Futebol e política

         TUDO bem que uma coisa é uma coisa e outra coisa é outra coisa. Por uma daquelas leis tradicionais da física, dois corpos distintos não podem ocupar o mesmo espaço – se bem que ultimamente a física quântica tem bagunçado essas certezas todas da física clássica. E na filosofia é também mais ou menos assim: o princípio de identidade diz que uma coisa não pode ser e não ser ao mesmo tempo – ou ela é, ou não é.

         Tem coisas que, realmente, não se misturam nem com reza braba: por exemplo, água e óleo. Se repelem. Árabes e judeus também não se juntam. Escuto dizer ainda que amizade e negócios devem andar sempre separados. Quem nunca ouviu aquele chavão: “Amizade, amizade; negócios à parte”.

         Nestes tempos de Copa do Mundo, e de Brasil politicamente polarizado, tenho ouvido bastante que futebol é uma coisa e política é outra, e que ambos devem permanecer cada um no seu canto, ou no seu campo. Se bem que aqui na América Latina já usaram muito o futebol pra fazer política (e até pra animar ou disfarçar ditaduras). Futebol e política são, de fato, coisas distintas; mas de vez em quando eles se tocam.

         Outro dia mesmo, na internet, presenciei (virtualmente, claro!) um bate-boca lascado num grupo de WhatsApp por causa do Pelé. De um lado, diziam que o Rei do Futebol, com sua popularidade e sua fama, deveria ter feito (e nunca fez) oposição à ditadura dos militares nos anos 60 e 70. Do outro, retrucavam que isso não tinha nada a ver: o Pelé era apenas um jogador de futebol, sua tarefa deveria ser simplesmente jogar bola e pronto; coisa que ele fazia como ninguém.

        Na inesquecível Copa de 70, no México, dizem que a política entrou em campo pra mexer e remexer no futebol. Na época, teve até aquela história (mal contada) de que o presidente Emílio Garrastazu Médici teria exigido a convocação do centroavante Dadá Maravilha. Além do que, houve a esquisita demissão do técnico João Saldanha, às vésperas da Copa, porque, segundo diziam, ele era comunista e os militares tinham mais ódio de comunista do que do capeta.

         O time foi então dirigido pelo Zagallo (que não sei se era comunista, se era capitalista, se era anarquista, se era contra ou a favor da ditadura – ou se não era nada disso!) e trouxe o tão cobiçado caneco da Jules Rimet; que acabou sendo roubado lá na CBF e nunca mais apareceu. O time era do Zagalo, mas os jogadores eram conhecidos como as “Feras do Saldanha”.

          Por causa de política, desde a Copa de 2014 venho percebendo que muitos brasileiros andaram (e talvez alguns ainda andem!) torcendo contra a seleção brasileira. Quando não, permaneceram frios, quase indiferentes, assistindo aos jogos do Brasil sem paixão, como se assistissem a um Marrocos versus Arábia Saudita; pouco se lixando para a sorte da seleção-canarinho. Em 2014, os mais eriçados politicamente – imaginando combater o governo petista -, até repetiam aquele bordão do “Não vai ter Copa”.

        Agora, neste Mundial de 2018, aparece de novo o México no nosso caminho pra fazer a gente ver futebol e lembrar de política – exatamente como em 1970, quando muitos brasileiros devem ter torcido pela derrota da seleção porque isso representaria também uma derrota da ditadura militar; assim como em 2014 alguns devem ter torcido pela derrota do escrete nacional porque isso seria uma derrota do lulo-petismo.

       Todavia, no jogo de ontem, creio que a torcida esteve do lado dos canarinhos, porque quando chega a hora do mata-mata na Copa do Mundo dizem que a alma brasileira fala mais alto. Os mexicanos botaram uma pressão terrível sobre a nossa seleção nos vinte minutos iniciais – pareciam a “laranja mecânica” da Holanda de Rinus Michels e Johan Cruijff em 74 – mas a defesa aguentou firme, o Neymar desencantou e o baile asteca parou nos dois gols do craque; que nos põem agora diante da Bélgica.

      O México perdeu ontem, mas ganhou anteontem. Só que a vitória deles foi em outro campo: elegeram nas urnas o esquerdista Andrés Manuel López Obrador, que promete brecar o neoliberalismo e acelerar a inclusão dos pobres de lá. Enquanto isso, vamos acelerando as políticas neoliberais e brecando os pobres daqui. Eles elegem um presidente popular; nós derrubamos a que tínhamos – portanto, no campo da bola metemos 2 a 0 nos mexicanos, mas no da política foi outro 7 a 1… pro México.

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O pênalti e o bicudo

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          FAZ tempo, passei por um caminhãozinho bastante surrado, ano sei lá o quê, daqueles antigos Mercedes Benz – ou era um fenemê (FNM)? – em cujo para-choque se lia: “Me criticar é fácil, o difícil é ser eu”. Achei graça: fiquei imaginando o cara levando porrada a vida toda, lutando com ela do que jeito que dava, chacoalhando dentro daquele caminhãozinho capenga… e ainda sendo criticado. Só quem tá dentro da própria pele é que sabe onde a roda pega. Ou, como diz o Caetano Veloso naquela música Dom de iludir, “Cada um sabe a dor e a delícia de ser o que é”.

            Agora, foi a vez do craque Neymar: depois de receber críticas de tudo quanto é lado, o nosso camisa 10 vai lá no seu Instagram – ou em alguma outra ferramenta dessas, da internet -, e desabafa dizendo uma coisa parecida com aquela filosofia de para-choque: “Falar até papagaio fala, agora fazer… poucos fazem”. Resultado: estão criticando também o rapaz por causa dessa frase, que, segundo alguns, teria sido uma afirmação infeliz – e parece que foi mesmo; um pouco infantil.

         Imagino que, mesmo com todo aquele talento, com toda aquela fama e dinheiro, ainda assim, seja difícil ser o Neymar. Porque é sempre muito difícil ser a gente, e viver aprisionado dentro da nossa pele. Aquela frase no caminhãozinho velho, embora meio irônica, faz sentido, e carrega qualquer coisa de verdadeiro; principalmente a conclusão: o difícil é ser eu.

            Tenho visto aí nas folhas e nas mídias alguns adjetivos nada mesurosos para definir o Neymar: já ouvi dizer que ele é mimado, birrento, marrento, cai-cai, fingido, fútil… e até mau-caráter houve quem dissesse que ele é. Não o conheço. Não acompanho sua carreira – a não ser por um ou outro comentário da crônica esportiva, por um ou outro lance especial dentro de campo, sobretudo em alguns momentos mais visíveis, como, por exemplo, na campanha que ele liderou e que deu ao Brasil o primeiro título de campeão olímpico.

            Não posso, portanto, endossar as críticas ao Neymar – nem tenho como rebatê-las. Mas, do dentista ao manobrista andei ouvindo um sem-número de acusações (e censura) ao craque brasileiro; quase sempre seguidas da comparação com o português Cristiano Ronaldo – que também mal conheço! – a quem são dirigidos elogios entusiasmados; a quem apontam como um cara exemplar: dentro e fora de campo. Aqui também não posso dizer nada – não acompanho a carreira, muito menos a vida do jogador português.

            Por conhecer tão pouco e quase nada do Neymar, vou fazer apenas uma observação: achei muita picaretagem simular aquele pênalti contra a Costa Rica. Chego a dizer mesmo que aquilo foi ridículo, irritante até – uma encenação grotesca. E o juiz entrou na dele. Se não fosse o recurso tecnológico do tal “árbitro de vídeo”, teríamos ganhado da modesta Costa Rica na mão-grande, ou seja, “roubado”. Coisa feia! Se o Brasil vier a levantar o caneco do hexa, aquele pênalti que não foi pênalti ficaria como uma nódoa na conquista brasileira.

           Mas, acredito que na história das Copas do Mundo devem ter havido muitos lances assim – de esperteza; de astúcia. Tem até uma história parecida, do grande Nílton Santos, se não me engano na Copa de 1962, que teria derrubado um adversário dentro da área brasileira – jogando contra não sei quem – e imediatamente deu dois passos pra fora da área sem que o árbitro notasse, transformando o pênalti numa simples falta, que não deu em nada.

            A “esperteza” mais famosa de todos os tempos, de longe, foi a do Maradona. Contra a Inglaterra na Copa de 1986. No lance decisivo, ele ajeitou a bola com a mão e a cabeceou pra dentro da rede dos ingleses; depois, veio com aquela história de que teria sido “la mano de Dios”. Com isso, os argentinos beliscaram a Copa no México, o gorduchinho “Pibe de Oro” virou herói (ou santo) nacional, e tudo ficou por isso mesmo: “según los diseños divinos”.

