Granizo, um filme

É COMÉDIA, mas é emocionante! O filme argentino GRANIZO, do diretor Marcos Carnevale, produção da Netflix, faz rir e faz chorar. A história é divertida e muito boa – toda boa história é aquela que consegue surpreender mesmo quando (e onde) ela é previsível. Esse é exatamente o caso de GRANIZO.

Um famoso meteorologista, que nunca errava suas previsões climáticas, tinha até um programa de tevê sobre o tempo. Era adorado pelo povo de Buenos Aires, que o considerava “infalível”. Mas um dia, como tudo na vida, sua previsão falhou e ele caiu em desgraça com seu público.

O tal meteorologista, Miguel Flores, vivido na tela pelo excelente (e bota excelente nisso!) Guillermo Francella, deixa de prever uma tempestade de granizo que devasta a capital argentina, pegando de surpresa a população e causando enormes transtornos ao povo portenho, que tanto confiava no popularíssimo analista e previsor do clima. 

A revolta foi tanta que ele teve de se refugiar em sua cidade natal, Córdoba, onde vivia a filha, uma pediatra, com quem o pai famoso tinha um relacionamento frio, distante. Nesse refúgio, Miguel Flores passa por um processo de autoconhecimento e descobre que há coisas muito mais importantes na vida do que a fama – dentre elas, o amor da filha.

A partir daí, sem perder o tom de comédia, o filme propõe algumas questões existenciais interessantes, como a imprevisibilidade e a falsa sensação de controle que temos sobre o nosso próprio destino. Nem o tempo nem a vida são previsíveis! Creio que o filme trata, sim, do imponderável – mostra, com inteligência e bom humor, que tudo pode mudar de repente, e que as tempestades tanto podem resultar em tragédia quanto devolver a felicidade.

Nada sei sobre o trabalho do diretor Marcos Carnevale, mas a influência de Almodóvar – pelo menos em GRANIZO -, é inegável. Os diálogos cortantes; as cenas internas com cores ousadas e quentes; o ar retrô e customizado dos ambientes; a bela música latino-romântica (Felicitá)… tudo é almodovariano.  

O desempenho do comediante Guillermo Francella, na pele do meteorologista Miguel Flores, vivendo um herói problemático tipicamente existencialista, é um show à parte, puro talento e carisma – tirei o chapéu! O diálogo de seu personagem com a filha é imperdível.

Enfim, “por fas ou por nefas” (como costumavam dizer os juristas mais antigos); seja pela história saborosíssima (fictícia), seja pela mensagem do filme, seja ainda pelo indisfarçável toque almodovariano, vale a pena ver o longa argentino; ponto para “los hermanitos”.

____________________________

http://www.outrasprosas.wordprerss.com

Publicado em Crônicas | Deixe um comentário

Quando deixamos de entender o mundo

DIZEM que o novo livro “Quando deixamos de entender o mundo”, de Benjamin Labatut, é literariamente inclassificável: não se sabe ao certo se é ficção, se é não ficção, romance científico, coletânea de contos, conjunto de ensaios ou tudo isso ao mesmo tempo. Ou nada disso.

É realmente difícil fixar o gênero dessa obra, mas, curiosamente, não é difícil entendê-la. E a leitura é prazerosa. Na verdade, o livro de Labatut – jovem escritor nascido na Holanda e criado no Chile –, escrito em inglês e finalista do prêmio internacional Booker Prize em 2021, é uma abordagem romanceada de fatos verídicos relacionados aos grandes mistérios e dilemas da ciência.

Particularmente, creio que ele versa sobre os limites do conhecimento humano e a impossibilidade/incapacidade da ciência de compreender e explicar as entranhas do mundo material. Mostra que nem a física clássica de Newton nem a física quântica de Max Planck e Einstein deram conta de entender esse mundo indecifrável e a matéria de que ele é feito.

A grande sacada de Labatut, a meu ver, foi ter usado a literatura – em forma de romance ou de contos (não importa) – para abordar fatos científicos complexos, mas sem massacrar o leitor e o leigo com a complexidade das equações matemáticas, que constituem a linguagem usada pelos cientistas para explicar a matéria do mundo.

O autor transformou em texto literário a linguagem árida dos ensaios e teses científicos acerca da constituição material do mundo com o intuito de demonstrar que, mesmo os grandes gênios da humanidade, em algum momento, fracassaram nessa tarefa de compreender a physis do real – porque há limites que o cérebro e a mente humana não conseguem transpor.

