois, no meio da cantoria, e, outra vez, mais à frente, já no final. Os habitantes da pequena cidade esperavam em suspense pelo som cortante do berra-vento! Os cantadores sabiam que ele amedrontava a população. E faziam questão de manter o mistério; não revelavam o que era nem quem era o tocador daquele instrumento tão misterioso – como se ele fosse manejado por alguém de fora da turma; ou de fora do mundo.

        Muitos sabiam que quem manejava aquela geringonça nas noites de Sexta-Feira Santa era o Zé Preto. Mas ninguém confirmava. Nem negava. Os moleques olhavam-no com certa reverência, desconfiados de que ele poderia ter poderes especiais; que poderia “ter partes” com coisas do outro mundo; coisas do além. A desconfiança só amainava quando nos dias comuns, geralmente aos sábados, Zé Preto aparecia alegre e cambaleante pelas ruas da cidade, entupido de cachaça e dizendo asneiras engraçadas.

         Quando Zé Preto morreu – uma morte estúpida -, esmagado sob a roda do trator que ele próprio conduzia na fazenda onde trabalhava, o berra-vento passou a ser manejado pelo Anésio da Ana, que também sabia tirar o som estridente e assombroso do instrumento.

        Ocorreu, porém, que, depois da Páscoa, logo após estrear no manuseio do sinistro berra-vento, Anésio também veio a falecer – por força de um câncer agressivo, diagnosticado tardiamente.

          Por isso, na Semana Santa do ano seguinte quem tocaria o instrumento seria o caçula da turma, o Tião da Doca, que também sabia como produzir aquele som impressionante. Ele já estava, portanto, escalado para a próxima cantarola na Semana da Paixão de Cristo do ano vindouro. Só que, por uma dessas fatalidades que o destino, por acaso ou por capricho, sempre acaba nos reservando, Tiãozinho da Doca morreu afogado num dos rios que banhava a cidade – num dia de janeiro.

         O povo lamentou. Tiãozinho era querido. E seresteiro dos bons. O fato se deu quando ele tentava retirar uma rede de pesca que havia armado de madrugada, próximo a um redemoinho d’água, bem na curva do rio. Ali, costumavam pescar com varas, mas armavam também a redinha mata-fome e o espinhel, pra pegar bagre, traíra, curimba e o que viesse… Muitos se alimentavam dessa pesca precária.

         Aquela fatalidade pegou todo mundo de surpresa. Não tinha explicação. Tiãozinho da Doca sabia nadar muito bem. Era bom pescador. Tarimbado. Fazia aquilo quase que semanalmente. E tem mais: conhecia aquele trecho do rio como a palma da mão. Uma pena! Ninguém chorou tanto e tão sentido a morte inesperada de Tiãozinho quanto sua mãe, dona Aparecida, que na juventude era a Cidoca, e que depois de velha virou dona Doca.

          Fato é que a morte assim tão precoce do Tião da Doca (um pé de boi pra trabalhar no cafezal!), além de muito sentida, acabou ficando sob suspeita, estranha, sem uma explicação plausível. E o mais lamentável é que num curto espaço de tempo – apenas dois anos – lá se foram três amigos; e praticamente um atrás do outro. A turma andava impressionada, cabreira… E ninguém mais se habilitou a tocar o berra-vento; nem sequer tocavam no assunto.

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