          Volto ao Neymar. Não gostei daquela encenação tentando cavar o pênalti – mas, como se viu, até os craques consagrados fazem das suas. Não dá pra crucificar o rapaz por aquele lance. Até porque, pior do que o Neymar, foi ver o Galvão Bueno, o Casagrande, o Ronaldo Fenômeno e até o Arnaldo (que já foi árbitro de futebol e deve, ou deveria, entender da matéria!) sustentando que realmente houve pênalti – e sustentaram isso mesmo depois de os sucessivos replays e as imagens eloquentes do “árbitro de vídeo” terem revelado que não houve nada; puro teatro.

             A gente entende que a Rede Globo, seus funcionários e agregados queiram ganhar a Copa do Mundo de qualquer jeito. Ou, pelo menos, chegar à final. Pois o investimento feito pela emissora para transmitir o torneio com exclusividade deve ter sido vultoso, monstruoso. E uma eliminação precoce do Brasil, além do desastre futebolístico, representaria prejuízo incalculável pra família Marinho, cuja proximidade com a CBF e a Fifa sempre foi muito criticada… e muito suspeita.

           Portanto, quando saiu aquele bicudo salvador do Philippe Coutinho, que balançou as redes da Costa Rica e fez o Tite rolar no chão, o povo da Globo festejou mais que todo o mundo: estávamos praticamente garantidos nas oitavas de final – e a dinheirama das transmissões exclusivas continuava garantida também. Foi como um bicudinho de “Dios”. Porém, deu a sensação de que o gol era mais da Rede Globo que da seleção brasileira; tamanha a insistência e a caradura com que os globais queriam passar a perna nos costa-riquenhos.

            São coisas assim – estrelismos e interesses extrafutebol -, que acabam desanimando a turma. Que tiram boa parte daquele ímpeto (e daquela paixão) com que antes torcíamos fervorosamente pela seleção-canarinho – como se fôssemos mesmo uma “pátria de chuteiras”. A encenação do Neymar no calor do jogo, eu até entendo. Não a justifico, mas entendo. Já o mico que a trupe da Globo pagou, insistindo em ver pênalti onde ninguém viu nada, esse não tem desculpa. Coisa feia, deselegante!… querendo roubar da inofensiva Costa Rica!

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Cabelo de craque

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           A ESTRELA do time do Felipão em 2002, o craque Ronaldo Fenômeno, foi pra Copa do Mundo do Japão/Coreia com um corte de cabelo pra lá de esquisito. Era aquele corte que no meu tempo de moleque chamavam de “escovinha”: raspava-se toda a cabeça, com máquina-zero, deixando só um tufinho de cabelo na frente. Ficou ridículo no Ronaldo: dentuço, com aquele chumaço de crina logo acima da testa, resultou numa figura infantil, ou meio aparvalhada, que lembrava aqueles humoristas de humor pastelão.

          Mas a coisa funcionou. Pois o Brasil trouxe o pentacampeonato e o Ronaldo foi o artilheiro da Copa – se não me engano. Mas que era um corte desajeitado, isso era. Infantilizado. Estranhei que o Filipão não tenha implicado com ele. Paizão e moralizador como era, técnico-família, seria previsível que desse uma dura no garoto. Mas já tinha aquele precedente da França, quando o Ronaldo passou mal antes do jogo; o rapaz estava voltando de uma cirurgia brava no joelho; o cara era um ídolo… acho que o Filipão preferiu ficar na dele.

         Eu mesmo já cortei o cabelo daquele jeito do Ronaldo (ou parecido com), tipo “escovinha”. E modéstia à parte, acho até que não ficou tão mal: só que eu tinha apenas quatro anos de idade. Prova de que a coisa não estava muito fora de lugar é que outro dia uma prima se lembrou desse antigo corte e me mandou uma foto da época, pelo WhatsApp, dizendo embaixo: “Olha o charme do cabelo!”. Lá estava eu com a minha escovinha, sentadinho num banco, todo imponente, anelzinho no dedo, sorrindo feliz da vida… como um craque.

            Pois não é que agora, na Copa da Rússia, o craque do Tite, maior estrela do escrete auriverde, me aparece diante da Suíça no domingo com um corte de cabelo que conseguiu superar a escovinha do Ronaldo – e com folga. O corte do Ronaldo era feio, mas, pelo menos, era definível, e tinha até nome: “escovinha”. Esse do Neymar é tão esquisito que não dá nem pra definir: a  mim me pareceu mais uma calopsita. Acabou virando meme na internet: recebi uma piada dizendo que ele jogou tão pouco no domingo que parecia a Dercy Gonçalves em campo.

              O outro corte que o Neymar andou usando no começo da carreira – aquela crista de moicano – não era lá essas coisas, mas era bem melhor. Pelo menos tinha nome. Dava pra definir. E muita gente, muitos jogadores, sobretudo a criançada, acabou imitando o novo ídolo. O corte fez sucesso; fez escola. Além do mais, poderia ser considerado politicamente correto: uma homenagem aos povos indígenas – se bem que indígenas alienígenas – dos Estados Unidos. Mas, enfim… povos massacrados também.

         Essa coisa do cabelo é um troço engraçado. É bíblico. A força do Sansão estava exatamente no cabelo. Por isso, muita gente parece entender que a juba (abundante no rei das selvas também!) é sinal de virilidade, de força, de vitória. Eu mesmo, com minha juba avantajada (que até há pouco era “negra como a asa da graúna”!), eu que não tenho força nem vitórias, fui procurado uma vez por um jovem, bem jovem, de boa estampa, tipo galã, que andava cismado com a queda de seu cabelo – estava cabreiro com a genética: o pai e o avô eram calvos.

          Veio me perguntar qual era o segredo: se eu usava algum produto ou fazia algum tratamento especial nos cabelos, que tinham tanto volume e tanto brilho. E quis saber qual era o shampoo que eu costumava usar. Percebi logo de cara a angústia do garoto. Minimizei o problema. Esclareci que não usava nada de especial, e o shampoo era sempre aquele que estivesse à mão, lá no banheiro – nem a marca eu saberia dizer qual era. Minimizei também a questão genética, dizendo que tive um avô cabeludo, mas que o outro era careca.

        Notei que ele ficou meio decepcionado. Era óbvio que esperava alguma fórmula mágica. Acabamos a conversa comigo dizendo a ele que não precisava se martirizar, pois era jovem e ainda tinha muito cabelo. Como consolo, esclareci que os cabelos eram importantes apenas agora, na idade dele, quando talvez fosse preciso fazer boa-figura, até pra conquistar simpatias e outras coisas, porém, mais tarde, quando tudo já estivesse conquistado (ou fosse indiferente), a calvície não seria mais um problema – já não haveria muito o quê fazer com os cabelos.

         Mas cabelo de craque deve ser outra coisa. Porque a toda hora aparece alguma novidade como essa do Neymar. É uma coisa muito pessoal, claro. Cada um usa o cabelo do jeito e da cor que quiser. Ninguém tem nada com isso. Além do que, pode ser até que a namorada do cara (bonita, hem?!) tenha achado tudo muito fofinho – um charme. Vai saber. E pode ser que seja apenas uma inofensiva brincadeira do Neymar, dessas que não merecem ser levadas tão a sério; nem mereceriam tantos comentários – mas é que o mau gosto incomoda mesmo.

            Enfim, me desculpando pelo clichê, digo que o importante é jogar bola. E bola o Neymar tem, até de sobra. Considero-o um daqueles craques geniais que surgem apenas de tempos em tempos; de longe em longe. Ele pode muito bem liderar a campanha do hexa. É craque e é ídolo. É só fazer o que sabe que a turma esquece rapidinho o cabelo dele. Torço pra que tenha a mesma sorte, e a mesma competência, que o Ronaldo Fenômeno e sua escovinha tiveram em 2002. A juba é secundária – tão secundária que se pode até estragá-la.

         Pessoalmente, não vejo muita graça nessas excentricidades. Nem importância alguma. Fazem parte. Na sociedade do espetáculo as celebridades se dão o direito a tudo. É normal. Mas naquela que foi a seleção brasileira de todos os tempos – o nosso dream team que trouxe o caneco definitivo da Jules Rimet – que eu me lembre não havia nenhum cabelinho como esse do Neymar, nem como aquele do Ronaldo: do goleiro ao ponta-esquerda, do camisa 1 ao camisa 11, do Félix ao Rivelino, era tudo cabelo normal; mas o futebol, hein!?… Esse pairava muito acima da normalidade.