Por mais bem-dotadas que tenham sido os cérebros de homens como Planck, Einstein, Heisenberg, Niels Bohr e outros, o fracasso foi inevitável: seja porque esses gênios não conseguiram entender por completo a realidade material do mundo, seja porque a entenderam mas não conseguiram explicá-la a ninguém – nem mesmo à comunidade científica.

A tese do livro é a de que a mente humana pode ir muito longe, conhecer muita coisa, mas em algum momento não consegue lidar com suas próprias contradições e paradoxos, naufragando nos labirintos do cérebro, nas contradições do pensamento, ou na loucura; os grandes gênios da raça sempre andaram no fio entre a razão e a insanidade.

Em suma, o livro publicado agora pela Editora Todavia merece ser lido, seja por sua estrutura muito original, que consegue romancear ensaios científicos inacessíveis aos mortais, contando histórias e estórias entrelaçadas; seja porque, sem a linguagem impenetrável da ciência, revela que a compreensão verdadeira do mundo por enquanto, ainda é uma simples quimera.

http://www.outrasprosas.wordpress.com

Publicado em Crônicas | Deixe um comentário

Salvatierra

A meu ver, é muito bom o romance SALVATIERRA do argentino Pedro Mairal. Especialmente porque esse jovem escritor portenho é dono de um talento incomum para contar histórias; são sempre envolventes, saborosas, surpreendentes…

Em SALVATIERRA, Mairal conta a história de um argentino que viveu nas barrancas do Rio da Prata, na fictícia Barrancales, divisa com o Uruguai, e que ficou mudo devido a um acidente que sofrera na infância com cavalo, ocorrido na propriedade rural do avô.

Aos vinte anos de idade, sem falar uma palavra sequer, passou a pintar em telas contínuas. Pintou mais de quatro quilômetros de tela, guardadas em rolo, num galpão onde trabalhava anonimamente.

Nessas pinturas, durante sessenta anos, retratou seu contexto de vida. E depois de sua morte, seus dois filhos, que até então nunca se interessaram pelas pinturas do pai, vêm de Buenos Aires e buscam de resgatá-las.

Nessa busca, e examinando mais detidamente a obra paterna, descobrem aspectos desconhecidos da vida do pai pintor e da maneira afetiva como ele enxergava os filhos, e como sofreu com a morte precoce da filha, por afogamento, ainda na infância.

Creio que o espírito da história, retratada nas telas contínuas de Juan Salvatierra, é sobre a finitude humana: mostra que a vida se assemelha a um rio (metáfora tão comum), que corre continuamente mas não chega até a foz, não deságua nem continua no mar.

Os outros dois romances de Mairal, “A uruguaia” e “Uma noite com Sabrina Love” são ótimos, e talvez sejam, não sei, tão bom ou até melhores que este último – todos publicados pela Editora Todavia.

Mas SALVATIERRA é um romance – quem sabe uma novela -, que merece sim ser lido. Seja porque a história é boa; seja porque há muitas surpresas nela; seja ainda por causa do estilo enxuto e objetivo do autor; mas, sobretudo, pela abordagem original sobre a vida, destinos e finitude humana.

____________________________

http://www.outrasprosas.wordpress.com

Publicado em Crônicas | Deixe um comentário

“A” Pabllo ou “o” Pabllo?

O NOME “Pablo” é masculino, usado para designar pessoas desse sexo. Logo, é um nome que, em português, deve vir precedido do artigo masculino “o”. Mas a cantora drag queen Pabllo Vittar pretende ser chamada por “a Pabllo”. Tudo bem, nada contra!

Até porque o gênero masculino ou feminino das coisas, nas diversas línguas do mundo, é uma fixação arbitrária. Por exemplo, em português dizemos “o mar”, objeto masculino, mas os franceses dizem “la mer”, feminino. Os espanhóis dizem “la sangre” feminino, nós, os lusófonos, dizemos “o sangue”. E vida que segue do mesmo jeito!

Mas, sejamos franco, dizer “a Pabllo” soa meio estranho para os falantes de português; tanto do ponto de vista da língua normativa e culta, quanto da língua corrente, do dia dia. Ninguém diz nem escreve qualquer palavra masculina precedida de artigo feminino, e vice-versa.

Creio, porém, que o simples fato de “soar estranho”, por si só, não seria motivo para recusarmos a designação “a Pabllo” da cantora. A vida, ela mesma, é bem estranha, assim, não há por que estranhar as estranhezas da língua. O/a cartunista Laerte, que nasceu Laerte Coutinho, pai de três filhos, e que hoje se declara transgênero, também é conhecido como “a Laerte”.

Dizem que as línguas são vivas, que elas mudam com o tempo e com o uso. Logo, nada impede que, de repente, alguns objetos e seres masculinos passem a ser identificados por um artigo feminino, e versa-vice!

Se é importante para a Pabllo Vittar – que já foi “o” Phabullo Rodrigues da Silva lá no Maranhão -, que o chamemos “a Pabllo”, então que assim seja. E a gramática portuguesa que se dane. Porque normas gramaticais costumam ser um dogma com a condenável rigidez das posturas autoritárias.

Mas, particularmente, ainda acho que “a Pablla” ficaria foneticamente melhor, e mais de acordo com o uso corriqueiro da língua. E também porque os caracteres exteriores da cantora são inequivocamente femininos. Mas aí é questão de gosto e nesse quesito deve prevalecer o gosto da dona do nome e ponto final.

Não sei se é politicamente importante, para a causa identitária, fazer essa pequena subversão da língua, usando artigo feminino para designar o nome masculino de uma pessoa, seja lá qual for seu gênero ou sexualidade. Não sei se essa, digamos, insurgência gramatical tem algum significado político para a causa. Se tiver, está desde logo apoiada.

Não vejo nenhum mal nessas pequenas derivações do identitarismo de esquerda (Roudinesco) dentro da língua portuguesa – hoje, quando nos dirigimos a um grupo de pessoas, temos de cumprimentar a todos, todas e todes -, o meu medo é que essas novidades não carreguem consigo nenhuma grande vantagem, e ainda corram o risco de causar algum embaraço.

Veja, por exemplo, num texto escrito: se toda vez que o autor for usar a palavra “todos” tiver de usar também “todas” e “todes” vai ficar difícil – tanto pra quem escreve quanto pra quem lê. Tenho dúvidas se esses embaraços e esquisitices na língua ajudam mesmo a luta identitária. Mas, se ajudar, como disse, assino embaixo!

O problema, a meu ver, são outras derivações identitárias menos prosaicas, que podem desaguar no individualismo liberal, satisfazer o “eu” pessoal, singularmente considerado, e deixar em segundo plano a luta emancipatória do coletivo. Mas isso já é outro assunto!

____________________________

http://www.outrasprosas.wordpress.com

Publicado em Crônicas | Deixe um comentário

O bombardeio

É MUITO bom e muito bem-feito o filme dinamarquês “O bombardeio”, do diretor Ole Bornedal. Mas é um filme chocante. Em tempos de guerra como os de agora, com o conflito entre Rússia e Ucrânia entrando nos lares e afetando nosso dia a dia, nem sei se seria oportuno assistir a um filme desses.

A história é baseada num fato real, ocorrido em 21 de março de 1945 (que depois de amanhã completará 77 anos), já no finalzinho da Segunda Grande Guerra.

A Força Aérea Britânica decide bombardear um QG da polícia nazista no centro de Copenhague, capital dinamarquesa ocupada pelo nazismo. Mas, por erro de um dos pilotos, acaba bombardeando uma escola infantil nos arredores, provocando a morte de 125 civis, entre eles 86 crianças. Tragédia no meio da tragédia!

Voando muito baixo, um dos aviões bate num poste e cai sobre a escola, que era de confissão católica. Vendo a fumaça no chão, os demais pilotos da esquadra decidem bombardear o local, imaginando que fosse o QG da Gestapo nazista; um estúpido erro de alvo que escancara a estupidez das guerras.

É, sim, um filme de guerra. Mas tem um diferencial: mostra como as ações militares acabam se entrelaçando com o destino das populações civis; como a rotina dos soldados, uma hora ou outra, atinge tragicamente a rotina das pessoas, provocando o horror, o desespero e a angústia. E mostra como tudo isso é frágil, aleatório.

A grande mensagem do filme (ando sempre à cata das mensagens!) é que a guerra enlouquece. Destrói a razão e abala até mesmo a fé.