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Gol contra

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           PENSEI que fosse só comigo; felizmente, não é. A maioria dos brasileiros (53%) disse ao Instituto Datafolha que não está nem aí com a Copa do Mundo deste ano, na Rússia. Pra se ter uma ideia, no meu caso, até ontem eu nem sabia que o Mundial começaria hoje; e só agora, depois de consultar um Guia da Copa, que me chegou no meio do jornal, é que fiquei sabendo que a estreia da seleção brasileira será no próximo domingo, 17, contra a Suíça.

           E o pior é que isso acontece justamente quando a nossa seleção, conforme ouço dizer, está muito bem preparada pelo Tite, e é uma das favoritas pra vencer o Mundial. Como explicar então esse desinteresse todo – meu e da maioria dos brasileiros? Não tem explicação. Ainda mais naquele que é considerado o “país do futebol”, do futebol-arte, cinco vezes campeão do mundo: cinco títulos indiscutíveis, conquistados fora de casa, na bola e na raça.

              Leio agora nas folhas e nas mídias que até as tradicionais camisas verde-amarelas, que já foram um orgulho nacional – e que renderam à seleção brasileira o apelido carinhoso de seleção-canarinho – estão encalhadas nas lojas de material esportivo. O pessoal não quer comprá-las, nem usá-las, porque elas ficaram identificadas com aquela turma que desde 2014 foi pra rua apoiar o impeachment da Dilma, fazer selfie com polícia e pedir intervenção militar no Brasil.

             Alegam que a camiseta verde-amarela virou símbolo de gente alienada. Gente que serviu de massa de manobra pra elite brasileira dar um golpe de estado e pôr o país nas mãos de um bando de traíras, que está entregando o Brasil ao imperialismo do Norte. Por isso, preferem comprar a camisa número dois da seleção, aquela azulzinha, pra deixar bem claro que não fazem parte da corrumaça que serviu de bucha de canhão aos golpistas. (O escritor Marcelo Rubens Paiva, por exemplo, jogou fora suas camisas verde-amarelas e vai assistir aos jogos da seleção com a camisa do seu Corinthians.)

         É…, velho, pelo jeito a coisa desandou. E começou em 2014, quando a mídia, preparando o golpe, desceu o pau na Copa do Mundo, nos estádios da Copa e no governo que trouxe a Copa para o Brasil: “melaram” o clima da Copa pra “melar” o governo; vê se pode! Todos se lembram do “Não vai ter Copa!” e dos xingamentos suportados por Dilma Rousseff lá no Itaquerão, na abertura do Mundial: aquilo já não tava cheirando bem; era indício de que as coisas desandariam. Tinha muito brasileiro torcendo contra o Brasil. E depois ainda vem aquele 7 a 1 pra Alemanha…

             Difícil precisar as causas desse desânimo todo. Já li muita coisa tentando explicá-las: uns acham que é porque os jogadores da seleção não têm identificação com a torcida, pois são expatriados, desconhecidos, que jogam no exterior; outros acham que é por causa da corrupção no futebol; há quem diga que esse monopólio da Rede Globo na transmissão dos jogos (obtido em meio a denúncias de corrupção!) já encheu o saco e não empolga mais ninguém; e muitos acreditam que o futebol mudou, logo, terá mudado também a paixão do brasileiro.

               Vai saber! Tudo isso pode ser verdade. Pode ser um conjunto de fatores. E pode ser porque tudo muda, e uma hora a relação dos brasileiros com a seleção-canarinho também mudaria. Podem ser ainda as condições de vida, que pioraram por aqui e tendem a piorar… Enfim, pode ser muita coisa. Fato é que algo mudou: e pra pior. Porque é notório o humor deprimido, a indiferença e até o rebaixamento da autoestima do brasileiro em relação à Copa, à seleção… e a tudo.

              Mas também, pudera!, aprontaram cada uma com o país… e com o povo. Como é que a gente vai manter o amor-próprio e o orgulho nacional lá em cima se os “de cima” estão entregando tudo o que a gente tem, de mão beijada, para os “de fora”, e ferrando com os “de baixo”? Veja o que aconteceu com o pré-sal; veja o que estão querendo fazer com a Eletrobras… até um pedaço do território nacional (Base de Alcântara) estão entregando para os Estados Unidos. Aí é gol contra na certa!

            O cronista e dramaturgo Nélson Rodrigues dizia que superamos o nosso complexo de inferioridade (que ele chamava de “complexo de vira-lata”) quando ganhamos a primeira Copa do Mundo em 1958, na Suécia. E o fizemos de maneira brilhante, encantadora – dizem. E que de lá pra cá passamos a acreditar no nosso futebol, no nosso potencial, na nossa capacidade de realizar grandes coisas… E dessa maneira fomos ganhando admiração, respeito e, sobretudo, autoconfiança.

           Mas o diabo é que agora nem o futebol conseguirá fazer isso. Ou, pior: rejeitamos o futebol e, portanto, não será por meio dele que haveremos de recobrar a autoestima e a autoconfiança perdidas. E tudo isso num momento bastante difícil, porque o país anda raivoso, politicamente irritado, e fica quase impossível pensar um projeto de nação com essa divisão toda, com essa barulheira infernal – logo, a autoestima despenca mesmo; vai lá embaixo.

            Já andam até dizendo por aí que o viralatismo rodriguiano voltou. Ou será que é só um pessimismo passageiro (e necessário)? Não sei. Não entendo muito dessas coisas que os acadêmicos chamam de “espírito coletivo”, “psicologia de massas”, “sentimento nacional”… Pra dizer a verdade, não entendo nada. Isso é coisa para os doutores e “entendidos”, como dizia também o Nélson Rodrigues. É assunto pra sociólogo, antropólogo, cientista político… essa gente.

           De minha parte, com camisa amarela ou sem camisa amarela; com camisa azul ou sem camisa azul; ou até com a camisa tricolor do São Paulo (achei boa essa ideia do escritor!); ou dentro de qualquer uma dessas camisetas puídas que costumo usar em casa; ou mesmo sem camiseta nenhuma vou continuar torcendo pela seleção brasileira. Uai! Por que não? E talvez até assista aos jogos do Brasil; talvez comemore os gols do Neymar e cia.; talvez tome uma brahminha bem gelada com algum tira-gosto na hora dos jogos… Talvez!…

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1968, finalmente terminou

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           MAIO de 1968 ficou famoso pela revolta dos estudantes parisienses, que ergueram barricadas, enfrentaram a polícia, puseram Paris de ponta-cabeça e quase fizeram com a capital francesa aquilo que Hitler queria fazer em 1945: pôr fogo. Só que as armas agora eram cartazes, slogans, paus e pedras. E tudo para protestar contra o que chamavam de “sistema”. Suas lutas se traduziam num lema claramente rebelde: “É proibido proibir”. A rebeldia utópica dos estudantes franceses expressava-se também na frase: “Seja realista, peça o impossível”, ou “Soyez realistes, demandez l’impossible“.

           O movimento seduziu também sindicatos e trabalhadores, espalhou-se pela Europa e desembarcou naturalmente na América – onde fervilhava a luta pelos direitos civis nos EUA – contestando o “sistema”, que era representado pelo capitalismo; por qualquer forma de autoridade tradicional; pelas guerras imperialistas (especialmente a do Vietnã); e pela repressão sexual. Por isso, brandiam: “Faça amor, não faça a guerra”. A cultura do “paz e amor” era uma insurreição anticapitalista, libertária e pacifista. Embalados pelo estreante rock ‘n’ roll, o movimento estudantil exigia mudanças estruturais profundas: no regime, nos valores, no comportamento…

             Pretendiam revolucionar tudo, ou quase tudo – da economia às convenções sociais. Por isso, as revoltas ficariam conhecidas como o “movimento da contracultura”. Contestava-se todo o status quo em nome de alguns ideais e estilos: libertação sexual, “amor livre”, pílula anticoncepcional, comunidades hippies; moda unissex; homens cabeludos; jeans agarradinho; a revolucionária minissaia; o biquíni e as tangas; o iê-iê-iê; a Tropicália; os Beatles; Woodstock; a liberação das drogas… e, enfim, tudo o que contrariasse a autoridade (qualquer autoridade), os costumes tradicionais e a lógica do “sistema”.

          A dimensão global do movimento fazia crer que, depois de 1968, o mundo nunca mais seria o mesmo. Os protestos e reivindicações explodiram, instantaneamente, sem que tivesse havido qualquer combinação prévia, em todo canto do planeta.