A outra mensagem é mais específica: o nazismo foi de fato um momento doentio da humanidade: embaralhou enlouquecidamente os papéis, fizera com que cidadãos comuns e pacatos viessem a se transformar em monstros insensíveis; que homens honrados pudessem virar traidores; e que traidores arrependidos ainda tivessem a chance de morrer como heróis. Loucura!

Tecnicamente (se bem que esse não é o meu forte em matéria de filmes!), creio que o diretor Ole Bornedal ajeitou bem o roteiro e soube reconstruir com profundo realismo as cenas de época, tanto as internas quanto as externas; em alguns momentos, encantadoras; em outros, desesperadoras.

No final do filme, sob os escombros deixados pelo trágico bombardeio, as cenas de sofrimento, agonia e resgate são dramáticas. A busca pelas vítimas, por pais e mães desesperados, também exige, com perdão do clichê, nervos de aço.

Apesar do momento delicado e do medo voltando a assombrar as pessoas na Europa e no mundo, creio que, ainda assim, vale a pena ver esse filme recém-chegado à Netflix. De um lado, porque sempre vale a pena ver uma obra de arte (como o Guernica de Picasso); de outro, porque é preciso não esquecer nunca os horrores da guerra.

____________________________

http://www.outrasprosas.wordprerss.com

Publicado em Crônicas | 1 Comentário

Ulisses, cem anos

O ROMANCE do irlandês James Joyce, Ulisses, completa agora em 2022 cem anos de existência – trajetória controvertida de exatamente um século. Digo “controvertida” porque dizem que Ulisses, um catatau de 800 páginas, sempre foi mais discutido que lido.

(Outro dia, na livraria, está por acaso ao lado de dois indivíduos com cara de leitores e um deles, segurando a nova edição de Ulisses, comentou com o outro: “Eu já comecei a ler este livro três vezes!”. Concluí mentalmente que era mais dos que recuaram diante da tamanho e de complexidade da obra centenária de Joyce.)

Ulisses já foi classificado como um livro “chato”, “incompreensível”, “prolixo”, “esquemático”, “empolgante” e outros adjetivos que tais. Seja como for, é um dos romances fundadores da modernidade literária, e, portanto, da liberdade estética, que rompeu com o passado de escrita clássica, normativa e rigorosamente academicista.

Só por isso já vale a pena ser lido. Seria, como se diz, um livro seminal, que dá à luz uma nova era da literatura. É justamente a partir dessa “nova era” ou era modernizante que a linguagem ficou mais solta e passou a incorporar traços de oralidade, até mesmo com algo de coloquial.

Mas não só a linguagem, assim também a estrutura de romances, contos e novelas, com a liberdade inclusive de explorar os tais “fluxos de consciência” ou “monólogos internos”, que já vinham de Kafka e outros, marcando a prosa moderna e complexa de uma Clarice Lispector e João Gilberto Noll no Brasil.

Mas falávamos do centenário do Ulisses de Joyce. Haveria ainda um outro motivo para ler essa obra do escritor irlandês: a publicação do romance de James Joyce coincidiu com a nossa centenária Semana da Arte Moderna de 1922, que neste ano completa um século, e talvez fosse oportuno ler hoje uma obra de transição que fez os ventos modernistas da Europa soprarem por aqui também, há cem anos.

Ulisses é um clássico, bem sei. E clássicos talvez não devam ser, propriamente, objeto de “dica cultural”, ou recomendação de leitura – como queiram. Porque, independentemente de “dicas” ou “recomendações”, já sabemos que a obra clássica é para ser lida sempre, e pronto.

O escritor Ítalo Calvino disse que “é importante ler os clássicos porque lê-los é melhor que não lê-los”. Concordo, mas acrescento: os clássicos têm uma peculiaridade interessante: se encaixam nos contextos sócio-históricos em que foram escritos, mas também em quaisquer outros contextos – anteriores e posteriores à obra.

A “dica” ou “sugestão”, portanto, é apenas para a leitura de Ulisses no ano em que ele, Ulisses, completa cem anos – junto com a nossa Semana da Arte Moderna. Só para lembrar que essa obra, que também inaugura a modernidade literária no ocidente, nasceu junto com a modernidade artística brasileira – e não por mera coincidência.

Se a nossa modernidade artística nasceu ou não em 1922, com a Semana da Arte Moderna nas brumas da pauliceia de um século atrás, é um tema tão controvertido quanto o Ulisses de Joyce. Mas essa é outra história. De controvérsias em controvérsias vamos fazendo também a história, e tanto o controvertido Ulisses quanto a polemizada Semana da Arte Moderna estão aí, a fazer 100 anos.

_____________________________

http://www.outrasprosas.wordpress.com

Publicado em Crônicas | Deixe um comentário

Mães paralelas

CLARO que o novo filme de Pedro Almodóvar, “Mães Paralelas”, que está nos cinemas e e no streaming, é mais uma obra-prima com a marca registrada desse cineasta espanhol que se mostra um “especialista em maternidade”.

Começo pelos cenários internos. Merecem registro. São interiores meio retrôs. Vintage. Decorados com cores quentes e mobiliário customizado, meio anos 60, meio anos 70. Um show de ousadia e bom gosto, que acaba por despertar variadas emoções, aderindo na medida certa à trilha sonora.

A história é um melodrama feminino e surpreendente, cheio de reviravoltas, aliás, como tudo o que o Almodóvar faz. Duas mulheres – uma madura e a outra, adolescente – dão à luz ao mesmo tempo, na mesma maternidade.

Ambas são solteiras e engravidaram “por acidente”. A mulher madura, Janis, vivida por Penélope Cruz, deseja a maternidade; a jovem Ana, encarnada pela boa Milena Smit, não queria ser mãe, relata ter sido estuprada numa festa de embalo.

Os destinos de ambas se cruzam, dão à luz duas meninas, e a partir de então Pedro Almodóvar costura à vontade os temas que compõem a trama do filme: amor e rejeição materna, troca de bebês, amores casuais, gravidezes inesperadas, relações homossexuais femininas e, claro, o grande desafio que de fato é a maternidade.

Mas há também um elemento histórico. A personagem de Penélope Cruz, bem como seus familiares, busca obsessivamente encontrar a ossada de um antepassado direto que fora morto pelas Falanges fascistas na época da Guerra Civil Espanhola e que estaria enterrada nas imediações de Madri, onde se desenrola o filme.

Não há um vínculo explícito entre os dramas pessoais abordados no longa e esse fato histórico. Mas há uma óbvia atualidade que os une. Almodóvar tenta mostrar que tanto os dramas individuais quanto a história coletiva exigem a verdade, e a verdade “se recusa a ficar calada” (citação do uruguaio Eduardo Galeano, no final).

É muito óbvia também (e atualíssima) a mensagem de que a verdade histórica merece respeito; não pode ser conspurcada e, quando for o caso, precisa ser restabelecida, sob pena de incorrermos nos erros do passado, como pode ser o caso do fascismo, que ainda nos espreita.

O filme é inteligente, emocional e saboroso do começo ao fim. Creio que nem é preciso destacar (“ça va sans dire”, como dizem os franceses), a exuberante atuação de Penélope Cruz, indicada, com justiça, ao Oscar 2022 de melhor atriz.

Considero imperdível mais esse filmaço do Almodóvar. Insisto no detalhe: não esqueçam de conferir os interiores customizados e suas cores vivas e quentes, a suscitar emoções que eu não saberia descrever aqui; só vendo, mesmo.

____________________________

http://www.outrasprosas.wordpress.com

Publicado em Crônicas | Deixe um comentário

Estupidezes do nosso tempo

ESTÁ claro que o ódio não é uma invenção da internet. Não surgiu com ela. O ódio, pode-se dizer, é bíblico – de tão velho. Assim como o amor, dizia o pensador espanhol Emilio Mira y López, o ódio é mais uma das emoções humanas, e das mais poderosas. E destrutivas.

Mas, se a internet não criou o ódio – e realmente não criou -, ela tem sido, sim, uma ferramenta muito eficaz para alimentar e disseminar o ódio. Isso é fato!

Assim, é importante desenvolver mecanismos para não se deixar levar pelo ódio que as redes digitais espalham, muitas vezes intencionalmente – porque o ódio gera reações, as reações geram engajamento nas páginas de internet, e esse engajamento gera lucro.

Se, no final das contas, o ódio dá lucro, então será muito difícil combatê-lo. Porque não é comum combater o lucro; todos sempre o quiseram para si, nunca buscaram rejeitá-lo. Porque, na sociedade de mercado, rejeitar o lucro, ou qualquer coisa que dê lucro, é pura insensatez, quase uma insanidade.