            No Brasil, além da pauta, digamos, globalizada, os estudantes tinham um motivo a mais para aderir às agitações que chacoalharam o planeta a partir de maio de 1968: a ditadura que se havia instalado em 1964. Tal como em Paris, aliados ao movimento sindical, aos artistas, intelectuais e políticos de esquerda, os estudantes brasileiros também lutaram com unhas e dentes contra o regime militar, contra a autoridade estabelecida, e contra a tradição dos costumes.

             Fazendo um balanço de toda aquela agitação, que começou em Paris e espalhou-se pelo mundo, o jornalista Zuenir Ventura, vinte anos depois dos acontecimentos, publicou em 1988 o famoso livro que se tornou um clássico sobre período: 1968: o ano que não terminou. O título dessa obra (assim como seu conteúdo) sugere que as reivindicações de estudantes e trabalhadores – pelo mundo afora e também no Brasil -, constituiriam uma pauta permanente; ou seja, 1968 se projetaria em torno dessa pauta por muitos e muitos anos…

            O movimento da contracultura completa agora – neste maio que por sinal termina hoje – exatos cinquenta anos. Hora de fazer novo balanço sobre aqueles “Anos Rebeldes”. E o clássico livro do Zuenir Ventura, que foi um fenômeno editorial em 1988, já está na praça outra vez – relançado agora pela editora Objetiva. Eu que li a primeira edição há trinta anos, pela Nova Fronteira, corri a ler (na verdade, reler!) esta edição de 2018, cuja capa traz a epígrafe otimista: “50 anos de rebeldia”. Sei não!

         O competente e simpático Zuenir continua achando que 1968 agitou o mundo e deixou heranças definitivas. E acha ainda que não terá sido apenas um ano a mais, e sim um “personagem”, que teima em não sair de cena. Pode ser. O jornalista, que investigou a fundo tudo aquilo – e que até viveu aquele espasmo da história -, tem autoridade pra dizê-lo. Mas eu, pessoalmente – que era moleque na época, que não entendi e não investiguei nada -, peço licença pra discordar do extraordinário escritor (e até do título de seu livro): 1968 é um ano que terminou, sim.

           É claro que “de tudo, fica um pouco”, como dizia o Carlos Drummond de Andrade. Mas a liberação sexual, o “amor livre” e a pílula sofreram e precisaram se reinventar após a epidemia de AIDS nos anos 80; os hippies viraram conservadores pais de família e trocaram suas comunidades pelos confortáveis apês individuais; a moda transgressora dos anos 60 sucumbiu ante a cafonice dos anos 70; a minissaia, o biquíni e as tangas acabaram “desmoralizados” pela microssaia, pelo fio dental e pelo tapa-sexo; o iê-iê-iê, a Tropicália e o rock and roll conheceram a sombra do heavy metal e do eletrônico; o êxtase das drogas deu no pesadelo do narcotráfico… E o capitalismo?, e a autoridade?

           Bem… o capitalismo, ao que se saiba, continua aí: firme e forte. Ou mais forte do que antes. Pode ter mudado de cara; mas talvez esteja até mais selvagem: mais financista e menos produtivo. As utopias coletivas e anticapitalistas desmoronaram, ou refluíram, junto com o Muro de Berlim, em 1989. As guerras imperialistas, como aquela do Vietnã, continuaram a céu aberto, e até mais assépticas e letais – os EUA e seus aliados europeus mataram há pouco dois milhões de pessoas no Iraque sem sujar as mãos de sangue.

           A autoridade também se manteve forte e rija. Nesse quesito, os estudantes franceses, ao menos, foram mais bem-sucedidos: apressaram a troca do conservador Charles de Gaulle pelo progressista François Mitterand. Mas no Brasil, não. A ditadura militar esmagou as passeatas, os discursos, os cartazes e toda a rebeldia universitária que queria tomar o poder – e fez isso logo no final de 1968, com a edição do AI-5 em dezembro; e a bem da verdade, ainda continuamos assombrados pelo espectro do militarismo.

           Creio, pois, que apesar de toda aquela rebeldia (saudável e necessária) dos anos 60 – e da agitação que explodiu simultânea e espontaneamente em várias partes do mundo; apesar da contracultura e de alguma revolução nos costumes, que realmente foi definitiva; enfim, apesar de 1968 e suas manifestações simbolizarem um momento histórico importante e inesquecível, me parece – com todo o respeito – que isso tudo passou. Pode ser apenas pessimismo meu, claro.

         Mas vivemos hoje um momento histórico definido pelo neoconservadorismo e por uma profunda distopia. As utopias coletivas que agitaram os anos 60 – com as ideias de Sartre e Marcuse à frente -, praticamente desapareceram e já não seduzem mais os jovens; prevaleceu o individualismo. O sonho da sociedade igualitária parece ter sucumbido ante a sedução consumista. Lamentável! No fundo, no fundo o de que precisamos mesmo é de um outro 1968; pois aquele, infelizmente, terminou – e há sinais de que não tenha terminado muito bem não.

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O homem que falava sozinho

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             É UMA história até meio engraçada. Meio esquisita. O amigo do Marcão chegou pra ele com a maior naturalidade do mundo e disse “Uai, Marcão, cê deu pra falar sozinho, agora?”. Eles estavam no vestiário da quadra, se aprontando para o futebolzinho das terças-feiras. O Marcão ouviu aquela observação e continuou amarrando o cadarço da chuteira society – nem ligou para o que disse o outro. Bateu os pés no chão umas duas ou três vezes, pra ver se o equipamento estava bem firme, bem amarrado, e, sem sequer olhar pro amigo, retrucou “Cê tá doido, Ari?”.

       Dali uns dias. Duas semanas, nem isso, o Marcão tava na firma, finalzinho de expediente, e seu colega de dez anos de trabalho, sempre na mesma seção, perguntou “Marcão, que que ocê tanto fala sozinho?”. A resposta foi mais ou menos aquela da quadra: “Tá louco; eu lá tô falando sozinho, por acaso?”. O outro disse que sim; o Marcão disse que não; o outro insistiu; o Marcão negou, e tudo ficou por aí mesmo. Seu amigo era meio gozador. Mas aquilo acendeu uma luzinha amarela na cabeça do Marcão: era a segunda vez em tão pouco tempo que lhe diziam que andava falando sozinho. Será possível!

             Chegou em casa meio ronceiro. Desconfiado. Rodeou, rodeou a mulher e disse, em jeito de quem nem diz nem pergunta, de quem quer e não quer saber nada, “Rosilene, cê acredita que o Ariovaldo, outro dia na quadra, e o Waltinho, hoje na firma, me disseram que eu ando falando sozinho?”. Disse isso e ficou esperando a resposta – espreitando: como quem não espera resposta nenhuma. A mulher olhou pra ele, olhou pros lados, sem saber o que dizer; por fim, falou “E daí?”. Ele arrepiou. “Daí, o quê, cê acha uma coisa dessas; dizer que eu tô falando sozinho?”.

           Para desespero dele, a mulher confirmou o fato. E ainda disse “Faz tempo!”. Ele ficou claramente desconcertado. “Faz tempo, quanto?”. A mulher desconversou, percebeu a contrariedade nele. Saiu da sala pra cozinha. Voltou da cozinha pra sala. Ele sempre atrás, querendo e não querendo saber. Ela minimizou o fato; disse que não sabia desde quando. Ele não se conformava. Nunca tinha percebido aquilo. Insistiu nos detalhes. Ela falou que às vezes ele só balançava a cabeça, como quem diz sim e não; às vezes gesticulava ligeiramente com as mãos; e uma ou outra vez soltava um leve sussurro, bem leve!, como se estivesse falando por dentro.

       Ele então se desesperou de vez. Além de falar consigo mesmo, de si para si, sussurrando pro vento, ainda tinha aquela: ficava gesticulando com as mãos e com a cabeça. Como se estivesse num teatro. Não se conformava. Alguma coisa andava errado. E o pior de tudo era que ele nunca tinha dado por isso. Ele próprio não sabia que falava sozinho. Vai saber desde quando; vai saber quanta gente não andou rindo dele, e achando que ele era doido; ou que estava caducando antes do tempo; vai saber!

          Nem dormiu direito naquela noite. Lembrou-se de um velho da sua cidade que andava pela rua falando sozinho. Todo o mundo achava que o velho era matusquela. Caduco. O homem assumia ares severos, como se tratasse assunto grave – mas não falava coisa com coisa. Por isso, não lhe davam muito crédito; ninguém o levava a sério. Muitas vezes era objeto de chacota. O Marcão mesmo – então criança -, achava esquisito demais aquele velho que falava para o nada; mas falava como se estivesse falando de verdade, para alguém, para algum fantasma que só ele via – tamanha era a convicção com que argumentava.

          E aí começavam as fantasias sobre o velho, aqueles boatos de pequena cidade interiorana. Diziam que ele ficara assim porque era muito inteligente. Porque lia demais. Outros diziam que foi desgosto com a família: vivia sozinho há muito tempo. Achavam também que era porque ele havia sido benzedor e ainda conversava com o além, com o desconhecido… Essas coisas sem pé nem cabeça. Mas era a idade mesmo; ele havia caducado. Até hoje, quando as pessoas, por alguma razão, se lembram dele sempre o identificam como “Aquele velho que andava pela rua falando sozinho, coitado!”.

        “Será que eu tô assim, tô doente, caducando?”, pensava o Marcão, na cama. Caduquice não podia ser. Era cedo. “Aquele velho era muito mais velho do que eu sou hoje”. “Será que não é esse tal de Alzheimer precoce?”. Rolava na cama pra lá e pra cá, fritando que nem bife. E nada de sono. “Qual seria a idade do velho que falava sozinho, hem?”, se perguntava. “Será que a idade dele não regulava com a minha hoje; com essa que eu tenho agora?”. Não, não era possível. O velho era bem mais velho – concluía em paz, mas logo duvidava. Vencido pelo cansaço, enfim, acabou pegando no sono. Mas, no outro dia, mal o sol bateu na terra esse pensamento foi o primeiro que se levantou, deu as caras rapidinho.

         Correu no Google e digitou: “Pessoas que falam sozinhas”. A tela derramou  um monte de informação. De dados e sites. Artigo, opinião de médico, de psiquiatra, de psicólogo, de psicoterapeuta… Um deles dizia que isso podia acontecer com pessoas que abusam de drogas psicoativas, como o álcool, ou que tomam alguma medicação controlada, tipo tarja-preta; e acontece também com pessoas geniais. Ele não se enquadrava em nada disso: nem numa nem noutra coisa. Não abusava de drogas, nem de remédio, nem de bebidas e tampouco seria um gênio.

          Ficou mais zaranzado ainda quando entrou num site onde havia a opinião de um especialista dizendo que o fato começa a ficar preocupante nos casos em que a pessoa não percebe que fala sozinha. Era o seu caso. Abandonou correndo o computador, contrariado consigo mesmo. Ficou puto. Alguém já havia alertado que não era aconselhável informar-se sobre sintomas de doença na internet. Porque lá tem de tudo; pra todo gosto – nesses casos de doença, de sintomas e prognósticos, é melhor evitar os mal-entendidos do mundo digital.

          Puto e tenso, saiu de carro pro trabalho. Não precisou andar muito. Por mal dos pecados – aliás, como sempre acontece nessas horas em que a gente anda encasquetado com alguma coisa, com alguma doença -, eis que num ponto de ônibus ele vê um senhor, mais ou menos da sua idade, de boa aparência, sentado no banco de espera e… E o quê? Isso mesmo: falando sozinho. Nem era tão velho. Gesticulava ligeiramente, balançava a cabeça, franzia a testa, como quem argumentasse alguma coisa… Parecia contrariado; completamente alheio ao derredor… em outra galáxia.

            Seguiu em direção à firma, mas a figura do homem – um tipo meio alemãozão -, não saía da sua cabeça. Chegou em casa à noite, mais cansado que o normal, e foi logo dizendo pra mulher que iria ao médico por causa daquele problema. Ela o tranquilizou. Disse que não. Que não precisava. Fingiu que seria exagero procurar um médico apenas por isso. Mas concordou – só pra ele tirar aquilo da cabeça. Ele foi. O médico disse que poderiam ser várias causas ligadas à saúde; ou simplesmente um hábito que ele estava adquirindo. E podia ser também um simples excesso de preocupação; talvez um estresse, uma estafa, uma ansiedade qualquer… essas coisas que andam na moda.

           Explicou ao Marcão que era assim mesmo. Acontece. Sempre chega uma hora na vida em que as obrigações são mais numerosas que as diversões; os deveres maiores que os prazeres; a correria maior que o descanso… Fadiga de material, brincou o médico. Isso era verdade, concordou. Fez então vários exames e testes. O raciocínio estava bom. A memória continuava a mesma – nunca havia sido muito boa. As falhas eram as de sempre. Nenhum “branco”. Tudo normal. O médico receitou um ansiolítico bem fraquinho; disse que ele precisava mesmo era de descanso, de dormir, de relaxar… e qualquer coisa diferente era só procurá-lo, voltar ao consultório.

         A única coisa diferente, desde então, é que o Marcão ficou mais atento com o problema. Mais ligado. Tentava flagrar a si próprio falando sozinho; a ver se realmente aquilo persistia, e se ele era capaz de percebê-lo. Passou então a reparar também nas outras pessoas. Gente que via pela rua. Era assim no trabalho, no trânsito, em viagens… Andou desse jeito por um bom tempo: caçando gente que falava sozinha. Às vezes comentava com a mulher sobre um ou outro caso que tinha visto durante o dia. Mas ela sempre desconversava; desmoralizava o assunto.

          Teve então o primeiro retorno ao médico. O doutor manteve o tranquilizante por mais seis meses. Garantiu que não havia nenhum efeito colateral, nem qualquer risco de dependência química ou psíquica – era um benzodiazepínico inofensivo. Dispensou novos exames; estava tudo bem. Mas o Marcão continuava atento – consigo e com as pessoas. Sempre observando. Quando via alguém falando sozinho, achava aquilo estranho demais. Nessas ocasiões, ficava olhando de longe, imaginando o que é que estaria se passando na cabeça daquela pessoa; o que a estaria levando a falar consigo mesma, alheia a tudo e a todos; sem vivalma pra escutá-la.

           Depois do retorno ao médico, Marcão continuou atento – e por um bom período. Seguia cismado. Observando cada vez mais as pessoas; conhecidos e desconhecidos. Mas era raro – e foi ficando cada vez mais raro -, encontrar gente assim. Que falava sozinha. Já não cruzava mais ninguém falando desse jeito. Pelo menos era o que ele percebia. E começou a estranhar: “Será que as pessoas não tinham nada a dizer pra si mesmas”, pensava; “só sabem é conversar uns com os outros”. Vai um dia, chegando esbaforido do trabalho, Marcão deitou-se no sofá, ligou a tevê como de costume e disse pra mulher “É engraçado, Rosi: por que será que as pessoas não falam mais sozinhas, hem?…”. Virou-se e dormiu; tranquilamente.

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Rolo-compressor

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              TÔ no Keeki, comendo um combo de vinte unidades… (É claro que neste momento não tô no Keeki; tô em casa, escrevendo estas mal traçadas. Porque escrever é uma das coisas que me livram (pelo menos momentaneamente) da náusea; da solidão… e do sentimento da inutilidade de tudo. Escrever me relaxa – mas também me deixa tenso. Porque escrever é expor-se. Só que eu tô cada vez mais ligando menos para as exposições; para o que os outros pensem ou deixem de pensar: o tempo vai ficando muito escasso pra gente se preocupar com essas coisas; uma das vantagens – aliás, poucas -, da idade é livrar-se dos julgamentos.)

          Tava no Keeki do shopping comendo um combo… (Nem sei se o Keeki é o melhor restaurante japonês da cidade. Talvez seja um dos. Há, porém, outros: mais antigos; mais famosos. Mas o Keeki do shopping é aonde costumo ir de vez em quando. Porque lá nunca tem aquele cheiro forte de peixaria; eles servem vinho branco em taça; e é um dos poucos restaurantes japoneses (que eu conheça) onde se consegue tomar um café espresso, ou expresso, depois da comida – e eles sabem que eu sempre peço um “curto” com casquinha de limão.)

          Bem… eu ia dizendo que tava no Keeki comendo… (Dessa vez, como da outra, da outra e da outra vez comi a mesma coisa de sempre –  meu cardápio japonês é restrito, é “curto”, como o café espresso: que dizem que também se pode chamar de “expresso”, com xis – tanto faz: a pronúncia é a mesma; a diferença é só na hora de escrever. Enfim, dessa vez como das outras foram quatro unidades de sashimi de salmão, oito de joe-grelhado e oito de hot-roll. Com duas taças de vinho branco argentino – não me preocupei em saber qual era a vinícola nem a uva -, mais uma água sem gás… e lá se foram R$ 105,00; meio caro, né.)