Sabemos que as grandes plataformas da internet são orientadas pelos algoritmos. São eles (os algoritmos) que indicam os caminhos do engajamento. E onde há engajamento há lucro. Logo, o ódio lucrativo, que gera engajamento e dinheiro, está sim nos planos dos algoritmos da internet, que apontam os caminhos para que esse ódio chegue até nós.

O problema é que os tais algoritmos não têm controle nem transparência; podem gerar lucro e reproduzir o ódio lucrativo à vontade, como bem entenderem. Está aí um dos grandes desafios destes tempos digitais: controlar o ódio e aqueles que lucram com ele.

O outro desafio é a desinformação.

Por incrível que pareça, a mentira na internet também é lucrativa. Bem por isso que as grandes plataforma digitais, as chamadas big techs, não têm nenhum interesse em combater as fake News que circulam por elas. Desinformação gera reações, reações geram engajamento, e engajamento gera monetização, lucro.

E o pior é que os governos não têm conseguido estabelecer nenhum controle sobre os abusos das grandes plataformas de tecnologia digital. Não podem com elas. Estamos, portanto, à mercê dessas gigantescas corporações que, movidas pelo lucro, não se importam com a nossa paz nem com a verdade.

Essas empresas da tecnologia da informação (TIs), que de fato fizeram uma revolução (digital) no mundo todo, e que pareciam caminhar decididamente na direção de um progresso monumental, patinam também na estupidez e até na selvageria humana.

Não é à toa que Walter Benjamin gostava de dizer que todo monumento de progresso é também um monumento de barbárie, fazendo coro a Robert Musil para quem o progresso sempre carrega consigo uma dose de estupidez.

____________________________

http://www.outrasprosaswordpress.com

Publicado em Crônicas | Deixe um comentário

A mão de Deus

DIZEM que o filme do italiano Paolo Sorrentino, A MÃO DE DEUS, lançado agora em dezembro, é um forte concorrente ao Oscar de melhor filme estrangeiro de 2021. E de fato o filme é muito bom.

Trata-se de uma obra autobiográfica: Sorrentino voltou à sua terra natal (Nápoles), ao pé do Vesúvio e de frente para a ilha de Capri, com o propósito de filmar uma história que junta fatos reais de sua adolescência, o “jeito napolitano de ser” e a necessidade de construir o futuro do adolescente.

A história transcorre nos anos 80, por ocasião da chegada do jogador Maradona ao time do Nápoli, que agitou e mudou os rumos do futebol italiano. Mas, a não ser no nome, o filme não é propriamente sobre futebol!

O título é uma referência explícita ao gol que Maradona fez com a mão, contra a Inglaterra na Copa de 1986, “vingando” a derrota dos argentinos para os ingleses na Guerra das Malvinas. O gol teria sido anotado, segundo o próprio craque, por “la mano de Dios”.

Aproveitando aquele contexto dos anos 80, a forte influência do futebol na cidade e os difíceis anos da pós-adolescência de Sorrentino em sua provinciana Nápoles, o cineasta italiano faz uma bela reflexão sobre destino, escolhas, formação humana e possível intervenção divina.

O pós-adolescente Fabiettto (alter ego de Sorrentino), vivido na tela por Filippo Scotti, acabara de perder pai e mãe num acidente estúpido dentro de casa (intoxicação por monóxido de carbono) e precisava, como se diz, “tomar um rumo na vida”. Seu sonho era ser cineasta.

O jovem não conseguiu chorar no velório dos pais, mas entendeu ali que nunca mais seria completamente feliz. O futuro abria-se a sua frente, poderia realizar seu sonho, conquistar muitos amores e até ser feliz – mas nunca completamente. O cinema era sua única alternativa, pois a realidade não lhe interessava mais; até o futebol ficara para trás…

Numa cena improvável – um encontro com o cineasta Antonio Capuano (também nascido em Nápoles) -, o jovem Fabietto entende que para tomar o destino em suas mãos, olhar para o futuro e realizar seu plano de ser um diretor de cinema seria preciso muita coragem. Aliás, coragem e boas histórias para contar.

Nesse suposto encontro com o cineasta conterrâneo, Fabietto entende também que só pode contar boas histórias quem sabe o que é a dor humana. Não basta ter esperança – já que a esperança, diz o personagem de Capuano nessa cena-chave do filme (exageradamente explícita), é uma armadilha!

Pois bem, nessa história toda, de coragem, escolhas, destino e formação do homem, que até então era apenas um adolescente com seu sonho ousado e suas incertezas, haveria lugar para a mão de Deus? É ver o filme…

Ao lado de uma história instigante, vale a pena ver também como Sorrentino retrata na tela o folclore (a lenda do mongezinho), as crenças, costumes e o estilo (estereotipado) da típica família napolitana – muito engraçado.

Neste último caso – família e costumes que interferem até na iniciação sexual do jovem em formação -, sobram humor e sátira inteligentes; tudo a confirmar, penso, que o filme realmente vale a pena!

____________________________

http://www.outrasprosas.wordpress.com

Publicado em Crônicas | Deixe um comentário

A filha perdida, o filme

É realmente bom de ver o filme “A filha perdida”, baseado no romance homônimo da escritora italiana Elena Ferrante, que valeu a estatueta Globo de Ouro de melhor direção à coprodutora e diretora Maggie Gyllenhaal, e melhor atriz a Olivia Colman – premiações justas.

Trata-se de um drama psicológico em profundidade, desses que resvalam o trauma. No centro da história estão temas como maternidade, liberdade da mulher, desejo e culpa. Esses são, me pareceram, os ingredientes fundamentais (e complexos) da trama.

A personagem de Olivia Colman, Leda, professora universitária de meia-idade, vai passar alguns dias de férias numa ilha grega e conhece na praia pessoas de uma mesma família, dentre elas a jovem mãe de uma garotinha que está vivendo também o conflito entre a liberdade feminina e a maternidade, tal como a protagonista vivera no passado.

Aí começam as reminiscências e comparações. Afloram então os traumas e a culpa que a professora Leda carrega consigo por ter deixado as duas filhas na infância, quando elas tinham 6 e 7 anos de idade, para correr atrás de sua carreira acadêmica e de uma ligeira paixão extraconjugal.

Depois de três anos longe de casa, Leda volta a viver com as filhas e o marido, mas a culpa permanece. Explorando o velho (velhíssimo, bíblico) confronto entre culpa e desejo, a trama parece presa ao dilema vivido por Leda entre a dor de ter abandonado as filhas e a urgência de exercer sua própria liberdade.

Jogando com essas questões complexas da psique feminina, o filme suscita uma outra interrogação, também central: a maternidade seria tão sublime quanto insuportável? É uma questão complexa e absurda, tanto quanto é absurda e complexa a vida humana. Não por acaso, o filósofo do absurdo, Albert Camus, é mencionado numa passagem do filme.

Sobre esses dilemas evocados pelo longa-metragem, será muito interessante ouvir os feminismos atuais: mais afeitos a afirmar os direitos da mulher no campo objetivo (extrospectivo) da política, têm no filme uma bela oportunidade para fazer também a luta “introspectiva”, encarando essas angústias tão intransferivelmente femininas.

Por abordar um drama psicológico, claro que o filme estaria, como está, carregado de simbolismos – seja nos olhares, nas expressões e nos silêncios, seja nas bonecas quebradas e perdidas que aparecem na história.

Rodado numa ilha grega, o filme preferiu o tom comedido, intimista e minimalista das cenas, sem explorar fortemente a beleza natural do entorno, aliás, como convém a uma história sobre a alma humana e suas dores. A trilha sonora seguiu no mesmo tom: linda e capaz de evocar também reações íntimas.

Palmas para a diretora que se manteve fiel ao gênero psicológico, focada nas questões humanas internas, apesar do apelo externo de um cenário arrebatador. Se é para entender a alma humana, não importa o lugar; somos os mesmos seres atormentados em qualquer parte do mundo, em qualquer cenário.

O charme, a fleuma e o magnetismo de Olivia Colman, a professora Leda, requerem um comentário à parte. Não à toa, a atriz britânica (tinha de ser britânica!) faturou o último Globo de Ouro na categoria nobre de melhor atriz. Com justiça!

Enfim, o conjunto da obra é excelente. Merece aplausos sob todos os aspectos. Creio, portanto, que vale a pena perder – ou ganhar -, duas horinhas vendo mais essa bela produção do streaming.

____________________________

http://www.outrasprosas.wordprerss.com

Publicado em Crônicas | Deixe um comentário