           Mas, como eu ia dizendo (agora vai!…), estava no Keeki do shopping comendo esse combo aí quando vejo uma fila enorme de gente ao lado do restaurante. Ela começava na bilheteria do cinema, passava pelo Keeki, pelo Mousse Cake, pelos outros grills que há por ali e quase chegava até a porta de saída – ou de entrada. Fiquei curioso. Perguntei ao garçom (o Ânderson) qual era o filme que estava passando. Ele me disse que era Os vingadores. Segundo ele, um filme que trata da luta dos super-heróis (Thor, Homem-Aranha, Homem de Ferro, Capitão América, essa turma…), contra os inimigos da galáxia.

           Fiquei admirado. Tá certo que era uma sexta-feira, dia de cinema; mas era muita gente na fila. Achei até que pudesse ser um dos filmes premiados no último Oscar. Não era não – era Os vingadores mesmo. Putz!, que merda!, pensei: filminho feito pra distrair, alegrar e alienar as pessoas. E depois das duas taças de vinho, claro que me pus a tentar entender por que será que um filme desses – que trata de super-heróis que não existem, de inimigos inexistentes, e de uma galáxia que só existe no céu – atrai tanta gente na Terra: crianças e adultos.

             Já estava elaborando um daqueles discursos críticos – mais ou menos na linha da Escola de Frankfurt; à lá Adorno e Horkheimmer – para dizer que a cultura de massas é mesmo alienante; que ela entorpece a cabeça das pessoas com fantasias e problemas irreais. Que o imperialismo dos países dominantes sempre acaba impondo suas visões, valores e heróis aos povos dominados. Que esse tipo de filme é mais uma prova da nossa neo e autocolonização cultural… enfim, já elaborava um discurso nesse tom quando o Ânderson me disse que aquela fila acontecia em todas as sessões: à tarde e à noite. E disse ainda que o filme era muito bom; e que ele pretendia assisti-lo assim que pudesse; arrematando: “Esse filme só não ganhou o Oscar porque foi lançado agora, depois do Oscar”.

             Abortei o discurso. Afinal, que direito (e que autoridade) tenho eu pra dizer o que as pessoas devem ou não devem assistir no cinema, na tevê, na Netflix… Lembrei-me dos existencialistas: se a condição humana é mesmo absurda, se ela não tem sentido nenhum, se ela é uma aventura inútil, que mal há em assistir a um filminho que, da mesma forma, não tem utilidade nenhuma? Se tudo é inútil… No fundo, invejei um pouco a felicidade e a excitação daquelas pessoas que formavam a fila – tão ruidosas, tão confiantes, tão certas de que deveriam estar ali e em nenhum outro lugar do mundo.

             Acabei de tomar o cafezinho (es)expresso – que dessa vez não tava lá essas coisas; tava meio aguado, ralo. Paguei a conta, deixei um caixinha pro Ânderson, e, como se diz: saí de fininho. Piniquei. Bico calado. Só pensando. Um filósofo já disse que, quando a gente não tem certeza de que aquilo que se vai dizer deve realmente ser dito, o melhor que se tem a fazer é não dizê-lo; simplesmente calar-se. Porque, na grande maioria das vezes – ensinam os filósofos e a sabedoria popular -, o melhor mesmo ainda é o bom e velho silêncio.

           Entrei no carro e, – podem até duvidar! – estava tocando uma música do Guilherme Arantes no rádio (ou “na” rádio?) que falava justamente do silêncio – uma que eu ouvia bastante quando era adolescente. (Para quem queria criticar o filme dos super-heróis, e invocar até a turma de Frankfurt – Adorno e cia. – não é nada cult ouvir (e gostar) das musiquinhas açucaradas do Guilherme Arantes; hoje elas me parecem meio empolgadinhas demais: seriam alienantes?, como Os vingadores? Sei lá; mas eu ainda gosto – elas têm sempre uma batidinha vibrante, um pianinho ou teclado super alto-astral…)

               Pois bem… A música do Guilherme Arantes que tocava na Diário FM, enquanto eu saía lentamente do estacionamento do shopping, era uma daquelas baladinhas dançantes; uma que fala da alegria da gente como “um rolo-compressor passando por cima do silêncio”. Me veio na hora o garçom do Keeki, e aquelas pessoas contentes na fila do cinema: alegres, confiantes… que silenciaram meu discurso frankfurtiano; e ainda passaram o tal do rolo-compressor por cima do meu silêncio… e do meu sermãozinho crítico que já estava quase pronto: sobre o imperialismo, a indústria cultural e a alienação das massas.

           Resolvi deixar essa coisarada toda pra lá: os vingadores, os super-heróis, os inimigos da galáxia, meu sermão, minha razão crítica e o caralhaquatro. Não era hora, convenhamos. Acabei, então, aproveitando o embalo da música do Guilherme Arantes e voltei no tempo; fui embora batucando no volante do carro: “Tudo que eu quero eu consigo/Não tenho medo de nada (quase nada)/Nenhum sonho é maior/Do que o meu/Nenhum um sonho é maior/Do que o meeeeeu/Que a alegria da gente seja um rolo-compressor/Rolo-compressor/Rolo-compressor/Em cima do silêncio/Seja um rolo-compressor…“.

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Posta-restante

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             UMA única vez entrei na casa dos nossos vizinhos. Ficava em frente a praça, bem no rumo da matriz. Era uma casa com varanda. E isso, naquela época, devia dizer alguma coisa – algo como aquilo que antigamente nos diziam as casas com “eira e beira”. Não era uma casa grande, não chegava a ser um daqueles casarões antigos – estava longe de ser um palacete. Não era sequer um sobrado… Mas tinha varanda. E tinha também uns adornos em formato de abacaxi no alto da parede da frente, um pouco acima do beiral, o que talvez fosse (teria sido no passado) algum indício de status.

          Os moradores eram reservados. Raramente saíam de casa. Parece-me que não tinham o hábito de visitar as pessoas, nem recebiam visitas – exceto alguns poucos parentes mais chegados. Ele, um senhor de meia-idade, era funcionário, encarregado dos correios; um homem que talvez lesse jornais – e isso provavelmente também dissesse alguma coisa naquele tempo. Ela, a esposa, uma senhora discreta, vivia praticamente reclusa, cuidando da casa, do marido e das filhas – talvez andasse já um pouco adoentada. Eram reservados, os nossos vizinhos. Mas eram cordiais.

            Tinham duas filhas, que na ocasião cursavam o normal, o clássico ou o científico. Ou seriam já as licenciaturas?… Viriam a ser professoras. Eram muito educadas, discretas, contidas – aliás, como convinha à época; e como exigiam as regras da boa educação formal. Me lembro que eram muito estudiosas. Algumas vezes, eu próprio as ouvia estudando em voz alta, andando pelo quintal de sua casa; como naquele famoso método de Sócrates, que também ensinava (e dizia aprender) andando… falando… pelas ruas de Atenas ou pelos jardins da Academia.

            O quintal onde elas por vezes estudavam – a exemplo do nosso -, era um quintal grande. (Naquele tempo os quintais eram grandes; para a minha imaginação de menino então… eram imensos.) Havia lá uns canteiros de flores, cercados por tijolos que já contavam com a decoração de um lodo esverdeado. Isso eu via pelas frestas da cerca de madeira bem-feita, sarrafos bem juntinhos, quase inexpugnável. Tinha a recomendação especial, por parte de meus avós, para nunca incomodar aqueles vizinhos – portanto, a cerca do quintal deles era mais do que uma cerca: era uma fronteira.

              Isso aguçava minha curiosidade. Quando ouvia as moças lendo do lado de lá, dava um jeito de me aproximar da divisa e ficava prestando atenção, tentando entender o que diziam. Não entendia nada. Mas me pareciam coisas importantes. Muitos anos depois – décadas -, vim a saber pela minha mãe que uma delas, a mais velha, havia confeccionado o bolo do meu primeiro aniversário – festa do meu primeiro ano de vida (ainda há uma fotografia dessa festa lá em casa: com o bolo, comigo e meu avô). Quando soube desse pequeno(?) detalhe, surpreso, experimentei (experimento ainda) uma espécie de gratidão tardia, extemporânea… Mas gratidão.

             Além da entrada principal pela varanda, a casa dos nossos vizinhos tinha uma porta onde funcionavam os serviços do correio, cujo movimento era então bastante modesto, escasso. Ao lado dessa porta, havia outra que ficava sempre fechada. Ela tinha um degrau mais alto, de uns quarenta centímetros mais ou menos, com acabamento em granito. Era ali que o cego da cidade vinha sentar-se diariamente, tateando o tempo; empurrando as horas como se quisesse fazê-las passar mais depressa – foi o primeiro cego que conheci.

      Quando lhe dava na telha, trazia seu acordeom para tocar com dedos ágeis, suavemente, discretamente – olhando para o nada. Isso acontecia de quando em vez, quase sempre ao cair das tardes, durante a semana; ou nos domingos de manhã, após a missa. Me lembro que ele tinha o globo dos olhos esbranquiçados; ficava balançando o corpo em ligeiros movimentos para a frente e para trás, incessantemente. Mesmo quando não estava tocando o acordeom, balançava o corpo. Era um vaivém interminável, obstinado… como o do mar.

        Ele tinha também a mania de bater a unha de um polegar na unha do outro. Amarelecidas pelo cigarro, essas unhas andavam até meio gastas por causa daquele tique. Gostávamos dele; sentíamos dó: era sociável, mas era solitário. Diziam que a mãe, por engano, havia pingado ácido nos seus olhos quando criança – imaginávamos logo a dor, o desespero, a claridade se apagando… e depois a escuridão definitiva. Paciente e atencioso com todo o mundo – inclusive com a criançada -, o cego conhecia as pessoas pela voz. Além do cumprimento – do bom-dia e do boa-tarde – dizia o nome da pessoa que passava, e tinha sempre uma brincadeira inofensiva… um comentário cordial qualquer.

            Ao lado dessa porta – onde quase toda tarde se sentava o cego Laerte -, ficava a caixa do correio, fixada na parede. Era de ferro-fundido, pintada de verde, com aquela conhecida fresta por onde as pessoas enfiavam as correspondências já seladas, para que o funcionário as recolhesse depois. A caixa avançava um pouco sobre o passeio público e nós, os moleques, que frequentemente brincávamos por ali, na correria, quantas vezes não demos com a cabeça naquela caixa postal. Ela tinha um brasão do governo – indicando que lá funcionava uma repartição pública.

             Assim era a casa dos nossos vizinhos. E fosse porque o seu estilo – mesmo sem ser suntuoso -, era diferenciado. Fosse porque a casa nunca estava aberta, nunca estava acessível. Fosse porque os moradores eram discretos. Ou porque meus avós tinham uma relação bastante formal com eles. Fosse ainda por causa do brasão oficial na caixa do correio. Ou porque eu tinha aquela recomendação expressa – constantemente reforçada -, de nunca molestar nossos vizinhos comedidos e cordiais, enfim, fosse lá por que fosse, eu olhava para aquela casa com certo distanciamento; com alguma reverência.

            Por isso, no dia em que entrei na casa dos nossos vizinhos, pela primeira e única vez, entrei curioso. Não me lembro o motivo. Soube então que era uma casa muito bem-arrumada. Tudo brilhava. O chão impecavelmente limpo; encerado com esmero. Havia certa dignidade no mobiliário. A cristaleira na sala era de um mogno escuro, imponente. Mas, o que mais me marcou – não sei por quê -, foi o cheiro. Era um cheiro indefinível. De limpeza. Agradável. Porém, um cheiro agridoce que eu nunca havia sentido. Se tivesse que descrevê-lo, diria que era uma mistura de cera (certamente Parquetina – porque era a mais usada na época) com amendoim verde – uma coisa assim.

             Fato é que, depois daquela brevíssima incursão – que fiz circunstancialmente pela casa dos nossos vizinhos reservados -, nunca mais entrei ali. Continuava vendo a casa apenas por fora. Respeitava-a. Era uma casa com varanda; com aquele detalhe arquitetônico dos abacaxis sobre o beiral; com o brasão do governo… E agora, até seus eflúvios eu já sabia que eram diferentes, incomuns. Vai saber por quê, mas trago aquele cheiro na memória até hoje; seria capaz de identificá-lo, ainda – não dizem que nossa memória olfativa é mesmo muito poderosa?

          Pois bem… A casa dos nossos vizinhos já não existe mais – há tempos que foi demolida: deu lugar a uma mansão moderna, avarandada. Junto com ela, desapareceu também a caixa verde dos correios, forjada em ferro-fundido, com aquele respeitável brasão do governo. Desapareceram, naturalmente, os abacaxis que ficavam em cima do beiral. Não sei que fim levou o cego da cidade, que se sentava no degrau de uma das portas da casa para tocar acordeom… e tocar o tempo. Nossos velhos vizinhos, há muito que se foram… Nunca mais senti (mas também nunca mais esqueci) aquele cheiro único: de cera Parquetina… com amendoim verde.

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A cagada do ódio

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              PERDOEM o novo clichê, mas “o país está mesmo politicamente (ideologicamente) rachado pelo ódio”. É o que dizem os entendidos e os desentendidos. E ódio de morte – coisa braba. Fui aos livros: primeiro, aos dicionários; depois, a um livrinho famoso do Emilio Mira y Lopes, que li quando era adolescente, cujo título é Os quatro gigantes da alma – um deles é a ira; e, finalmente, ao livro do ensaísta francês André Glucksmann, O discurso do ódio, que li há não muito tempo, porque tive de orientar uma dissertação de mestrado (excelente, por sinal!) sobre o ódio contemporâneo.

              Saí desanimado: os dicionários (Aurelião, Aulete e Houaiss) me disseram que ódio é ira, repugnância, aversão, antipatia, execração, rancor, desejo do mal etc., etc., etc. O Mira y Lopes vem me lembrar que “Não há mundo sem ódio; pois o ódio existe desde que a Terra começou a girar”; e as conclusões do André Glucksmann então… nem se fala; essas me desanimaram de vez: segundo ele “O ódio existe, se camufla com ternuras, é insaciável, promete o paraíso, deseja ser o Deus criador, ama até a morte, e se nutre de sua devoração”.

           E o culpado de todo esse ódio que hoje divide os brasileiros é o Lula, viu? Não é a corrupção não. É o Lula. Pode esquecer a corrupção. Porque já arquivaram duas denúncias criminais contra o Michel Temer por corrupção política; pegaram o Aécio Neves no grampo telefônico confessando a prática de corrupção; agora tiraram o Alckmin da Lava Jato e nada. Nem um tiquinho sequer de revolta, de panela e… de ódio. A coisa é mesmo com o Lula. Começou contra ele – e faz tempo, velhão.

             Quando Lula teve um câncer, desses perigosos, agressivos, lembra?, as redes sociais ficaram infestadas de gente festejando sua doença, mandando ele se tratar no SUS, desejando até que a metástase fosse mais competente do que normalmente é. Depois, festejaram a morte da mulher dele. Aliás, não só festejaram como houve até quem, sendo médico, sugerisse na internet quais os procedimentos a serem tomados na UTI para apressar a morte da mulher; a mulher do sapo barbudo.

           Cansei de ver piadinhas nas redes sociais (tá certo que são piadinhas!, mas ainda tem gente que acha que o exercício da cidadania se resume a elas) com o Lula encontrando sua mulher lá no céu, ou seja, morto. Piadinhas com desenho do Lula dentro de um caixão, escrito embaixo: “Lugar de bandido bom é aqui”. E olha que essas piadinhas (essa pulsão inconsciente de morte) vem até da parte de gente que jura “temer a Deus”. De gente que não perde uma missa, um culto, sequer. Que está sempre lá a bater no peito: “Minha culpa, minha máxima culpa…”.

             Agora há pouco, uns grupelhos destemperados receberam o Lula à bala lá no Sul do país. Acertaram os ônibus de sua caravana, mas o alvo – o motivo -, era o Lula.  Logo após sua prisão na semana retrasada, transferiram o ex-presidente de São Bernardo para Curitiba. E dentro do avião, durante o voo, algum membro iluminado da tripulação sugeriu que se jogasse o Lula lá de cima. Há uma gravação em que se ouve alguém dizendo: “Joga esse lixo pra baixo”. Veja que é ódio de morte mesmo; morte física, eliminação (desejo do mal) – não dá pra brincar com esse ódio não, velho.

            Cruz-credo! Dá até medo, não dá? Mas, inspirado talvez naquele ditado popular que manda fazer uma limonada quando a vida nos oferecer um limão, procurei encontrar alguma coisa boa nisso tudo – nesse “racha”, nesse “ódio” que vem sacudindo o país há bem uns dez anos. Por incrível que pareça (vocês podem até não concordar!), mas eu acho que é possível encontrar, sim, alguma utilidade no ódio – tá certo que o preço é muito caro, mas já que a vida nos ofereceu um limão…

              Por exemplo, eu acho que o ódio, no mínimo, é didático. Vejam o nosso caso. Esse “racha” que dividiu os brasileiros em duas “raças” – embora amargo e perigoso -, serviu pra revelar o que as pessoas realmente sentem, não apenas por fora, mas também por dentro -dentro da cabeça e do coração. Além de revelar isso, o ódio social e político que se espalhou por aí tem revelado a face conservadora – e até mesmo fascistoide -, de muita gente boa. Que se autoconsiderava light, moderninha, prafrentex… e nem suspeitava que tinha traços ou tendências conservadoras e fascistas.

             Como o ódio e o preconceito andam de par – um implica o outro, e vice-versa -, esse ódio que explodiu agora no país serviu também para escancarar o preconceito odiento (e odioso) da elite brasileira e da classe média elitista contra o ex-presidente Lula. Os que se sentem “herdeiros” da casa-grande se sentiam também no direito de chamar o representante da senzala de analfabeto, ignorante, estúpido… (Mas aí, já é o macaco sentado no próprio rabo a falar do rabo dos outros.) Como se vê, o ódio acaba revelando muita coisa mesmo; é didático, sim.

       E como disse o Glucksmann, ele também é insaciável. Pois imaginem que, não bastasse arranjar um processo inquisitorial pro Lula, e uma condenação pra lá de suspeita, meteram-no na cadeia e ainda tem gente que anda implicada com o fato de a cela dele ter banheiro privativo – não querem nem deixá-lo cagar sossegado. Imagino que uma boa cagada é um direito fundamental, garantido pela nossa Constituição-cidadã: sentar-se no vaso, com tempo suficiente para o serviço (muitos até fumam um cigarrinho), lendo o jornal, sentindo os próprios eflúvios… não tem dinheiro que pague isso; é um direito fundamental mesmo.

          Pois não é que até esse direito básico querem tirar do coitado do Lula – o ódio, de fato, não tem limites, é insaciável. Os europeus que o digam: eles, que já passaram por isso tantas vezes até amadurecerem suas democracias, bem o sabem. O nazismo na Alemanha e o fascismo na Itália foram apoiados pelo ódio de muita gente boa; gente da classe média, gente bem-formada, bem-intencionada; pais e mães respeitáveis; com os valores, a vida e a família certinhos – tudo no lugar.

             Impressionante como até mesmo o homem comum, o homem pacato, e não apenas os facínoras, é capaz de odiar… e muito. Foi exatamente isso o que intrigou e fez com que a filósofa alemã Hannah Arendt investigasse a fundo a origem do ódio e o que ela chamou de “banalização do mal”. A filósofa concluiu (com outras palavras, claro!) que o ódio é comum, é banal, e termina sempre numa cagadaqualquer.

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A lição do vento

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            TEM coisas que marcam. Mesmo coisas banais; ou aparentemente banais. Eu era ainda bem moleque: aí, à volta dos dez anos – ou nem isso – quando cheguei em casa carregando um traste inútil. Era o encosto e os pés parcialmente queimados de uma cadeira de pau; dessas cadeiras muito simples, que havia antigamente – não me lembro o nome delas -, cujo assento era uma tábua fina de madeira compensada. Mas o que eu trazia era apenas o encosto da cadeira – que achei entre as cinzas de uma fogueira onde haviam queimado o lixo doméstico.

         Aquele encosto, enegrecido pelo fogo, lembrava uma escadinha – de apenas três degraus. Devo ter imaginado que poderia fazer alguma coisa com aquilo. Sabe-se lá o quê. Naquele tempo não havia tantos brinquedos como hoje. Tínhamos de improvisá-los. Três pedaços de madeira unidos por uma coisa qualquer já serviam para estimular a nossa imaginação, ávida de tudo – e a gente criava mesmo: era obrigado a ser criativo. Inventávamos o que só mais tarde o mercado iria inventar.

             Mas quando minha avó me viu carregando aquela sucata quis logo saber onde é que eu a tinha arranjado. O tom era claramente inquisidor. Pressenti que teria problemas. E tive mesmo. Disse que havia encontrado o pedaço de cadeira no meio de uns restos de lixo; queimado na frente da casa do seu Evaristo. (Naquela época, sobretudo em cidades pequenas, costumava-se varrer e queimar o lixo doméstico na porta das casas – junto ao meio-fio das ruas, que ainda não tinham asfalto.)

          Minha avó foi peremptória, no seu português imperativo: “Vais levar isto de volta; vais pô-lo no mesmo lugar onde o encontrou”. Argumentei que aquilo era uma sucata. Que já não valia nada, e fora até descartada pelo dono: era coisa rejeitada, coisa de ninguém. Não adiantou nada. Ela disse que não era meu; que as coisas dos outros são coisas dos outros; e que não se deve mexer, muito menos carregar aquilo que não nos pertence – mesmo que seja um traste sem serventia nenhuma, como aquele pedaço de pau queimado e abandonado pelo dono.

      Eu sabia que não adiantava continuar argumentando. Minha avó era daquelas portuguesas bravas, assertivas, categóricas. Não digo que fosse intransigente, porque ela sabia e gostava de ouvir as pessoas. E tinha muito bom senso. Mas algumas coisas eram inegociáveis pra ela. Aparecer em casa com qualquer objeto da rua que não fosse meu era uma das coisas com as quais ela não transigia. De jeito nenhum. Eu sabia que estava condenado a devolver aquele treco imprestável às cinzas de onde o tirei.

          Para quem não conheceu minha avó – que compartilhava a criação do neto com meus pais – digo que era uma portuguesa das mais enérgicas, lá da Panchorra, norte de Portugal. Pertinho de Trás-os-Montes; lugar de gente brava. Era dura na queda. Severa. Não me lembro de nenhum gesto seu de carinho, ou de qualquer expansão amorosa – para com ninguém. Mas eu sentia que me amava. Demonstrava-o de várias formas, menos por carícias e dengos. Um eu-te-amo então, nem pensar. Acho que para ela – que já demonstrava seu amor de tantas outras maneiras – uma declaração expressa, um beijo, um afago seriam desnecessários; quase uma redundância – um pleonasmo.

           Conhecendo-a como eu a conhecia, resolvi ceder. E fui levar o pedaço de cadeira até o lugar onde o havia encontrado. Foi uma humilhação. Atravessei a praça arrastando aquele traste velho, encolhido de vergonha. Como se toda a cidade já soubesse do meu crime; como se todos os olhares me fulminassem; como se eu fosse o mais baixo dos criminosos. Deixei aquela porcaria daquele resto de cadeira no lugar dele e voltei pra casa humilhado, porém, mais leve – era como se houvesse purgado minha culpa, meu pecado.

          Volta e meia me lembro dessa história. Ainda hoje me lembrei dela. Já faz dias, enquanto brincava com o caçula na frente de casa, lá vem uma bola azul muito leve, de plástico ordinário, toda manchada de ferrugem. Vem descendo devagar, quicando pelo ligeiro declive da rua, trazida mais pelo vento do que pela gravidade – tão leve era a bola. Resolvi interromper seu percurso e guardá-la. Imaginei até que pudesse ser do neto do vizinho (o simpático Arthur, de apenas três anos), que não sai da casa dos avós (também simpáticos) – quatro casas acima da minha; ou talvez fosse de alguma outra criança aqui do condomínio.

           Guardei a bola para devolvê-la (o Antonio nem se interessou por ela!) e a esqueci. Ela deve ter ficado perdida em algum canto do quintal; ignorada. Ninguém a reclamou. Hoje pela manhã, domingo nublado, preguiçoso, deparei-me com a bola na porta da varanda que dá para o quintal. Abri o portão e resolvi devolvê-la a seu destino: a rua. Voltei pra dentro de casa, troquei de roupa e em poucos minutos saí pra pegar charutos com folha de uva e repolho, um galeto assado, pão sírio e coalhada seca – ali no árabe do Irajá.

            Eis que vejo a bola exatamente defronte a casa dos avós do Arthur. Fiquei intrigado: como é que esse raio dessa bola havia subido a rua? Que ela descesse até minha casa, rolando rua abaixo, eu até entendo. Que o vento a tenha impulsionado na descida, eu também entendo – porque morro abaixo todo santo ajuda. Mas subir a rua num dia quase sem vento; e parar em frente a casa do seu provável dono – aí já é coincidência demais. Na volta do Irajá, lá estava a bola, no mesmíssimo lugar – parada na frente da casa dos avós do Arthur.

         Quase inexplicável. Não chegava a ser inquietante, mas era engraçado. Eu, pelo menos, achei engraçado. Era como se o vento estivesse devolvendo aquela bola ordinária, meio oval e toda manchada, a seu verdadeiro dono – que muito provavelmente a havia descartado. Por pouco não enxerguei nela o encosto carbonizado da cadeira do seu Evaristo. Sim, confesso que cheguei a rir sozinho dentro do carro. Só podia ser um recado, uma lição do vento: “As coisas precisam permanecer onde e com quem elas devem permanecer” – mas isso eu já sabia.

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